A menos de duas semanas do fim da campanha de vacinação contra a gripe, municípios do Vale do Sinos, Paranhana e Caí ainda estão longe da meta estipulada pelo Ministério da Saúde para os grupos prioritários.
Dados atualizados até o início desta semana mostram índices de cobertura variando entre 29% e 41% nas cidades da região, enquanto a meta nacional é de 90%.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
O cenário ocorre em meio ao aumento da circulação de doenças respiratórias no Rio Grande do Sul e ao avanço dos casos graves de influenza no Estado. Conforme dados da Secretaria Estadual da Saúde, o RS registra 53 mortes pela doença em 2026.
Também integram o grupo de prioridades: trabalhadores da saúde, professores, pessoas com comorbidades, pessoas com deficiência permanente, caminhoneiros, forças de segurança, profissionais do transporte coletivo, entre outros públicos elegíveis.
Em Passo Fundo, somente nesta semana foram confirmados três óbitos: uma criança entre um e quatro anos, uma adolescente, com idade entre 12 e 19 anos, e uma idosa com mais de 80 anos. Nenhuma delas estava vacinada contra a gripe. Os casos reforçam o alerta das autoridades de saúde sobre a importância da imunização, especialmente entre idosos, crianças pequenas, gestantes e demais grupos vulneráveis.
Na última semana, a Famurs divulgou levantamento apontando dificuldades de abastecimento de vacinas contra Influenza e Covid-19 em cidades gaúchas. Segundo a entidade, 79% dos municípios consultados relataram suspensão temporária da vacinação em alguma unidade de saúde nos cinco dias anteriores à pesquisa por falta de doses.
Com a proximidade do encerramento da campanha, previsto para 30 de maio, prefeituras intensificam estratégias para ampliar a adesão da população, enquanto o Estado monitora o avanço das síndromes respiratórias e a pressão sobre os serviços de saúde.
Inverno Gaúcho com Saúde
A Secretaria Estadual da Saúde (SES) reforça que o cenário observado nos municípios da região também se reflete em nível estadual. Até o momento, cerca de 38% da meta de cobertura vacinal dos grupos prioritários foi alcançada no Rio Grande do Sul, índice considerado abaixo do esperado pela pasta.
O Estado destaca que a meta de imunizar ao menos 90% do público prioritário segue mantida e que a ampliação das coberturas vacinais é tratada como prioridade permanente. Apesar disso, a SES reconhece que a adesão ainda precisa avançar, especialmente entre crianças, gestantes e idosos, que concentram o maior risco de complicações por influenza
Diante desse cenário, o governo estadual vem intensificando as ações dentro do programa “Inverno Gaúcho com Saúde 2026”, com foco na ampliação do acesso à vacinação e no fortalecimento da rede de atenção básica.
Entre as medidas estão a ampliação de horários de unidades de saúde, abertura de serviços nos fins de semana, reforço de equipes e repasse de R$ 7,5 milhões aos municípios para qualificação da atenção primária e atendimento a casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG)
Além disso, o Estado mantém estratégias de vigilância epidemiológica, monitoramento da ocupação hospitalar e ações de comunicação para incentivo à vacinação e combate à desinformação.
Crianças seguem como principal preocupação
Mesmo em municípios com cobertura acima da média regional, as crianças de 6 meses a menores de 6 anos seguem sendo o grupo com menor adesão à campanha de vacinação contra a gripe.

Foto: Priscila Carvalho/Arquivo GES-Especial
Em Sapiranga, por exemplo, a cobertura entre crianças está em apenas 12,12%, índice considerado preocupante pela Secretaria de Saúde. Em São Leopoldo, o percentual é semelhante: 12,9%. Já em Canoas, a vacinação alcança 18,26% do público infantil.
Em São Sebastião do Caí, as crianças atingiram 28,87% de cobertura, ainda bem abaixo da meta nacional. Em Parobé e Três Coroas, as prefeituras também apontam o público infantil como o principal desafio da campanha.
Segundo a prefeitura de Parobé, os casos positivos de influenza registrados no município têm se concentrado justamente entre crianças, grupo que apresenta menor adesão à vacinação. “Os números de casos positivos de influenza são em crianças, sendo essas que não estão aderindo a campanha”, pontua a prefeitura de Parobé.
As secretarias municipais reforçam que a baixa cobertura vacinal infantil preocupa especialmente diante da maior circulação de vírus respiratórios nesta época do ano e do risco de agravamento dos quadros em crianças pequenas.
São Leopoldo vai até as escolas
Em São Leopoldo, o público-alvo da campanha de vacinação contra a influenza é de 56.737 pessoas, entre idosos, crianças de 6 meses a menores de 6 anos e gestantes. Até o momento, foram aplicadas 16.473 doses nesses grupos, o que representa cobertura de 29,03%, muito abaixo da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde.
A análise por grupo mostra desigualdade expressiva na adesão. Entre os idosos, a cobertura chega a 34,83%. Já entre as gestantes, o índice é de 26,06%. O cenário mais crítico está entre as crianças de 6 meses a menores de 6 anos, que apresentam apenas 12,90% de cobertura, com 1.848 doses aplicadas.
Para tentar reverter o cenário, a secretaria da Saúde tem ampliado as estratégias de mobilização. Além das Unidades Básicas de Saúde com salas de vacinação em funcionamento de segunda a sexta-feira, o município intensificou ações em eventos públicos e atividades institucionais. Entre abril e maio, equipes de imunização percorreram escolas municipais e conveniadas de educação infantil, com foco na ampliação da cobertura infantil.
“Os índices estão distantes do esperado e acendem um alerta diante da aproximação do inverno”, informa a Prefeitura. Em relação ao abastecimento, o município informa que não houve falta de vacina contra a influenza, mas desabastecimento pontual em algumas unidades em relação à vacina contra a Covid-19, mas o estoque está sendo recomposto.
A partir deste sábado (23), o município inicia as Caravanas da Vacinação, que vão percorrer bairros aos sábados à tarde, com início pelo bairro Rio dos Sinos. No próximo mês, a estratégia será ampliada para escolas de ensino fundamental, em cronograma ainda em construção.
Na avaliação da rede de saúde, até o momento não houve impacto relevante nas internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), mas há expectativa de aumento da demanda com a queda das temperaturas e a baixa adesão vacinal entre os grupos mais vulneráveis.
Novo Hamburgo terá Casa da Vacina aberta neste sábado
Já em Novo Hamburgo, foram aplicadas 29.547 doses, o que representa 33,35% de cobertura. A situação também é mais crítica entre crianças, idosos e gestantes, com o município ampliando estratégias como a vacinação em escolas, instituições e ações em espaços públicos. No ano passado, já inclusas as vacinas após a abertura para outros públicos, a cobertura foi de 48%.

Foto: Gabriel Stöhr/GES Especial
Um dos destaques é a atuação da Casa da Vacina, que abrirá neste sábado (23) para ampliar a cobertura vacinal, das 9h às 15h. Este será o terceiro sábado de atendimento especial promovido pelo Município. A etapa é voltada exclusivamente aos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde.
“A vacinação é a forma mais segura e eficaz de prevenção contra a gripe. Estamos ampliando os horários e criando estratégias para facilitar o acesso da população. Quem faz parte dos grupos prioritários deve aproveitar essa oportunidade e garantir a sua proteção” destaca a secretária de Saúde, Betina Espíndula.
Com 83 anos, o ator Artur Oliveira mantém há cerca de três décadas uma rotina que, segundo ele, mudou sua relação com as doenças respiratórias: a vacinação anual contra a gripe. O hábito começou ainda antes de ter idade prioritária.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Oliveira relata que sempre teve imunidade baixa e que, durante longos períodos do ano, enfrentava episódios recorrentes de gripe e resfriados. “Ficava gripado do outono até o fim da primavera. Era um problema sério, porque sempre precisei usar a voz, devido ao canto coral e ao teatro”, conta.
A mudança na rotina começou a partir da convivência com o serviço de saúde do bairro Guarani, onde ele acompanhava a mãe em dias de vacinação. Em uma dessas ocasiões, incentivado por profissionais da unidade, acabou recebendo a dose mesmo fora do público-alvo da época, aproveitando as sobras do último dia de campanha. “Quando veio a vacina eu ainda não tinha idade ideal. Por sugestão de amigas do posto, levava a mãe no último dia, aproveitava a sobra e também me vacinava”, relembra.
A experiência se repetiu ano após ano e virou compromisso permanente com a saúde. “Até hoje, com 83 anos, anualmente sou vacinado. Já estou no segundo cartão. Claro que fico resfriado, com coriza como todos, mas aquele ‘gripão’, nunca mais”, diz.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Canoas
Em Canoas, os dados do Ministério da Saúde apontam cobertura de 39,61% entre os grupos prioritários, acima da média de parte dos municípios da região, mas ainda distante da meta de 90%. No recorte por público, a vacinação alcança 18,26% entre crianças de 6 meses a menores de 6 anos, 42,90% entre gestantes e 46,44% entre idosos. O cenário segue a tendência regional de maior vulnerabilidade no público infantil, que concentra a menor adesão à campanha.
Municípios ampliam ações para elevar cobertura vacinal
Na reta final da campanha, municípios da região intensificam estratégias para tentar ampliar a cobertura vacinal entre os grupos prioritários.
Em Campo Bom, onde a cobertura chegou a 41,2%, acima das médias estadual e nacional, a Secretaria de Saúde afirma que a procura espontânea ainda é considerada baixa. O município realizou vacinação em Instituições de Longa Permanência, escolas, empresas e também de idosos acamados e domiciliados. Equipes de saúde ainda fazem busca ativa de pessoas dos grupos prioritários para ampliar a adesão.
Em Estância Velha, que registra cobertura de 39,57%, as ações incluem vacinação em escolas, lares de idosos, bailes da terceira idade, bairros de difícil acesso e ampliação do atendimento em unidades de saúde aos sábados. Neste sábado (23), haverá mutirão de vacinação na Vila Seca, no bairro das Rosas, além de aplicação de doses durante o evento “Vem Brincar na Rua”, na Praça 1º de Maio.
Taquara, que alcançou 29,91% de cobertura, aposta no Dia D de vacinação neste sábado (23), com atendimento em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) das 8h às 12h. O município também intensificou a divulgação em redes sociais, imprensa, carro de som, vacinação itinerante e mobilizações comunitárias.
Em Parobé, a cobertura atual é de 35,33%. Entre as estratégias adotadas estão horários estendidos, vacinação em escolas, creches e empresas. Já Igrejinha, com 39,64% de cobertura e 5.393 doses aplicadas, reforçou campanhas de conscientização, vacinação escolar, busca ativa e ampliação de horários de atendimento.
Três Coroas, que registra 33% de cobertura vacinal, ampliou a vacinação em localidades do interior, manteve atendimento em sábados e horários estendidos até as 20 horas, além da imunização domiciliar de pacientes acamados e da vacinação em instituições de longa permanência.
Em São Sebastião do Caí, onde a cobertura chegou a 34%, a vacinação ocorre também em EMEIs, instituições de idosos, postos volantes e até em um supermercado da cidade neste fim de semana.
Já Dois Irmãos, com cobertura próxima de 40%, prepara reforço das equipes de enfermagem para ampliar a vacinação domiciliar entre junho e agosto, especialmente entre públicos prioritários.
Em Ivoti, a campanha de vacinação contra a gripe já aplicou 3.851 doses e alcançou 41,04% de cobertura entre os grupos prioritários. Entre as estratégias adotadas estão a checagem de cadernetas de vacinação em escolas, orientação aos pais e ações de divulgação nas redes sociais, além do Dia D realizado em 28 de março. A vacinação segue restrita aos grupos prioritários e, segundo a secretaria, ainda não é possível observar impacto significativo na redução de atendimentos por doenças respiratórias.
Falta de doses afetou campanhas em parte da região
Além da baixa adesão, municípios também relatam dificuldades relacionadas ao abastecimento de vacinas, especialmente contra a Covid-19. Em alguns casos, houve suspensão temporária da vacinação ou necessidade de reorganização dos estoques nas unidades de saúde.
Campo Bom informou que recebeu remessas reduzidas de vacinas contra Influenza e Covid-19, o que provocou desabastecimento pontual em algumas unidades. Situação semelhante foi registrada em Estância Velha, onde a prefeitura atribui parte da baixa cobertura ao período de escassez de vacinas.
Em Parobé, a prefeitura afirma que precisou cancelar atividades previstas no início da campanha devido à falta de doses contra a influenza. Três Coroas também enfrentou problemas logo no primeiro Dia D de vacinação, quando as doses recebidas acabaram antes do horário previsto de atendimento. O município ainda precisou suspender temporariamente a vacinação contra a Covid-19 em algumas unidades e instituições de longa permanência por falta de imunizantes.
Dois Irmãos também passou por período de desabastecimento da vacina contra a gripe, situação que, segundo o município, já foi normalizada. Em outras cidades, como Sapiranga e São Sebastião do Caí, o maior problema ocorre com a vacina contra a Covid-19, que enfrenta baixo estoque ou falta momentânea de doses. Ivoti afirma que não enfrenta falta de doses no momento, mas já teve períodos pontuais de desabastecimento devido ao envio em remessas pelo Estado.
Hospitais e unidades registram aumento da procura
Enquanto tentam ampliar a vacinação, municípios da região já percebem aumento na procura por atendimentos relacionados a síndromes respiratórias e internações hospitalares.

Foto: Bruno Morais/GES-Especial
Campo Bom relata crescimento significativo nos atendimentos por síndromes gripais em unidades básicas, pronto atendimento e hospitais. Em Estância Velha, a prefeitura afirma que o avanço das doenças respiratórias já impacta diretamente na ocupação de leitos das unidades de saúde e do Hospital Municipal Getúlio Vargas.
Em Taquara, a Secretaria de Saúde aponta aumento tradicional na circulação de vírus respiratórios nesta época do ano, especialmente entre crianças e idosos. Situação semelhante é observada em Sapiranga e Dois Irmãos, que já registram crescimento nas internações e reforço da assistência pediátrica para os próximos meses.
Em Três Coroas, no entanto, os dados mais recentes apontam um possível reflexo positivo da vacinação. Após pico de 145 atendimentos relacionados a síndromes respiratórias em março, o município registrou queda de quase 25% na procura em abril, movimento que segue em maio.
Estado afirma que abastecimento foi normalizado
Sobre os relatos de falta de vacinas, a Secretaria Estadual da Saúde (SES) afirma que, neste momento, não há desabastecimento de doses contra a influenza no Rio Grande do Sul. Segundo o governo do Estado, as remessas mais recentes foram distribuídas às coordenadorias regionais de saúde nos dias 7, 14 e 19 de maio.
A SES reconhece, no entanto, que houve períodos pontuais de escassez ao longo de abril, situação atribuída a atrasos nas entregas realizadas pelo Ministério da Saúde. Em relação à vacina contra a Covid-19, o Estado informa que também houve distribuição recente de doses aos municípios, sem interrupção generalizada da vacinação, embora possam ocorrer reduções momentâneas de estoque em algumas cidades.

Foto: Bruno Ourique/PMC
O governo estadual reforça ainda que a campanha segue concentrada nos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde e que, até o momento, não há previsão de ampliação da vacinação contra a gripe para toda a população. Conforme a SES, uma eventual liberação dependerá do avanço da cobertura vacinal e da disponibilidade de doses.
Sobre os efeitos da campanha na rede de saúde, a secretaria avalia que ainda não é possível medir com precisão o impacto da vacinação na redução de internações e atendimentos relacionados às síndromes respiratórias. Segundo o Estado, a curva epidemiológica registrada em 2026 permanece semelhante à observada no ano passado, o que exige um período maior de análise para avaliar os efeitos da imunização.
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