Mata Rindo executa um parceiro do crime com 16 tiros, por traição à quadrilha, enquanto um comparsa filma a brutalidade. Eles obedecem ao chefe do grupo, que está preso. Ainda por exigência do mandante, enviam vídeos do assassinato para ele ver na cela.
O homicídio, ocorrido em São Leopoldo há mais de três anos, vem trazendo à tona detalhes de uma perturbadora relação entre roubos, tráfico de drogas e massacres no Vale do Sinos.
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Foto: Brigada Militar
O executor conhecido como Mata Rindo, de 24 anos, vai a júri pelo assassinato de William Augusto Herber, o Gordo William, 20, ocorrido na tarde de 18 de janeiro de 2022, na Rua Manoel Viana, bairro Campina.
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A decisão é da juíza Eliana Endres Viero, da 1ª Vara Criminal de São Leopoldo, despachada no último dia 13 de junho. Nesta terça-feira (30), a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça negou recurso da defesa. Confirmou a pronúncia dos quatro acusados a júri. Falta marcar a data.
Estarão com Mata Rindo no banco dos réus o responsável pelo vídeo do homicídio, que foi parar nas mãos da polícia, o motorista do Hyundai HB20 que transportou a vítima ao local da execução e o acusado de ordenar o crime com um celular na cadeia.
O mandante é, segundo a investigação, o presidiário Jônatan Lemos de Oliveira, o Paizão, 42. Ele é também apontado como mentor de outros crimes brutais, como os dois ataques no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, nos dias de 6 e 9 de agosto de 2022, que deixaram quatro mortos e oito feridos a tiros.
A Polícia afirma que a vítima era membra ativa do grupo. De acordo com investigações, Gordo William havia participado do sequestro de um casal no bairro Campina, em dezembro de 2021. O homem, que era o alvo, conseguiu escapar com um carro em movimento. A mulher, de 31 anos, foi executada porque estava junto. É outro homicídio atribuído a ordem do presidiário.
Réus contaram a suposta traição
O próprio executor e o mandante explicaram a traição. Mata Rindo e Paizão contaram à Polícia que Gordo William pretendia roubar a quadrilha e matar o “segundeiro” do bando depois do assalto a uma loja de armas que estava sendo planejado. Os réus detalharam que a vítima queria ficar com fuzis e pistolas roubados após eliminar o parceiro que faria a segurança do grupo em outro carro, no caso, o “segundeiro”.
O roubo realmente acabou acontecendo, por volta das 8 horas de 2 de fevereiro de 2022. O bando saiu de São Leopoldo para o ataque em Três de Maio, no norte do Estado. O dono da loja e funcionários foram rendidos por três invasores com armas de grosso calibre e roupas camufladas, que roubaram 23 armas longas, 31 pistolas, seis revólveres, munições, facas e trajes de linhas de tiro.
No fim da manhã, cinco homens e uma mulher foram presos em Giruá, entre eles Mata Rindo, e o material foi recuperado. A investigação do assalto, que levou ao mandante na cadeia, também ajudou a desvendar engrenagens da quadrilha e a execução de Gordo William. Ele tinha sido eliminado 15 dias antes do roubo que ajudava a organizar.
“Por mim, eu pego e mato ele”
Mata Rindo e Gordo William eram amigos. Moravam juntos. O executor disse, no interrogatório, que se desentenderam quando o parceiro propôs matar o segundeiro e desviar as armas que seriam roubadas. Detalhou que, no momento, bebiam e fumavam maconha. Mata Rindo declarou que não concordou, contou para o pessoal da quadrilha e se ofereceu: “Por mim, eu pego e mato ele”.
O réu ainda apontou Paizão como mandante. E Paizão, também ouvido no foro de São Leopoldo, não só admitiu o homicídio como também a articulação do roubo à loja de armas. Já o suposto motorista do HB20, Íverson, e o filmador da execução, conhecido como Zoreia, usaram do direito de ficar em silêncio.
Gordo William teria sido atraído para uma volta de carro e levado ao local da execução. Conforme a perícia, levou sete tiros na cabeça, cinco no peito e quatro no pescoço.
Matador era muito apegado à avó
Morador do bairro Santos Dumont, em São Leopoldo, quase no limite com Novo Hamburgo, Mata Rindo foi definido pela mãe como uma criança amável. Frisou que era muito apegado à avó materna. Segundo ela, quando a idosa morreu, o menino ficou rebelde e começou a ser agressivo na escola.
Disse que o levou para tratamento psicológico no Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Declarou ainda que ele saiu de casa para traficar, pois ela não concordava. Mata Rindo também tem antecedentes por roubos de veículo, porte ilegal de arma de fogo, receptação, ameaça e lesões.
Mandante confessou crimes com orgulho
Se não tivesse sido preso após o roubo à loja de armas, Mata Rindo teria sido escalado, seis meses depois, para os massacres no bairro Canudos, em Novo Hamburgo.
Conforme as investigações, Paizão confessou em tom de orgulho que recrutou “alguns meninos” para as execuções. Ele foi condenado, no último dia 16, a 46 anos e oito meses de prisão pelo primeiro ataque, na madrugada de 6 de agosto de 2022.
Um homem de 50 anos morreu e outros quatro, além de uma mulher, foram baleados numa casa usada por usuários de drogas na Rua Danilo Dalmolin. O executor Patrick de Lima Nobre, 33, recebeu a mesma pena.
Os dois ainda devem ir a júri por três assassinatos e duas tentativas de homicídio praticados três dias depois em um bar na Rua Campo Bom, a dois quilômetros da casa, numa sucessão de confrontos entre rivais do tráfico na região metropolitana. Outros executores não foram identificados.