Às vésperas do 20 de Setembro, data que marca a Revolução Farroupilha e é celebrada como o Dia do Gaúcho, entidades tradicionalistas da região abrem as portas para receber crianças e adolescentes em atividades voltadas à preservação da cultura. Em tempos em que costumes e valores regionais disputam espaço com a rotina acelerada e o mundo digital, iniciativas como essa reforçam o papel dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) na transmissão da herança cultural.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
No ACTG Portal da Serra, em Dois Irmãos, escolas municipais e instituições sociais levam turmas para conhecer o espaço, participar de brincadeiras, assistir apresentações das invernadas artísticas e aprender um pouco mais sobre o que significa ser gaúcho. A proposta é que os jovens tenham contato direto com danças, músicas, pilchas e símbolos do tradicionalismo, vivenciando de perto um ambiente que remete às origens campeiras e que vão muito além de um dia no calendário.
Segundo o patrão da casa, Eduardo Farias, a ideia é aproximar a gurizada do universo campeiro desde cedo. “Eles vêm no CTG, a gente apresenta a entidade, o pessoal das invernadas dança com eles, fazem brincadeiras… Geralmente vem em torno de 100 crianças por turno. É um jeito de mostrar, na prática, a importância de manter viva a cultura gaúcha”, afirma destacando que a ideia é mostrar, na prática, a importância de manter viva a cultura. “É um jeito de plantar a semente para que eles cresçam conhecendo nossas tradições.”
Do cavalo às rodas de dança
O contato com o cavalo e o passeio pelo campo foi um dos pontos altos da experiência. O capataz Lidiekson Peralta destacou o cuidado em apresentar os animais às crianças de forma segura e educativa. “O cavalo faz parte da nossa vida campeira. Quando a gurizada tem a chance de subir e dar umas voltas, cria-se um vínculo. Eles entendem que o bicho é parceiro, que é parte da lida”, disse.
A emoção apareceu no depoimento de Haylla Henzel, 11 anos, que participou do passeio: “Eu nunca tinha montado em um cavalo, foi incrível. Gostei muito da experiência e quero repetir.” Segundo ela, a atividade serviu como um incentivo para buscar o tradicionalismo. “Minha amiga é do CTG, eu tenho algumas roupas e acho que as indumentárias ficam lindas nas pessoas. Gosto também de ver as apresentações e é muito bom aprender um pouco mais”, relata.
Já Maximiliano Flores de Quadros, 13, lembrou que além da cavalgada, foi legal aprender sobre as roupas típicas e ver as danças. “Essas atividades são muito importantes pra gente conhecer as tradições do nosso povo. A minha família está bem ligada à tradição.”
As rodas de dança também chamaram a atenção. Integrantes das invernadas artísticas se apresentaram para os alunos e, depois, convidaram-nos para brincar e ensaiar alguns passos.
O cuidado com a indumentária
Outro momento de destaque foi a oficina sobre indumentária, conduzida pelo peão Farroupilha, Fernando Corrêa, de 18 anos. Ele mostrou peças tradicionalistas, explicou a função de cada item e ressaltou a importância do estilo campeiro. “Meu principal objetivo é poder ensinar essa gurizada nova que está vindo aqui, porque eles são o futuro. Poder ensinar essa gurizada a seguir o caminho certo e seguir preservando a cultura gaúcha campesina”, conta.
A prenda Karen Andressa Welter, 17, que também conduziu a oficina, reforçou o papel das famílias nesse processo de preservação: “As crianças aprendem aqui, mas levam para casa. É quando a família participa que a tradição realmente se fortalece. Por isso momentos como esse, de integração entre escola e CTG, são tão valiosos. Hoje, os celulares afastam as crianças do tradicionalismo, mas muitas vezes elas querem e não recebem o apoio dos pais. Eu tive esse apoio e graças a eles estou aqui”
Farias reforça que a indumentária do gaúcho é igual entre adultos e crianças e, por isso, muitas vezes há o desejo dos filhos se vestirem igual aos pais. “O menino usa bombacha, bota, alpargata, chapéu e o lenço do gaúcho. A menina usa o vestido, sapatilha, faz um laço no cabelo, um enfeite. Também tem a bombacha feminina. As crianças usam as mesmas indumentárias que os adultos, só diferenciam o tamanho”, explica o patrão.
Tradição que se renova
Mais do que ensinar a montar ou dançar, a proposta da programação é transmitir valores. Para o patrão Eduardo Farias, a Semana Farroupilha é uma oportunidade de mostrar que o tradicionalismo é dinâmico e se renova a cada geração. “Quando a gente vê a alegria deles, percebe que a chama segue acesa. O gaúcho que a gente celebra no 20 de Setembro é feito dessas pequenas experiências do dia a dia.”
O capataz Peralta reforça que não tem idade certa para começar. Ele, por exemplo, começou a ver os campos sob o lombo de um cavalo já aos três anos de idade. “Como a gente morava lá para o interior, que sempre teve cavalo e na lida também, eu sempre procuro dar esse incentivo aos pequenos”, complementa.
Conforme o vice-presidente Artístico do MTG – Movimento Tradicionalista Gaúcho, Luis Afonso Ovalhe Torres. é de fundamental importância para a continuidade cultural, o desenvolvimento da identidade e a evolução do povo tradicionalista. “Para isso, é necessário permitir a troca de experiências, valorizando os mais velhos, a troca de saberes, ouvir a nossa própria história por quem já viveu ela.”
Torres conclui dizendo que os valores que passam de geração em geração estão em casa. “Para isso, é preciso que, na família, haja educação, respeito, reduzindo — principalmente nos dias atuais — o preconceito, fazendo das nossas crianças pessoas mais harmoniosas e resilientes. Essa interação com os mais velhos, também fomenta o aprendizado, onde os mais jovens fortalecem os laços dentro das tradições gaúchas”, finaliza.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Festejos Farroupilhas
A valorização da cultura gaúcha também se estende ao Vale do Paranhana, onde ocorre o 17º Festejos Farroupilhas. Com oficinas culturais e shows no CTG O Fogão Gaúcho, em Taquara, o evento tem mobilizado milhares de crianças e adolescentes em atividades que vão do chimarrão ao campeirismo, reforçando o aprendizado prático sobre os costumes do Estado. A proposta é semelhante: aproximar os jovens da tradição por meio da experiência direta, em um ambiente de convivência coletiva.
Para a presidente da Associação de Amigos dos Festejos Farroupilhas do Paranhana, Camila Engelmann, esse contato é decisivo para que a chama do tradicionalismo siga acesa. “Nosso objetivo é despertar o interesse e o respeito pela cultura gaúcha. A adesão das escolas mostra que estamos no caminho certo para fortalecer esse legado”, destaca.