Um ciclone tem causado chuvas e vento intenso no Rio Grande do Sul, deixando o Estado em alerta desde segunda-feira (8). Nas últimas décadas, o número desses fenômenos meteorológicos tem aumentado em todo o hemisfério sul, e um dos motivos para isso está na Antártida.

Foto: Google Maps/Reprodução
Os ciclones são fenômenos definidos como centros de baixa pressão atmosférica, que se formam sobre o oceano ou o continente e podem resultar em tempestades e estragos, dependendo da intensidade.
Nesta semana, o ciclone que está atuando no RS causa chuvas, alagamentos e ventos fortes, tanto dentro quanto fora do Estado. Como em uma cidade do Paraná, onde as rajadas passaram de 130 km/h na manhã desta quarta-feira (10).
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Mesmo estando a cerca de 3,6 mil quilômetros de distância um do outro, o RS está conectado à Antártida quando os assuntos são clima e tempo. Principalmente quando se trata de ciclones.
E um dos fatores para o possível aumento de ciclones no RS é justamente a temperatura do planeta Terra, que está mais alta. Quem explica isso é o climatologista Francisco Eliseu Aquino, atualmente professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do RS (Ufrgs), que conversou com a reportagem do ABCmais duas vezes neste ano.
“A cada ano que passa, o planeta fica mais quente e os eventos extremos ao redor da Antártida se amplificam”, afirma o mestre em sedimentação glaciomarinha e clima (geologia marinha).
Além do mestrado em geologia marinha, Aquino também tem doutorado com ênfase em mudanças climáticas entre a Antártida e o Sul do Brasil pelo Programa de Pós-Graduação em Geociências da Ufrgs e Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec)/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
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E não são apenas os eventos extremos ao redor do continente antártico que ficam maiores. “A gente tem dito que um planeta mais quente deixa os ventos de altitude mais rápidos”, afirma Aquino. “Quando você olha a circulação dos ventos em altitude entre o RS e Antártida, toda vez que essa incrementação se acelera ou se amplifica, você forma mais ciclones extratropicais.”
E o impacto da aceleração desses ventos pode ser sentido também na aviação. “É por isso que existe mais turbulência nos voos do que na época dos nossos avós e dos nossos tataravós.”
Esses ventos em altitude se intensificam quando estão abaixo da Linha do Equador, em direção à Antártida. “Porque lá tem 90% do gelo da Terra, gerando resfriamento para Terra”, explica. “Essa intensificação é marcada em algumas regiões do hemisfério sul: sul do Brasil, Rio Grande do Sul, sul da África do Sul, sul da Austrália e Nova Zelândia.”
Segundo o professor, a quantidade de tempestades, frentes frias, queda de granizo, raios, inundações e até secas está diretamente associada ao número de ciclones, que aumentou nas últimas décadas. “E isso tem impacto no tempo e no clima dessas regiões.”
Assim, além do RS, isso também afeta as outras áreas do hemisfério sul, citadas anteriormente.
Oscilação Antártica atual pode causar ciclones mais intensos
A Oscilação Antártica está negativa desde setembro, segundo Aquino. Isso ficou ainda mais acentuado em outubro. Na semana passada, a MetSul Meteorologia havia explicado que essa permanência longa poderia levar a ciclones extratropicais se formando com mais frequência em locais próximos ao território do Brasil.
Segundo o pesquisador em climatologia, essa AAO é “interessante” e está sendo causada pelo impacto da mudança climática global, “sem dúvida alguma”, além de outros fatores. Um dos principais motivos para essa permanência na fase negativa está no aquecimento da Terra.
Em volta da Antártida, o auge do inverno acontece em setembro, enquanto o ápice do verão é no final de fevereiro. Segundo Aquino, é em fevereiro que deve haver o menor nível de gelo marinho. “E a gente observou, nos últimos fevereiros, valores abaixo dos menores conhecidos”, afirma Francisco Eliseu Aquino.
O esperado é que, durante o auge do inverno, o gelo marinho tenha voltado ao volume anterior. O que acontece, no entanto, é perceber que ele de fato cresceu, mas não o tanto que deveria. “Ele está perto dos limiares recordes mínimos conhecidos para mais de século”, explica.
Com essa extensão menor de gelo marinho na Antártida, “você tenta suavizar a Oscilação Antártica de uma fase neutra para negativa, mas o planeta segue muito quente e queria puxar ela para uma positiva, digamos assim”, diz o professor. “O resultado foi a gente permanecer numa fase negativa.”
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Fase negativa também causa temperaturas mais baixas
Para o RS, essa fase negativa da AAO significou “ciclones, entrada de ar frio e temperaturas mais baixas”. E, em setembro, outubro e novembro, esse clima ameno”, explica ele. Isso também pode fazer com que os fenômenos sejam mais intensos, além de ser mais propício que avancem em direção ao RS, assim como até a África do Sul ou a Austrália.
“Você vai formar ou ter mais ciclones passando por aqui. […] Em algum momento, um ciclone pode, sem dúvida, ficar mais intenso”, reitera. O que causa a intensidade dos fenômenos é o contraste entre o trópico, a região subtropical, e a Antártida.
O ciclone que está deixando o RS em alerta durante essa semana, se formou na terça-feira (9) e deve perder a força ainda nesta quarta-feira (10), se afastando do continente na quinta-feira (11).