Principal responsável pela reprovação de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no Rio Grande do Sul, em 2025, a baliza deixou de ser uma etapa eliminatória da prova prática de direção nesta semana. A mudança, que passou a valer desde quarta-feira (4), ocorre após a entrada em vigor das diretrizes do novo Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular, publicado no domingo (1º) pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

Foto: Paulo Pires/GES
Somente em 2025, foram realizadas 361.387 provas práticas da categoria B (carro) no Estado. Desse total, 218.445 candidatos foram reprovados (60%). Entre os que não passaram, 139.583 falharam na etapa da baliza, o que significa que quase quatro em cada dez pessoas que fizeram a prova acabaram eliminadas por erro na manobra. Quando considerado apenas o número dos reprovados, o peso é ainda maior: cerca de seis em cada dez reprovações tiveram a baliza como motivo, concentrando 63,9% das eliminações, conforme a Assessoria de Comunicação do DetranRS.
Com a mudança, a avaliação prática passa a ser concentrada na condução em via pública, priorizando situações reais do trânsito. “A mudança da baliza como etapa principal e eliminatória acontece porque ela virou, ao longo do tempo, um exercício artificial, cheio de regras que não dialogam com a condução no mundo real”, afirma secretário Nacional de Trânsito, Adrualdo Catão.
Embora a baliza deixe de existir como etapa específica e eliminatória, o estacionamento segue fazendo parte do exame. Ao final do percurso, o candidato deverá realizar a manobra, conforme previsto no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), mas sem a lógica anterior de eliminação imediata.
Um mês da nova CNH no RS: primeiros números
O novo modelo da CNH no Rio Grande do Sul entrou em vigor no dia 5 de janeiro. Embora o curso teórico gratuito esteja disponível por meio do aplicativo e do site da CNH do Brasil, a abertura do Registro Nacional de Condutores Habilitados (Renach) continua dependendo da ida do candidato a um Centro de Formação de Condutores (CFC), onde são realizadas a biometria e os exames obrigatórios.

Foto: Paulo Pires/GES
Segundo o DetranRS, mais de 174 mil pessoas iniciaram o curso teórico online no Estado desde 9 de dezembro, mas apenas 26.623 (15,3%) processos de habilitação foram efetivamente abertos no Estado, com curso teórico concluído no modelo da CNH do Brasil até o dia 4 de fevereiro.
O número é semelhante ao de janeiro do ano passado, quando 27.146 foram abertos. Contudo, é bem superior aos processos dos últimos meses de 2025, quando se falava que a forma para obter a habilitação iria mudar. Entre outubro e dezembro, o trimestre somou 22.784 processos abertos. O dado indica um interesse elevado no novo modelo, mas também revela um descompasso entre quem começa a formação digital e quem efetivamente avança nas demais etapas.
Facilidade não garante preparo
A experiência de quem está iniciando o processo de habilitação ajuda a ilustrar os desafios do novo modelo. Morador de Novo Hamburgo, Ari Venturini acompanha de perto a formação do filho Antônio Venturini, de 18 anos, que está dando os primeiros passos para obter a CNH.
Segundo ele, a família optou pela formação teórica gratuita oferecida por meio do aplicativo e do site da CNH do Brasil. “Ele fez os quatro módulos obrigatórios disponíveis, que são necessários para poder abrir o processo no Detran. Como existia uma demanda reprimida, ainda não conseguimos fazer a prova teórica, mas já está agendada”, relata.
Apesar da facilidade de acesso ao conteúdo, Ari avalia que o material, sozinho, não garante preparo suficiente. “Só o conteúdo disponível no site não é suficiente. A pessoa precisa se dedicar em paralelo, como assistir a vídeos no YouTube ou resolver simulados disponíveis na internet”, afirma.
Na etapa prática, a decisão foi manter o modelo tradicional. “Optamos por pagar aulas junto à autoescola. Como pai, penso que, com o passar dos anos, adquiri certos hábitos que talvez não sejam corretos hoje em dia. Na escola, ele vai aprender tudo da forma correta”, explica.
Mais de 40 mil renovações automáticas
Outro ponto de destaque neste primeiro mês foi a renovação automática da CNH, implementada pela Senatran em 9 de janeiro. Até 4 de fevereiro, 44.222 condutores do Rio Grande do Sul já haviam renovado o documento de forma automática e gratuita, sem necessidade de comparecimento presencial. Isso significa que os condutores gaúchos deixaram de gastar mais de R$ 13 milhões com exames médicos e psicológicos.
Impacto nos CFCs
Em Canoas, a implementação das novas regras para a CNH gera questionamentos nos CFCs. Apesar de um aumento na procura pelos serviços, a redução de receita impulsionou a redução no quadro de funcionários dos centros de formação.

Foto: Paulo Pires/GES
“Houve um aumento da procura dos serviços por causa da diminuição da carga horária na formação e pela retirada dos fundamentos da prova de direção, como a baliza. Neste modelo, vamos entregar os condutores para a sociedade sem o conhecimento de fundamentos essenciais no ato de dirigir. Já reduzimos 40% da equipe. Afetou todos os cargos, desde instrutor até administrativo. O enxugamento pode aumentar. A previsão final é de redução de 60% no quadro dos centros de formação no Estado”, destaca o diretor-geral de um CFC no Centro de Canoas, Eduardo Oliveira.
O diretor defende a formação dos condutores no modelo anterior e questiona a ausência de estudos técnicos. “Como formador e instrutor, entendo que os fundamentos básicos devem ser mantidos: domínio do carro, direção defensiva, fundamento da baliza, exercício da lomba, exercício de retorno de três pontos, posicionamento na via são coisas fundamentais e de uma hora para outra foram retirados do sistema, isso nos preocupa bastante. Os custos para o condutor foram reduzidos, mas causam preocupação no trânsito.”
Para Oliveira, o diálogo e o tempo de adaptação para as novas regras deveriam ser maiores. Por isso, o diretor alerta para o impacto e riscos no trânsito. “A mudança do regramento foi muito brusca. Não houve uma preparação para as alterações implementadas. Fomos pegos de surpresa. Para ter uma ideia, na quarta-feira (4) ficamos sabendo pelo site do Detran que não teria mais a baliza. As coisas vieram muito no atropelo e podem prejudicar a formação dos condutores e refletir no trânsito a partir do momento em que a pessoa estiver habilitada”, opina.
Resultados das provas em janeiro de 2026
Os primeiros dados consolidados de janeiro de 2026 mostram que a reprovação segue elevada, especialmente na prova prática de carro. No mês, foram realizadas 19.835 provas práticas da categoria B, com taxa de aprovação de 43%. Outros 11.370 candidatos foram reprovados (57%).
Já nas provas teóricas eletrônicas, 29.149 exames foram aplicados, com 69% de aprovação. Nas categorias de duas rodas, a taxa de aprovação ficou em 63%, enquanto nas categorias C, D e E o índice foi mais elevado, chegando a 82%.
Habilitada na categoria B, Yasmin Lopes Ramos, 23 anos, decidiu adicionar a categoria A (moto) na CNH. “Para carro, fui habilitada pela regra antiga. Agora, estou fazendo a formação no modelo atual. Seriam duas aulas obrigatórias, mas optei por fazer dez porque não estava segura. Acho que as mudanças vão impactar individualmente cada pessoa. No meu caso, preferi gastar um pouco mais e reforçar os ensinamentos”, conta a moradora do bairro Mathias Velho, de Canoas.

Foto: Paulo Pires/GES
Apesar das mudanças, o DetranRS evita associar o novo modelo a uma facilitação do processo. Em nota, o órgão afirma que o foco permanece na segurança viária. “Nossa preocupação é que o candidato esteja bem preparado para enfrentar a realidade do trânsito, e não apenas passar na prova”, diz o departamento.
O que já mudou e o que ainda falta no RS
Um mês após a entrada em vigor da CNH do Brasil, o processo de habilitação no Rio Grande do Sul passou a conviver com um modelo híbrido, no qual parte das mudanças já está em funcionamento e outras seguem em fase de regulamentação.
Entre as alterações já implementadas, está a possibilidade de o candidato iniciar a formação teórica sem exigência de carga horária mínima presencial, com curso gratuito realizado pelo aplicativo ou site da CNH do Brasil. A abertura do processo, no entanto, segue vinculada aos Centros de Formação de Condutores (CFCs), onde são feitas a biometria, os exames de aptidão física e mental e o agendamento das provas.
Também já está em vigor a renovação automática da CNH para condutores aptos, serviço disponibilizado pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) desde 9 de janeiro e que, no primeiro mês, somou mais de 44 mil renovações no Estado.
No campo das provas práticas, a principal mudança recente foi a retirada da baliza como etapa eliminatória, com a avaliação concentrada na condução em via pública, conforme o novo Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular. A manobra de estacionamento segue presente, mas sem a lógica anterior de eliminação imediata.
Por outro lado, pontos centrais da nova legislação ainda não estão valendo no RS. Entre eles estão:
- autorização para aulas com instrutores autônomos;
- uso de veículos particulares na formação;
- permissão para veículos automáticos;
- nova forma de contabilização de pontos na prova prática, que substituirá a eliminação automática por um sistema acumulativo.
Segundo o DetranRS, esses itens dependem de regulamentação específica para garantir segurança jurídica e operacional antes de serem implementados. Até lá, os exames seguem sendo aplicados com regras mistas, em um período de transição que exige adaptação tanto dos candidatos quanto dos CFCs.
LEIA TAMBÉM