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POLÍTICA

Bolsonaro recebia ala radical que romantizava golpe militar; Michelle e Eduardo incentivavam ação armada

Grupo de apoiadores do golpe militar era dividido em alas "radicais", "moderadas" e "menos radicais"; saiba quem participava de cada ala

Publicado em: 20/02/2025 às 13h:54
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Depois de perder a eleição presidencial, em outubro de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro passou a se reunir com grupos “radicais” que “romantizavam” o artigo 142 da Constituição para estimular uma intervenção militar no país.

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Bolsonaro | abc+



Bolsonaro

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A alegação consta no primeiro depoimento à Polícia Federal (PF), em 28 de agosto de 2023, prestado pelo tenente-coronel Mauro Cid, antigo ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro que fechou acordo de delação premiada com os investigadores.

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O sigilo sobre a delação premiada foi derrubado nesta quarta-feira (19) pelo ministro Alexandre de Mores, do Supremo Tribunal Federal (STF). No dia anterior, Bolsonaro, Cid e mais 32 pessoas foram denunciados pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros crimes.

Segundo o relato de Cid à PF, depois de ser derrotado em sua tentativa de reeleição, em outubro de 2022, Bolsonaro passou a receber três grupos distintos no Palácio da Alvorada, sendo que um deles era formado por pessoas “que gostariam, de alguma forma, de incentivar um golpe de Estado”.

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Esse grupo “queria que ele [Bolsonaro] assinasse o decreto”, relatou Cid, referindo-se a uma minuta de decreto para intervenção dos militares na Justiça Eleitoral. O documento previa a prisão do próprio Moraes, bem como do ministro Gilmar Mendes, do STF, e do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), então presidente do Senado.

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Uma minuta de teor similar foi encontrada pela PF na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, pouco depois dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. A peça foi inserida no processo como prova.

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Cid acrescentou que os integrantes deste grupo mais radical “acreditavam que quando o presidente desse a ordem [para o golpe], ele teria apoio do povo e dos CACs [colecionadores, atiradores ou caçadores com autorização para porte de armas]”.

Essas pessoas “’romantizavam’ o artigo 142 da Constituição Federal como o fundamento para o golpe de Estado”, afirmou Cid. O dispositivo diz que os militares atuam “sob a autoridade suprema do Presidente da República”, e que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

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Minuta de golpe e CACs

Entre os mais radicais no entorno de Bolsonaro, o tenente-coronel citou Filipe Martins, ex-assessor especial para assuntos internacionais da Presidência. Teria partido de Martins a iniciativa de redigir a minuta de golpe, segundo relatou Cid. Uma vez ajustado com as recomendações de Bolsonaro, o documento teria sido apresentado pelo próprio ex-presidente aos comandantes das Forças Armadas, em reunião no Palácio da Alvorada.

Segundo Cid, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro era também uma das mais radicais, insistindo junto a Bolsonaro sobre o apoio do povo e dos CACs para um golpe de Estado e insistia na busca por fraude em urnas eletrônicas. Filho do ex-presidente e atual deputado pelo PL de São Paulo, Eduardo Bolsonaro acompanhava os posicionamentos radicais. Ambos, entretanto, não foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República.

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No grupo conservador, também estariam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU) Bruno Bianco, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o brigadeiro Batista Junior, então comandante da Aeronáutica.

Àquela altura, em dezembro de 2022, milhares de apoiadores de Bolsonaro estavam acampados em frente a instalações do Exército para pedir uma intervenção militar. Cid relatou que o ex-presidente “não queria que o pessoal saísse das ruas” e “tinha certeza que encontraria uma fraude nas urnas eletrônicas e, por isso, precisava de um clamor popular”.

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Divisão por alas

Além dos familiares do presidente, a ala mais radical também era composta pelo ex-ministro Onyx Lorenzoni, pelo senador Jorge Seif (PL-SC), pelo ex-ministro Gilson Machado, pelo senador Magno Malta (PL-ES) e pelo general Mário Fernandes. Eles também não estão entre os formalmente denunciados pela PGR.

Ainda segundo Cid, havia uma subdivisão com os “menos radicais”, da qual participavam o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), o major da reserva do Exército Angelo Martins Denicoli, o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, e um “grupo de pessoas que prestavam assessoramento técnico”. Estes tentavam encontrar “elemento concreto” de fraude nas urnas eletrônicas. 

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Outra ala era formada pelos “moderados”, que, em maioria, eram generais da ativa que “apesar de não concordarem com o caminho que o Brasil estava indo, com abusos jurídicos”, entendiam que não havia nada a ser feito diante do resultado das eleições. Para eles, qualquer coisa em outro sentindo “seria um golpe armado que representaria um regime militar por mais 20 ou 30 anos”.

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O então comandante do Exército, general Freire Gomes, o chefe do Departamento de Engenharia e Construção, general Arruda, chefe do Comando de Operações Terrestres, general Teófilo, e o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, faziam parte deste grupo. 

Nesta ala, havia ainda aqueles que aconselhavam Bolsonaro a sair do País. Entre eles, o empresário Paulo Junqueira, que financiou a ida para os Estados Unidos, e Nabhan Garcia, secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura.

“Minuta do golpe”

O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro disse à PF que a chamada “minuta do golpe” chegou a ser apresentada pelo ex-presidente aos comandantes das Forças Armadas. Segundo Cid, Bolsonaro mostrou apenas os fundamentos a serem implementados, sem mostrar as ordens de prisão do ministro Alexandre de Moraes e a realização de novas eleições. Teriam participado dessa reunião, no Palácio do Alvorada, o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, do Exército, general Freire Gomes, e da Aeronáutica, brigadeiro Batista Júnior.

Benefícios

Em troca da delação premiada, Cid pediu para receber o perdão judicial ou cumprir uma pena máxima de dois anos por seu envolvimento na elaboração da trama golpista. O benefício que deverá receber, contudo, deve ser decidido pelos ministros do Supremo somente após eventual condenação.

Antes, a Primeira Turma do Supremo ainda deve julgar se aceita ou não a denúncia, tornando réus Bolsonaro, Cid e os demais envolvidos.

*Com informações de Estadão Conteúdo.

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