Julgar personagens de livros por seus crimes como se estivessem na vida real foi o desafio proposto aos alunos da Escola Técnica Bom Pastor, em Nova Petrópolis. O Tribunal do Júri envolveu os alunos do 2º ano do ensino médio, e ocorreu nos dias 30 de setembro e 1º de outubro.

Foto: Arquivo Pessoal
Desenvolvido nas disciplinas de Língua Portuguesa e Produção Textual e Oratória, o trabalho foi idealizado pela professora Gracieli de Brida Sperotto. Gracieli conta que a ideia para a atividade surgiu nas aulas síncronas de 2020, durante a pandemia, quando os alunos de 3º ano do ensino médio leram a obra “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, e discutiram a culpabilidade dos personagens do livro.
A partir deste estímulo e das técnicas de argumentação já trabalhadas em sala de aula, a professora projetou o conceito do Tribunal de Júri, instigando os estudantes à leitura da obra escolhida e à prática de liderança, planejamento e estudo de leis, criando repertórios socioculturais utilizados ao longo do ensino médio.
“Espero que eles compreendam que argumentar é para a vida, é fundamental, pois precisamos defender nossos ideais no mundo. Para isso, não basta apenas ter voz, é preciso também fazer-se ouvir”, destaca Gracieli.
Este ano, o projeto também integrou as disciplinas de Projeto de Vida e Sociologia, ministradas pelo professor Silvio Peters, ampliando as perspectivas discutidas durante a atividade.
O julgamento
Ao longo do ano letivo, os alunos participam de diferentes práticas de argumentação, desenvolvendo as habilidades necessárias para a simulação. No 3º trimestre, descobrem qual obra será analisada, as acusações em questão e as funções de cada aluno.

Foto: Arquivo Pessoal
Os estudantes se dividem entre os papéis de juiz, promotor, advogado de defesa, assessores, membros do júri e até os próprios personagens da narrativa, que se tornaram réus e testemunhas. A definição dos cargos é feita pela professora, com base na personalidade e desempenho dos alunos ao longo do ano.
Para se prepararem, eles contam com cerca de 30 dias de estudo. Nesse período, também recebem palestras de advogados, que apresentam o funcionamento de um tribunal, explicam as funções de cada cargo e oferecem orientações sobre o assunto. No dia do julgamento, um profissional da área acompanha a atividade, faz observações sobre o desempenho dos estudantes e auxilia na definição da pena, com base na legislação.
“Estudei muito a partir de livros jurídicos para montar minha argumentação e entender melhor como funcionava um julgamento de verdade. Também procurei prever os pontos que a defesa poderia usar, para assim refutá-los no meu discurso”, relata Laura Beatriz Peters, que atuou como promotora.
A obra discutida este ano foi “Mentirosos”, de E. Lockhart, que narra os verões da família Sinclair em sua ilha particular, explorando os segredos e dramas familiares que os cercam. No Tribunal de Júri, a protagonista Cadence Sinclair foi acusada de homicídio culposo, incêndio criminoso e maus tratos contra os animais.
A encenação acontece no auditório da escola, com bancadas organizadas para promotoria e defesa, cada uma composta por um advogado e dois assessores. Réus e testemunhas são interrogados por dez minutos, sendo cinco destinados a cada lado. Em seguida, promotor e defesa apresentam seus discursos, com 20 minutos cada para desenvolver os argumentos diante do júri.

Foto: Arquivo Pessoal
O debate prossegue com cinco minutos de réplica e cinco de tréplica, garantindo uma dinâmica semelhante à de um tribunal real. Ao final, o júri de estudantes define o veredito, e o juiz anuncia a sentença e a pena do personagem acusado.
A aluna Evelise Weber de Moura, que atuou como advogada de defesa, foi desafiada a interpretar os sentimentos que provocaram os crimes julgados. “Não basta apenas repetir fatos, é preciso entender o ser humano por trás deles. A atividade mostrou que em qualquer julgamento, existe sempre uma história mais profunda do que a aparência dos acontecimentos”, completa.