“O racismo ainda nos exclui.” A frase, dita por Sandra Regina Carvalho Soares, uma das mediadoras do Coletivo Pretas, expressa a urgência de espaços que valorizem a fala, o pertencimento e o protagonismo das mulheres negras.
Em Novo Hamburgo, esse espaço existe. O Coletivo Pretas tem reunido mulheres do município com o objetivo de potencializar os saberes, valorizar as trajetórias individuais e coletivas e romper com as estruturas que historicamente as oprimem.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Criado em 2022, o grupo se consolida como uma rede de apoio e resistência para mulheres negras hamburguenses. Com três encontros anuais, o coletivo proporciona rodas de conversa sobre temas urgentes, como racismo, machismo, identidade, autoestima e espiritualidade afrocentrada.
Além disso, os encontros promovem o compartilhamento de vivências, fortalecem laços afetivos, impulsionam o empreendedorismo negro e reafirmam o valor da mulher preta em toda a sua potência.
“A nossa intenção é dar visibilidade e acolhimento para as mulheres negras. O acolhimento é muito importante para nós. A cada novo encontro, a gente traz um tema, e o de hoje é a solidão da mulher negra. Porque, muitas vezes, vivemos sozinhas em vários segmentos, tanto na política quanto na vida social. Então, o racismo ainda nos exclui. Por isso, estamos aqui para nos ouvir. Essa é uma rede de apoio, de suporte e de empoderamento”, detalha Sandra.
Transformação acontece com conhecimento
Neste sábado (26), a iniciativa chegou ao seu quarto encontro, realizado na sede da Escola de Samba Protegidos, no bairro Rondônia, e reuniu dezenas de mulheres. O tema da vez foi “a solidão da mulher negra”, um debate que mergulhou nas dores de quem carrega, ao mesmo tempo, o peso do racismo e do machismo estrutural.
Para completar a tarde de conhecimento e empoderamento, o Coletivo Pretas também apresentou a história de uma heroína negra. “Contamos a história de mulheres que nos ensinaram e nos fazem mais fortes até hoje. A transformação só acontece com conhecimento”, sublinha Sandra. Desta vez, a homenageada foi a professora Cida Bento, de 72 anos. “Ela empodera ações antirracistas”, conclui.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Jaqueline de Fátima Garcia da Silva participa desde o primeiro encontro do Coletivo Pretas e conta que sua vida tem sido impactada desde que passou a frequentar os encontros. “Só por sermos mulheres, já somos discriminadas. Sendo mulher preta, então, nem se fala. Mas posso dizer que o Coletivo Pretas já transformou muita coisa na minha vida. Eu já me sinto mais forte, consigo falar mais e me impor”, afirma.
Além da troca de vivências e reflexões, o encontro deste sábado também contou com feira de empreendedoras negras, como forma de valorizar e estimular a economia criativa afro. Entre elas estava Janaína Leal, artesã de São Leopoldo, que cria bonecas e artigos afros. Para ela, empreender também é um ato político.
“Eu faço bonecas com cabelo crespo, com turbantes, com roupas coloridas. É uma forma de mostrar para as nossas crianças que elas são lindas do jeito que são. O que eu faço com minhas mãos é uma forma de combater o racismo também”, coloca.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
Projeto Sarau Damas do Samba vai contar a história de mulheres negras ligadas ao carnaval de Novo Hamburgo
Criado por Danusa Alhandra, o projeto Sarau Damas do Samba presta homenagens a mulheres negras que fazem parte da história do carnaval de Novo Hamburgo. Financiado por meio do PNAB (Plano Nacional Aldir Blanc), o projeto prevê cinco edições de saraus e culmina, em agosto, com o lançamento de uma revista que vai reunir as trajetórias das dez mulheres celebradas ao longo do ciclo.
Segundo Danusa, a intenção é valorizar desde matriarcas da cultura do samba, como Tia Nair e Tia Lininha, até jovens que vêm escrevendo novas páginas dessa história, como Olivia, de 12 anos, que é mestra de bateria no projeto Sábado da Gente.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
“O sarau acontece desde janeiro. A ideia foi dar visibilidade para essas mulheres que sempre estiveram à frente das escolas de samba, mas que foram pouco reconhecidas. Elas fazem carnaval, lideram projetos, sustentam a cultura, mas quase sempre só os homens são lembrados”, explica Danusa.
Neste sábado (26), durante o encontro do Coletivo Pretas, o Sarau Damas do Samba realizou sua quarta edição. As homenageadas da vez foram Patrícia Silva, conhecida como Tica, que é poetisa e diretora cultural, e Mari Sandra, referência no carnaval local, mãe de santo e histórica porta-estandarte.
Embora seja um projeto independente, o Sarau Damas do Samba se unificou ao evento do Coletivo Pretas por ocasião do 25 de julho, data que marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Teresa de Benguela. Para Danusa, a união entre os projetos foi natural. “Todas nós estamos falando da mesma coisa, que é dar visibilidade e voz às mulheres negras”, pontua.
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