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ABC NAS RUAS

RS-239 tem uma morte a cada dez dias em início de ano violento na estrada

Autoridades concordam que retornos influenciam acidentes; dos cinco acidentes fatais registrados até agora, três ocorreram durante manobras de retorno

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 18/03/2026 às 07h:00 Última atualização: 18/03/2026 às 13h:50
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O início de 2026 está mais violento na RS-239, rodovia que liga o Vale do Sinos ao Paranhana e é caminho para a Serra e ao litoral. Entre 1º de janeiro e 16 de março, cinco acidentes fatais resultaram na morte de sete pessoas, uma média de aproximadamente uma morte a cada dez dias. [Veja vídeo ao final desta reportagem.]

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Dos cinco acidentes com mortes em pouco mais de dois meses, três aconteceram em retornos | abc+



Dos cinco acidentes com mortes em pouco mais de dois meses, três aconteceram em retornos

Foto: ISAIAS RHEINHEIMER/GES-ESPECIAL

O caso mais recente ocorreu em 9 de março, quando Silvano Pimentel da Rocha, de 50 anos, morreu após colidir sua moto na traseira de uma carreta agrícola que era puxada por um trator que transitava pela RS-239, em Parobé.

A ocorrência reforça um cenário que tem se repetido nos primeiros meses do ano, que é um volume significativo de colisões, muitas delas com vítimas, e um número maior de acidentes fatais em comparação ao mesmo período do ano passado.

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Conforme dados do Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM), nos primeiros 75 dias do ano foram registrados 66 acidentes na rodovia, entre Novo Hamburgo e Rolante.

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O levantamento inclui ocorrências com danos materiais, com pessoas feridas e com mortes. Desse total, 41 acidentes deixaram pessoas feridas, somando 68 feridos, enquanto 20 tiveram apenas danos materiais. Além dos cinco acidentes que resultaram em mortes.

Somando feridos e mortos, os acidentes deixaram 75 vítimas diretas no período analisado. Ou seja, quase sete em cada dez acidentes registrados na rodovia tiveram algum tipo de vítima.

Dos 66 acidentes contabilizados, 46 resultaram em pessoas feridas ou mortas, o que representa cerca de 70% das ocorrências.

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A proporção reforça a gravidade do cenário. “Esse ano, de fato, tem ocorrido muito sinistro com a gravidade um pouco mais acentuada do que a gente acompanhava nos anos anteriores. Isso se dá em virtude da imprudência de alguns motoristas, mas é claro que há uma série de fatores. O fator de engenharia também está presente nisso”, comenta o tenente Fábio Alexandre Pedroso, comandante do Pelotão Rodoviário de Sapiranga.

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Para efeitos de comparação, no mesmo período do ano passado, o CRBM registrou apenas três acidentes fatais, que terminaram com três vidas perdidas.

Já o número total de ocorrências nesse período, contando acidentes com danos, lesões e mortes, foi de 56, o que representa um aumento de aproximadamente 17,86% entre um ano e outro.

Acidentes se concentram em três municípios

A distribuição dos acidentes ao longo da RS-239 mostra que três municípios concentram a maior parte das ocorrências no período. Novo Hamburgo e Taquara aparecem na primeira posição do ranking, com 12 acidentes cada. Logo depois vem Parobé, com 10 registros.

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Somados, os três municípios concentram 34 acidentes, o equivalente a pouco mais da metade de todas as ocorrências registradas na rodovia em pouco mais de dois meses.

Outras cidades também aparecem com números relevantes. Rolante, Campo Bom e Sapiranga registraram nove acidentes cada. Em Araricá foram três ocorrências e em Nova Hartz duas.

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Embora Novo Hamburgo e Taquara liderem em número absoluto de acidentes, nenhum dos casos registrados nesses municípios resultou em mortes neste início de ano.

As cinco ocorrências com morte registradas no período estão distribuídas em quatro municípios. Rolante concentra o maior número de acidentes fatais da rodovia em 2026, com dois casos.

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Os outros acidentes com morte ocorreram em Sapiranga, Nova Hartz e Parobé, cada um com uma ocorrência fatal.

Retornos viraram acessos para bairros em muitos locais | abc+



Retornos viraram acessos para bairros em muitos locais

Foto: ISAIAS RHEINHEIMER/GES-ESPECIAL

A análise dos registros também revela padrões em relação ao momento em que os acidentes ocorrem. O sábado concentra o maior número de ocorrências em 2026, com 13 acidentes registrados.

Na sequência aparecem as segundas e terças-feiras, com 11 ocorrências cada. Aos domingos foram contabilizados dez acidentes e nas sextas-feiras nove. Os menores registros ocorrem às quartas-feiras, com seis acidentes, e às quintas-feiras, com cinco ocorrências.

Em relação aos horários, o período mais crítico coincide com o fluxo mais intenso de veículos na rodovia. Entre 16 e 20 horas, foram registrados 20 acidentes neste período.

Retornos entram no radar após acidentes fatais

Além dos dados estatísticos, um fator específico tem chamado a atenção nas análises de acidentes ao longo da RS-239, que são os retornos existentes na rodovia.

Dos cinco acidentes fatais registrados neste início de ano, três ocorreram durante manobras de retorno, quando um veículo corta o fluxo de outro que segue pelo eixo principal da rodovia.

Um dos casos mais graves ocorreu no dia 4 de janeiro, no quilômetro 31, em Sapiranga. O motorista de um Fiat Uno realizou um retorno quando cortou a frente e foi atingido por uma motocicleta. O piloto e a passageira da moto, além do motorista do carro, morreram.

Outro caso ocorreu no dia 24 de janeiro, em Nova Hartz. Um ciclista morreu após ser atingido por um carro que realizava uma manobra de retorno. Já no dia 3 de janeiro, em Rolante, um motociclista morreu após ter a frente cortada por um veículo que tentava acessar o outro lado da rodovia por meio de um retorno.

“O caminho natural são os viadutos”

Para o professor de Engenharia Civil da Universidade Feevale, Glauber Candia Silveira, o cenário é preocupante e já coloca a estrada entre as mais perigosas do Rio Grande do Sul. “É uma das quatro piores do ponto de vista de registros de acidentes com mortos”, avalia.

Segundo ele, o problema vai além da imprudência dos motoristas e passa também pela própria configuração da rodovia. De acordo com o professor, os retornos existentes na 239 são pontos críticos porque exigem manobras arriscadas.

Na prática, muitos desses dispositivos funcionam com uma área de espera lateral, mas obrigam o motorista a atravessar o fluxo de veículos no sentido oposto. “O problema é cortar o fluxo da pista contrária”, explica.

Com o aumento do volume de tráfego, a dificuldade para realizar esse tipo de manobra cresce e, com ela, o risco de acidentes. Para reduzir os riscos, o professor aponta que não há soluções simples e que intervenções estruturais são inevitáveis.

“O caminho natural é a construção de viadutos”, defende. Segundo ele, esse tipo de obra elimina o cruzamento direto entre veículos. Esse modelo já foi adotado em outras rodovias importantes do Estado, como a BR-116, onde antigos pontos críticos foram substituídos por viadutos ao longo do tempo.

Quando a construção de viadutos não é viável, há alternativas intermediárias. Uma delas é a implantação de rótulas alongadas, que permitem o retorno sem a necessidade de cruzar diretamente a pista contrária. “A única forma de minimizar os acidentes é tirar os pontos críticos”, observa.

Entretanto, um dos principais entraves para a eliminação dos retornos é o fato de a RS-239 atravessar áreas urbanizadas em grande parte de sua extensão. “Não podemos impedir da pessoa passar de um lado para o outro. Isso exige soluções que conciliem o tráfego local com a segurança da rodovia, como a criação de marginais e passarelas”, observa.

Retornos viraram acessos a bairros, diz EGR

Responsável pela administração da rodovia, a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) afirma que muitos retornos existentes ao longo da RS-239 passaram a ter outra função ao longo dos anos.

Segundo o diretor-presidente Luís Fernando Pereira Vanacôr, vários desses pontos deixaram de ser utilizados apenas para retorno e passaram a servir como acessos a bairros e empresas.

“Hoje você tem bairros inteiros acessando a rodovia por esses locais. A 239 deixou de ser apenas uma rodovia duplicada e passou a funcionar como uma grande avenida dos municípios”, afirma.

Por isso, segundo Vanacôr, fechar esses dispositivos não é uma medida simples. Contudo, o início de ano violento no trânsito, fará com a EGR sente com o CRBM para olhar os dados.

“A gente vai examinar esses acidentes que ocorreram, onde ocorreram, para avaliar se podemos fazer algum tipo de intervenção”, sublinha.

Vanacôr afirma que a EGR sempre teve mapeadas as intervenções necessárias para serem feitas na 239, contudo, admite que o plano de concessões de rodovias fez o ritmo de projetos e obras diminuir.

“Como a 239 faz parte do programa de concessões, nós não desenvolvemos mais estudos, não iniciamos contratação de obra nenhuma por causa dessa ideia. Mas, essas melhorias vão acontecer, seja pela EGR ou por uma concessionária”, finaliza.

“Talvez não fechar todos, mas remodelar”, defende CRBM

Para o CRBM a quantidade de retornos existentes na rodovia também influencia na dinâmica dos acidentes. O tenente Fábio concorda que muitos retornos deixaram de cumprir a função original e se tornaram acessos. Mesmo assim, o comandante defende que parte desses pontos poderiam ser fechados ou remodelados.

“Não só seria viável como necessário. Talvez não fechar todos, mas remodelar”, coloca. Entre as alternativas citadas estão retornos alongados ou dispositivos conhecidos na engenharia viária como “alça de xícara”, que permitem a manobra sem cruzamento direto entre os fluxos de veículos.

Diante do aumento das ocorrências, o CRBM afirma ter intensificado ações de fiscalização ao longo da rodovia. Entre as medidas adotadas estão o reforço no patrulhamento, uso de radar móvel e ações educativas em empresas e escolas.

Veja o vídeo

A cada 10 dias, uma pessoa morre em acidente entre Novo Hamburgo e Rolante
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