Você bebe água enquanto come? Há quem diga que isso pode fazer mal, causando até indigestão ou ajudando a engordar. Outra crença comum é que o certo seria esperar um tempo específico para poder ingerir líquidos. Entretanto, os especialistas revelaram a verdade ao ABCmais: isso não passa de um mito.

Foto: Karola G/Pexels
Quem nunca ouviu falar sobre o “tempo certo” para poder beber algo após o almoço? Segundo os boatos, isso poderia atrapalhar na digestão e até causar aquela “barriguinha”. Recentemente, estava circulando a informação de que até mesmo a ingestão de água poderia causar problemas digestivos.
No entanto, os especialistas foram categóricos em entrevista com à reportagem do ABCmais de que isso não passa de mito. A ingestão de líquidos não interfere na digestão, nem pode causar qualquer prejuízo para a saúde, segundo o cirurgião do aparelho digestivo Antonio Carlos Weston. “O principal cuidado deve ser com o excesso”, afirma.
O mesmo é confirmado pelo gastroenterologista Fernando Herz Wolff, do Hospital Moinhos de Vento. Ele diz que não há qualquer evidência científica que sequer sugira que ingerir líquidos durante, antes ou após as refeições possa causar qualquer problema.
Algumas pessoas podem se sentir “mais cheias” por ter tomado algo enquanto comiam. “Daí, talvez, elas não tenham tanta vontade, e não consigam, ingerir tanta comida porque tomaram líquidos junto”, explica Wolff. “Mas não que isso atrapalhe em si o processo de digestão.”
A nutricionista assistencial Raissa Gorczevski, do Hospital Moinhos de Vento, afirma o mesmo. Segundo ela, beber algo enquanto come não retarda o processo digestivo de pessoas saudáveis. “O que pode acontecer é um desconforto que está relacionado ao volume total ingerido e à sensibilidade de cada um, e não a um efeito negativo real sobre a digestão”, diz.
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“Desconforto temporário”
Ao beber líquidos demais enquanto come, mesmo que seja água, pode haver um “desconforto temporário”, segundo o cirurgião Weston. “Grandes volumes podem causar sensação de estufamento e desconforto gástrico”, explica o médico, associado à Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs). “Mas a ingestão moderada, como um copo de água consumido lentamente, não interfere no processo digestivo.”
Já a nutricionista afirma que “pessoas com refluxo ou distúrbios gastrointestinais em geral devem reduzir ou evitar o consumo de líquidos durante a refeição”. “Nesses casos, pode haver uma piora dos sintomas”, afirma. Desta forma, o recomendado por ela é distribuir melhor essa ingestão para que seja feita ao longo do dia.
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E a temida “barriguinha”?
O estômago possui a capacidade de dilatar até pouco mais de 1 litro, entre 1,3 e 1,5, segundo estudos. Conforme o cirurgião do aparelho digestivo, não existe qualquer relação entre o consumo de água durante as refeições e o aumento da barriga, como dizem alguns rumores.
Segundo Weston, a água não provoca aumento estrutural do órgão, desde que não seja em excesso, nem está associada ao acúmulo de gordura abdominal. “A fisiologia do nosso corpo, estômago e digestão permitem que a gente faça a digestão desses alimentos sem ter problema, sem ter relação com a mistura de líquido”, completa o gastroenterologista Herz Wolff.
“Interessante que o estômago tem uma capacidade de ir esvaziando os líquidos com mais rapidez, às vezes em poucos minutos”, conta. Já os sólidos levam mais tempo para serem digeridos, por conter mais proteína e gordura. Ainda assim, Wolff reitera: uma coisa não afeta a outra.
Segundo a nutricionista, a chamada “barriguinha” está “relacionada ao acúmulo de gordura abdominal e/ou a distensão abdominal transitória”. Essa distensão, que é o aumento do estômago, pode ser causada pelos gases intestinais, fermentação de certos alimentos, constipação ou retenção de líquidos.
As bebidas açucaradas, principalmente, podem aumentar a ingestão calórica total, o que contribui para o ganho de peso, segundo a nutricionista. “Mas isso está ligado às calorias, não à água em si.”
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Tem tempo certo para tomar líquidos após refeições?
Outro mito comum é a crença de que é recomendado esperar alguns minutos após as refeições para poder beber algo. No entanto, os profissionais de saúde negam que isso seja real. “A orientação continua sendo evitar grandes volumes de líquidos logo após comer”, afirma Weston.
“Do ponto de vista científico e clínico, não existe um tempo ‘ideal’ universal que determine quando a pessoa deve ingerir líquidos após a refeição”, afirma Raissa Gorczevski.
Até pode haver uma orientação diferente para algumas pessoas, mas essas sugestões não são baseadas no “prejuízo digestivo, mas em conforto gastrointestinal”. Por exemplo, ela explica que as pessoas com uma maior sensibilidade ou doenças, como o refluxo, podem ter o volume e o tempo de ingestão ajustados para evitar o desconforto.
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E quando não é água?
Ainda que não seja capaz de prejudicar a digestão, os profissionais da saúde recomendam evitar as bebidas gaseificadas, tanto os refrigerantes quanto as alcoólicas, e aquelas que contém açúcar.
Tomar bebidas gaseificadas durante as refeições aumentam a pressão dentro do estômago, o que favorece uma distensão gástrica, segundo Weston.
Isso porque elas aumentam a pressão dentro do órgão, favorecendo a distensão gástrica e podendo desencadear refluxo gastroesofágico. Ele é caracterizado pelo retorno do conteúdo do estômago para o esôfago e pode provocar sintomas como azia, queimação e desconforto significativo.
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Assim como as gaseificadas, as bebidas açucaradas e/ou ricas em cafeína, “podem favorecer o desconforto gastrointestinal, aumento do consumo calórico, piora do refluxo e interferir na absorção de alguns nutrientes, especialmente quando consumidas com frequência ou em grandes quantidades”, afirma a nutricionista.
Ao contrário da água, que é uma bebida segura, neutra. “A melhor escolha para acompanhar ou suceder as refeições”, afirma ela.
As informações veiculadas nesta matéria são apenas para fins de educação. Em caso de sintomas, ou de dúvidas, um profissional de saúde deve ser consultado.