O Rio Grande do Sul viveu, nesta quarta-feira (18), o ponto mais crítico da semana em relação às chuvas intensas, conforme alertaram a Defesa Civil Estadual e a MetSul Meteorologia. Embora o cenário não seja comparado ao de maio 2024, a água que cai de maneira incessante eleva os níveis dos rios e causa temor em moradores que, há pouco mais de um ano, passaram pela maior tragédia climática da história do Estado.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A instabilidade segue intensa e já provoca alagamentos, deslizamentos e transbordamento de rios em diferentes regiões. Até esta tarde, mais de 50 municípios já haviam sido afetados pelas chuvas volumosas. Pelo menos duas mortes foram confirmadas e cerca de 2.200 pessoas estão fora de casa, entre desalojadas e abrigadas.
A MetSul aponta que os acumulados seguem altos, especialmente na Região Metropolitana, Centro e Leste do Estado. Só entre terça-feira (17) e a manhã desta quarta, municípios como Igrejinha, Sapucaia do Sul e Canoas superaram os 130 milímetros. A previsão indica que as precipitações continuam até sexta-feira (20), com volumes que ainda podem variar entre 75 mm e 150 mm em diversas cidades.
Diante do cenário, os municípios intensificam ações emergenciais e planos de contingência:
Parobé montou três abrigos e já abriga cerca de 40 pessoas no bairro Guarujá. O prefeito Gilberto Gomes relatou resgates com barcos e alerta para o risco de novas cheias ainda nesta noite. “Pedimos que quem está nas áreas de risco, saia logo porque à noite é pior.”
Três Coroas tem alerta da Defesa Civil Estadual para alto risco de deslizamentos. A Prefeitura disponibilizou o Ginásio Municipal Armando Brusius como abrigo e cancelou aulas na tarde desta quarta. O nível do Rio Paranhana estava em 2,45m às 15h40. Coordenador da Defesa Civil Local, Augusto Dreher reforçou: “Ainda teremos dias de chuva, mas não é nada semelhante a maio de 2024.”
São Sebastião do Caí entrou em cota de inundação no fim da tarde, com o Rio Caí atingindo 10,50m. Famílias já foram abrigadas no ginásio B do Parque Centenário, onde nove famílias (26 pessoas) estavam acolhidas até o início da tarde. O governador Eduardo Leite esteve no município para acompanhar a situação.
Igrejinha também enfrentou extravasamento do Rio Paranhana. Às 13h, o rio chegou a 4,5m, mas depois recuou. “Apesar de não estarmos mais em alerta para cheias, estamos em alerta para deslizamentos. Tivemos acumulados de 140mm, muito além do que se previa”, explicou o prefeito Leandro Horlle, destacando risco alto nas próximas 24 horas.
Campo Bom segue em estado de atenção. O Rio dos Sinos alcançou 5,34m às 13h, sendo que o alerta é emitido a partir de 6m. O responsável pela estação meteorológica do município, Nilson Wolff, calcula que o nível de enchente poderá ser alcançado caso os acumulados se aproximem de 130 mm. “Dados da Estação Imigrante Norte apontam que entre a meia noite e 10h, choveu em Campo Bom 40 mm, que somados aos 67 mm do dia anterior, somam 107 mm”, disse.
Moradores do bairro Barrinha temem nova enchente, relembrando o impacto de 2024. “No ano passado, a água passou por cima da nossa casa, destruiu. Nós ganhamos material e construímos há quase dois metros mais alta, mas achamos que vai ter enchente de novo. Meu irmão mora em Igrejinha, disse que lá está com muita água e vai descer tudo para cá”, contou um morador.
Novo Hamburgo registrou deslizamentos
Novo Hamburgo teve 98 mm de chuva entre terça e quarta-feira. O Rio dos Sinos estava em 5,91m às 16h, abaixo da cota de inundação (6,60m). A Defesa Civil atendeu três ocorrências de deslizamentos, que resultaram na retirada de famílias dos bairros Liberdade, Boa Saúde e Canudos. Em uma delas, um bebê de dois meses foi retirado do local pouco antes do desmoronamento. No bairro Santo Afonso, a Casa de Bombas opera com seis equipamentos ligados e mais duas reservas.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
“São ações antrópicas somadas com fenômenos da natureza. As pessoas mexem onde não podem, e isso aumenta o risco. Queremos dizer para a população ficar tranquila, pois a Defesa Civil segue trabalhando. Também pedimos que a comunidade siga as orientações e informações que estão sendo colocadas periodicamente nos canais da Prefeitura”, orienta o diretor da Defesa Civil do município, Gilson Amaral.
Uma das maiores preocupações foi quanto às erosões registradas no dique do bairro Santo Afonso, ao lado da Casa de Bombas. Os deslizes foram causados apenas pela água da chuva, o que fez com que moradores temessem por um rompimento caso o nível do rio subisse. A Prefeitura, no entanto, reiterou que não há risco de desmoronamento:
“O aterro que apresenta movimentação desde o início das chuvas ainda não foi compactado. O material foi depositado ali na semana passada para permitir a circulação de pessoas durante a visita do ministro da Casa Civil. Nos locais onde o talude já foi compactado não há qualquer tipo de movimentação ou abertura. Não há nenhum risco do dique desmoronar.”
Além disso, houve a remoção de uma árvore caída na Rua Marcílio Dias, no Centro, operação que deixou o trânsito parcialmente interrompido. Ainda em Novo Hamburgo, a reportagem verificou que a água passava por cima da Estrada Affonso Strack, em Lomba Grande, já próximo a Campo Bom, na tarde desta quarta-feira (18). Conforme a prefeitura, a previsão é de mais 30 mm até quinta-feira (19).
População precisa ficar atenta
Sapiranga acumulou 120 mm de chuva desde segunda. Um imóvel foi interditado pela Defesa Civil no bairro São Jacó e a moradora encaminhada ao aluguel social. A cidade monitora áreas rurais e pontes, com algumas vias apresentando água por cima, mas sem bloqueios confirmados.
Dois Irmãos reforçou o monitoramento de arroios e acessos. O prefeito Jerri Meneghetti se reuniu com a Defesa Civil para ajustar escalas de vigilância. O município destaca ações preventivas como substituição de canalizações e desassoreamento de arroios.

Foto: Prefeitura de Sapiranga