A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente no dia a dia das profissões. No ensino superior não é diferente: tais ferramentas fazem parte da formação de novos profissionais, atuando como auxiliar em trabalhos acadêmicos nas mais diversas áreas.
No Vale do Sinos, a transformação digital se faz presente na rotina dos estudantes da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e da Universidade Feevale, que permitem o uso da IA em seus cursos e definem normas para que a prática ocorra de forma responsável.
Um exemplo disso é o estudante de Arquitetura da Feevale, João Victor Fagundes, de 23 anos, que utilizou o Google Gemini durante o desenrolar do projeto do prédio de um centro de coleta na comunidade Kephas, em Novo Hamburgo.
“Eu e meu grupo levamos para a IA esse trabalho, como a gente queria, onde seria, qual o tipo de material… Marcamos o lote onde o prédio seria construído pelo Google Earth e ele nos trouxe a prévia visual de como ficaria”, explica João.
“A IA não é uma ferramenta técnica e não é tão confiável, a gente é que precisa ter o conhecimento técnico para dar seguimento nesse processo. Mas ela ajuda muito a validar ideias”, continua.
O coordenador do curso, Alexandre Rosa Bento, comenta que, se usada de maneira adequada, a inteligência artificial ajuda a potencializar o trabalho dos estudantes. “Ela auxilia nos diagramas de um projeto e também no aperfeiçoamento de imagens realísticas de arquitetura. Os alunos aprendem a usar mais como uma ferramenta, como foi anos atrás com as buscas pelo Google”, afirma.
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“Temos inclusive um núcleo de estudos de IA e as formações são constantes aos professores. A universidade também disponibiliza o Copilot, mais uma IA para os alunos. Acredito que nosso papel é formar profissionais com ética, não só no uso de IA mas de todas as ferramentas disponíveis”, acrescenta.
Com a estudante da graduação em Gestão para Inovação e Liderança da Unisinos, Lyandra Teixeira Garcia, de 19 anos, não é diferente. A atividade da qual Lyandra participou consistia em um júri simulado para debater quem seria o sucessor de uma empresa familiar, levando em conta quem seriam os interessados a gerir a empresa no futuro e como funcionariam possíveis direitos à herança.
“Eu era a advogada do gestor e usei a IA para analisar como eu poderia refutar e responder de forma embasada. Eu utilizei LLM, é uma das IAs que mais gosto e tenho usado para outras cadeiras também, porque não alucina, ela usa só as fontes que o usuário colocar”, conta.
“Eu colocava ‘quero usar esses argumentos’ e, depois, enquanto o colega falava, eu ia digitando ‘ele usou dessa forma, colocou dessa forma, com base no meu personagem, eu posso dar quais argumentos’”, continua, acrescentando que usou como fontes os textos da aula para garantir o fundamento técnico.
Lyandra comenta ainda que um dos principais cuidados que tomou foi garantir que a ferramenta não utilizasse fontes externas. “Eu repetia o tempo todo: ‘utilize apenas as fontes que eu mandei’, porque, se ela pegasse qualquer coisa da internet, não teria o embasamento da aula e não teria sentido a atividade, que era uma conclusão das outras”, descreve.
O professor da disciplina, Jefferson Monticelli, acredita que a inteligência artificial deve ajudar os profissionais sem substituí-los. “A gente utiliza a IA para tentar realizar os trabalhos mais operacionais, por exemplo, para consolidar um relatório, fazer uma comparação e estabelecer diferentes hipóteses, mas nunca para trazer a resposta final”, defende.
“A parte intelectual, a competência, nunca vai ser perdida. Não adianta gerar um relatório super completo, super preciso, e o aluno não conseguir analisar, tanto dentro do ambiente acadêmico como no ambiente profissional”, completa.
Universidades apostam em mudanças nas grades curriculares, formações e orientações
De acordo com a gerente de Desenvolvimento de Ensino da Unisinos, Cristiane Schnack, a universidade busca atuar de forma que os estudantes entendam as implicações éticas ao utilizar a IA.
“A gente entende que a IA é uma área específica na área de Tecnologia da Informação, por isso temos a graduação em Inteligência Artificial, que traz aprofundamentos bem importantes, mas também é uma competência que impacta todas as profissões, então todos os cursos têm uma trilha de micro-certificação com aula sobre Inteligência Artificial e Sociedade”, descreve.
“Nessa disciplina, eles vão entender quais são as questões éticas de responsabilidade socioambiental, de mudanças na configuração da vida social. Nas outras, trabalhamos sempre com a mão na massa, observando quais ferramentas podem ser usadas e os cuidados necessários”, continua.
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Cristiane ainda menciona dois documentos voltados a este âmbito: a Resolução sobre Uso de IA em Trabalhos Acadêmicos, focada em transparência no uso de dados e IA, e o documento de Orientações Pedagógicas para os professores, focado nas competências que o aluno precisa desenvolver e em quais pontos a IA pode ser utilizada.
Na Feevale, a pró-reitora de Ensino, Maria Cristina Bohnenberger, descreve que o ensinamento sobre inteligência artificial e ética permeia todos os cursos, sempre com diretrizes para que o uso se dê de forma responsável.
“Não podemos pensar no processo de formação de qualquer estudante sem contemplar de alguma forma a inteligência artificial, porque todas as profissões vão utilizar essas ferramentas. Penso que temos que tomar cuidado com a privacidade dos dados e para não perder o senso crítico, porque algumas pessoas acabam usando a IA para pensar”, pontua.
“Em todas as atividades temos disciplinas de ética, comportamento e normas, de como se deve atuar no mercado de trabalho. O resultado delas sempre vai depender do quanto os alunos absorvem esse conhecimento e como se posicionam perante o mundo”, prossegue.
Conselho Nacional de Educação começa a desenvolver regulamentações
Após sugestão do Ministério da Educação (MEC), o Conselho Nacional de Educação (CNE) começou a desenvolver a primeira regulamentação oficial para o uso da inteligência artificial (IA) no ensino brasileiro, seja no básico ou superior. Com o objetivo de criar um “filtro ético-pedagógico”, a nova norma define que IA não deve substituir a supervisão humana, além de separar práticas por níveis de risco.
Entre os usos de menor risco estão ferramentas de apoio à produção de materiais didáticos, tradução automática, acessibilidade, organização de aulas, adaptação de conteúdos e apoio ao estudo, que dão agilidade ao professor e ajudam a gerar conteúdos mais claros para alunos com diferentes necessidades.
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Dentre as de risco intermediário estão sistemas de tutoria inteligente, plataformas que sugerem exercícios personalizados e ferramentas que oferecem devolutivas sobre desempenho, que demandam transparência, supervisão humana e acompanhamento pedagógico.
Classificadas como alto risco estão situações como correção automatizada de provas com impacto acadêmico, monitoramento biométrico, análise disciplinar automatizada, seleção de benefícios e sistemas que criam perfis individuais de estudantes. Nestes casos, a instituição de ensino deverá garantir auditoria, explicação, revisão humana e proteção de dados,
Para ser homologado pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini, o documento ainda deve passar por votação em plenário pelo CNE. O Ministério menciona que o tema é uma prioridade, visto que deve alinhar a academia ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e à política Nova Indústria Brasil.