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CRIME

Cavalariano negro é vítima de injúria racial durante programação da São Leopoldo Fest

Marcelo da Silva Bernardo foi discriminado verbalmente durante o desfile de abertura da festa

Publicado em: 19/07/2023 às 13h:58 Última atualização: 18/10/2023 às 14h:41
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Um momento que era para ser somente de festa e celebração, a abertura oficial da São Leopoldo Fest, no último fim de semana, foi marcado, também, por um episódio triste de injúria racial.

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Durante o desfile, realizado na manhã de sábado (15), na Rua Independência, um cavalariano negro foi discriminado verbalmente por um espectador, que acompanhava a programação da calçada.

Marcelo da Silva Bernardo foi discriminado verbalmente durante o desfile de abertura da festa  | Jornal NH



Marcelo da Silva Bernardo foi discriminado verbalmente durante o desfile de abertura da festa

Foto: Valentin Thomaz/Divulgação-PMSL

Integrante do CTG Tio Lautério, onde também é coordenador de cavalgadas, Marcelo da Silva Bernardo desfilava carregando a bandeira do Estado quando ouviu de um homem branco a frase de que um negro não podia andar a cavalo no Rio Grande do Sul. “Em seguida, me chamou de ‘macaco’, ‘nego sujo’ e saiu falando mais coisas que já não escutei”, lembra Bernardo.

O caso revoltou companheiros de CTG de Bernardo, que queriam que o desfile parasse e que o homem fosse detido. “Pedi que mantivéssemos a calma, por que estávamos num evento oficial. E eu estava portando a bandeira de uma entidade, representando-a. Era eu, negro, pilchado, em cima de um cavalo. Significava muito para minha história, para minha família, para meus ancestrais. Eu segui o desfile, vim pra casa e desabei, como nas outras vezes que senti na pele o preconceito”, diz.

O caso ganhou repercussão e poucas horas depois, a Prefeitura emitiu uma nota, repudiando o ato racista do qual Bernardo foi vítima.

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“Além do repúdio, presto a minha solidariedade ao cavaleiro, faço questão de destacar que o município de São Leopoldo, berço da colonização alemã, foi e é formado por várias etnias como os povos indígenas, os africanos, os europeus e os latinos. Temos muito orgulho de termos uma diversidade tão rica compondo nossa cidade e o nosso país. O nosso povo solidário, trabalhador, acolhedor, não compactua com atitudes desta estirpe. Racistas não passarão”, frisou o prefeito Ary Vanazzi.

Na terça-feira (18), Bernardo, acompanhado do patrão do CTG, foi recebido pela secretária municipal de Direitos Humanos, Nadir Maria de Jesus. A secretária orientou Bernardo a registrar um boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia para que o caso seja investigado e o autor punido pelo crime.

“Para nós, que atuamos no combate ao racismo, o boletim de ocorrência é extremamente importante, pois nos ajuda para que a investigação ocorra, e o criminoso seja punido e para que a gente possa cada vez mais dentro da cidade fazer o debate étnico-racial”, enfatiza Nadir.

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“Somos parte da história desse povo”

Bernardo destaca o apoio que recebeu dos companheiros do CTG e também do Conselho Leopoldense de Tradições Gaúchas (CLTG), que o fizeram ver a importância do registro da ocorrência, que foi feito. “Hoje vejo o que aconteceu comigo como um aprendizado. Não só para mim, mas para a sociedade. É preciso denunciar, não calar. Passei 40 anos sendo vítima de preconceito, no sábado, por ter sido público, as pessoas que estavam ao meu lado sentiram o que sinto”, frisa.

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“O lugar do negro é onde ele quiser! Somos parte da história desse povo, represento a figura do gaúcho, do lanceiro negro, que luta pela liberdade e igualdade. Vivo no meio tradicionalista, respiro as tradições,a cultura, e esse é meu lugar. Os lanceiros lutaram pela liberdade na Guerra dos Farrapos, foram enganados depois de tanto pelear pelos ideais da revolução. Meu CTG leva o nome de um homem negro “Tio Lautério”. Meu papel é de pertencimento, de estar ali, de poder estar com minha família numa sociedade”, destaca.

Segundo Bernardo, esta não foi a primeira vez que sofreu discriminação por causa da cor da pele. “Diariamente acontece, a maioria de forma velada. Cenas que acontecem por conta da minha cor, eu vejo. Mas quem olha de fora pensa que não, que é coisa da nossa cabeça, ou que ‘foi sem querer’. Essa vez chocou por que foi público. A pessoa se autorizou a falar aquelas frases para mim, muita gente escutou e ficou indignada”, lembra.

“O sentimento é de tristeza, a gente fica sem entender tamanho preconceito. De forma velada já incomoda bastante, mas escutar palavras fortes, ofensivas, foi bem triste”, completa.

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Crime

No dia 11 de janeiro de 2023, o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva assinou a lei que equipara injúria racial ao crime de racismo. Na prática, a mudança altera o texto do Código Penal e torna as penas mais rígidas em casos de crimes cometidos contra indivíduos nas mais diversas situações, incluindo eventos esportivos. Agora, a pena para casos de injúria é de dois a cinco anos de reclusão e poderá ser dobrada se o crime for cometido por duas ou mais pessoas. Antes, a pena era de um a três anos.

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A nova lei ainda atualiza o agravante, de reclusão de dois a cinco anos e multa quando o ato é cometido por intermédio dos meio de comunicação ou de publicação de qualquer natureza, incluindo também os casos de postagens em redes sociais ou na Internet.

A injúria racial é a ofensa a alguém, um indivíduo, em razão da raça, cor, etnia ou origem. Um exemplo disso é chamar um homem negro de macaco. Já o racismo ocorre quando uma discriminação atinge toda uma coletividade, ao por exemplo, impedir que uma pessoa negra assuma uma função, emprego, ou entre em um estabelecimento por causa da cor da pele. 

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