O mandante e um executor do agosto sangrento de 2022 no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, foram condenados a 46 anos e oito meses de prisão, cada um, em júri que durou 13 horas nesta terça-feira (16).
A pena é pelo primeiro ataque, que resultou em um morto e seis feridos a tiros em uma casa. Eles ainda devem ir a júri por três assassinatos e duas tentativas de homicídio praticados três dias depois em um bar, numa sucessão de confrontos entre rivais do tráfico na região metropolitana.
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Foto: Fotos Polícia Civil
O presidiário Jônatan Lemos de Oliveira, 42 anos, é acusado de ordenar a matança, da cela que habita em Charqueadas. Patrick de Lima Nobre, 33, é o único executor que virou réu. Os dois são de São Leopoldo, mas estariam vinculados a uma facção de Porto Alegre.
Um terceiro suspeito morreu em conflito com a Brigada Militar. Outro não teria sido identificado.
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O júri começou por volta das 9 horas e terminou às 22h25, quando o juiz da 1ª Vara Criminal de Novo Hamburgo, Flavio Curvello Martins de Souza, leu a sentença.
Ele mencionou que os jurados reconheceram o motivo torpe. “Os ataques foram realizados em retaliação a crimes cometidos pela facção rival [os Manos]”, destacou o magistrado, referindo a organização criminosa atingida, sediada no Vale do Sinos.
Vítimas consumiam drogas
O conselho de sentença também considerou, conforme o magistrado, “que o delito foi qualificado pelo emprego de recurso que dificultou a defesa das vítimas, pois estas estavam desarmadas consumindo drogas em local em que estavam habituadas a ficar, sendo surpreendidas pelos disparos de arma de fogo, sem imaginar o ataque homicida”.
O juiz expôs que a dupla tem maus antecedentes, incluindo outras condenações relacionadas ao crime organizado, e determinou a execução imediata da pena. Jônatan e Patrick foram reconduzidos ao presídio.
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Vingança no reduto inimigo
A ordem de Jônatan era impactar a facção do Vale do Sinos no principal reduto, o bairro Canudos. Por volta das 3 horas de 6 de agosto, conforme testemunhas, Patrick entrou em uma casa usada por dependentes químicos na Rua Danilo Dalmolin e pediu por drogas. A intenção seria identificar o traficante, mas ele acabou abrindo fogo contra todos, com a ajuda de um comparsa.
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Morreu na hora Claudiomiro Alexandrina, o Índio, 50. Um sobrevivente de 30 anos relatou que estava dormindo no sofá e levou dois tiros nas costas. Segundo ele, a casa estava cheia.
Outros quatro homens e uma mulher foram baleados e hospitalizados. Muitas pessoas escaparam pelas janelas. Os atiradores fugiram em um Peugeot 208 prata roubado, que estava com placas clonadas de veículo de mesma cor e modelo à venda em uma concessionária em Florianópolis.
Três horas depois e a 500 metros da casa, um adolescente de 17 anos foi encontrado morto com um tiro na cabeça. O corpo estava em um apartamento na Rua Bruno Werner Storck. A Polícia não encontrou relação entre os casos. O jovem tinha antecedentes por tráfico.
Mentor contou o crime com orgulho
A pena do mandante seria maior se não tivesse sido beneficiado pela confissão espontânea. Já cumprindo pena como mentor de outro homicídio em São Leopoldo, Jônatan foi ouvido ainda em 2022 no presídio. Relatou o ataque em Canudos com orgulho, segundo os policiais que o interrogaram.
Alegou que não concordava com assassinatos praticados pela facção do Vale do Sinos na zona leste da capital, que, segundo ele, feriam uma espécie de normas éticas entre os grupos rivais. Não ficou claro, no entanto, a qual facção pertence Jônatan, que se definiu como membro dos “abertos”.
Admitiu que recrutou “alguns meninos” para atacar pontos em Canudos. A confissão foi registrada por vídeo com autorização judicial. Já Patrick, que acabou preso durante as investigações, se negou a falar.
“Se preparem porque a guerra tá começando”
Jônatan e Patrick, conforme as investigações, são também mandante e executor da chacina em uma lancheria na Rua Campo Bom às 3h30 de 9 de agosto de 2022, uma terça-feira.
O crime, a dois quilômetros da casa atacada três dias antes, resultou na morte do dono do bar, Anselmo de Morais Davis, 40 anos, do cliente João Matheus Portes Padilha, 23, e de um homem de 30 anos. Uma adolescente de 17 e o namorado de 19, que faziam um lanche, sobreviveram aos tiros que levaram.
Patrick e outro encapuzado não identificado estariam em um carro de cor escura. Um deles fez um vídeo da execução, que foi divulgado no submundo para enaltecer a vingança. Um áudio dava o tom: “Se preparem porque a guerra tá começando. Vai ter mais”.
Conflito acabou quando policial foi baleado
As investigações apontaram que a matança realmente continuaria na área, mas ela acabou sendo freada na noite seguinte ao ataque ao bar, quando um inspetor do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) foi baleado na frente do Residencial Aeroclube, perto dos locais das execuções.

Foto: Arquivo/GES
O policial e um colega foram recebidos a tiros ao descer de viatura discreta na frente da entrada do condomínio. Os disparos teriam partido de membros dos Manos, pensando que os agentes eram do grupo rival. Foi o estopim de uma varredura policial de vários dias no bairro, com reforço de outras regiões e uso de helicóptero.
Houve até transferência de presos para penitenciárias federais. A situação foi acalmada em Novo Hamburgo, mas voltou para a capital.
Um corpo sem cabeça foi encontrado em um carro queimado na zona sul, no dia 25 de agosto, em meio a outras barbáries que foram setembro adiante daquele ano.