Por muito tempo, derrubar árvores às margens de rios pareceu uma solução prática para expandir agricultura, construir estradas e ocupar terrenos. No entanto, assim como alertavam especialistas e ativistas sobre os males da prática, hoje sentimos o preço que essa prática cobrou dos próprios rios e de quem depende deles.
Essas faixas de vegetação que acompanham os cursos d’água têm nome técnico, chamado “mata ciliar“, e funcionam como uma espécie de “armadura viva” dos rios. Quando são retiradas, toda a estabilidade do sistema começa a desmoronar.
O que acontece quando a margem fica “nua”?
Sem as raízes para segurar o solo, as margens dos rios desmoronam com facilidade. O material arrastado cai direto no leito do rio, em um processo chamado assoreamento, que deixa o rio mais raso, mais largo e muito mais propenso a transbordar nas chuvas.
Pesquisas realizadas no rio Jaguaribe, no Ceará, mostraram que em trechos sem mata ciliar o recuo das margens chega a ser quatro vezes maior do que em trechos preservados.
Secas e enchentes como consequência
Segundo especialistas, a ausência das árvores provoca, ao mesmo tempo, mais enchentes e menos água disponível. Isso acontece porque a vegetação cumpre duas funções opostas, mas complementares. Por um lado, ela retém a água no solo e alimenta o lençol freático. Por outro, controla a velocidade com que a água escoa durante chuvas.
Sem essa regulação, nos períodos de chuva a água desce rápida demais para os rios, causando inundações. Nos períodos secos, o lençol freático empobreceu tanto que falta água.
Um exemplo concreto disso é o caso do rio Acre. Com quase metade da vegetação nativa perdida desde 1970, o rio registra hoje tanto cheias históricas quanto secas que comprometem o abastecimento de cidades inteiras.
Rio que vira esgoto
A mata ciliar também funciona como filtro. Ela impede que agrotóxicos, sedimentos e lixo escorram direto para dentro da água. Sem ela, o rio recebe tudo isso sem barreira alguma, o que eleva a turbidez da água e torna o tratamento mais caro e difícil.
Além disso, a falta de cobertura vegetal reduz a biodiversidade ao redor dos rios. Peixes, aves e outros animais que dependem dessas áreas perdem habitat, e a cadeia alimentar local começa a se deteriorar.
Esse conjunto de perdas, inundações, seca, erosão e poluição, representa hoje um custo ambiental e econômico que muitos países e municípios estão tentando reverter às pressas. Ambientalistas alertam que recuperar a mata ciliar virou pauta urgente. No entanto, em meio à lentidão de recuperar essas matas, a melhor conclusão da ciência é: muito mais barato teria sido não tirar as árvores.




