Ao lado do uso de materiais ecológicos e da atenção à política dos zeros, que envolve transparência e sustentabilidade, o comércio justo (fair trade, em inglês) é um dos três pilares fundamentais da marca franco-brasileira de calçados Veja. O algodão e a borracha utilizados nos produtos da empresa são adquiridos diretamente de produtores no Brasil e no Peru, com contratos de um ano e preços definidos de acordo com o mercado, o que segundo a companhia garante “transações comerciais mais justas e dignas”.

Foto: Divulgação
A diretora de Soucirng (processo de identificação, avaliação e seleção de fornecedores para fornecer produtos e serviços) e RH da Veja, Luciana Pereira, que participou, no dia 22 de outubro, do evento Conexão Origem Sustentável, em Taquara, ressalta que a marca “nasceu e segue inspirada” pelo comércio justo.
“Esse foi o nosso ponto de partida e temos muito orgulho em termos o comércio justo como um valor da empresa. Acreditamos que a criação e manutenção de um diálogo aberto com nossos parceiros, tendo como norte a transparência e o reconhecimento de cada ator, nos permite desenvolvermos cadeias produtivas justas e inclusivas, que consideram não apenas o preço, mas a realidade e territórios de cada família parceira.”
Luciana acrescenta que o reconhecimento e a valorização do serviço socioambiental que uma família que extrai borracha nativa e/ou um catador que recolhe garrafa PET da rua “faz parte da nossa missão”. “Desta forma, além de pagarmos o preço, reconhecemos e pagamos serviço ambiental que está sendo prestado para a nossa sociedade. No final, queremos um calçado que respeite de fato as pessoas e o planeta”, aponta.
Criada no ano de 2005, a Veja se notabilizou por suas práticas de comércio justo. Questionada sobre como a empresa alcançou o status de referência nesta abordagem de mercado, que visa promover a equidade nas relações comerciais, especialmente entre pequenos produtores em países em desenvolvimento e consumidores, Luciana comenta que “esse não é apenas um trabalho” da marca franco-brasileira. “Mas sim de inúmeras famílias, cooperativas, associações e fornecedores que acreditam num novo modelo de negócio. Nossas relações são concretas, de longo prazo, transparente e construídas a muitas mãos ao longo desses 20 anos de mercado da Veja”, completa.
Desafio logístico
Atualmente, 98% da produção da Veja, tanto de calçados quanto de sandálias, está concentrada no Brasil – grande parte da produção é realizada em empresas parceiras da marca no Vale do Sinos. Em 2023, a companhia lançou secretamente a produção na Europa e, desde então, produziu mais de 100 mil pares em Portugal, a partir do The Aegean Project, “sem comunicar a ninguém”. A partir disso, Luciana comenta sobre os desafios, especialmente de logística, do estabelecimento de canais de fornecimento e de distribuição em diferentes países.
“Nossos produtos são vendidos em mais de cem países e, por conta da pegada de carbono, nosso transporte acontece via navio (via marítima)”, explica. A diretora de Sourcing e RH da marca reitera que a empresa desenvolveu um planejamento logístico detalhado. “Em alguns países, possuímos parceria logística com armazéns que recebem nossos calçados e a partir daí os produtos são distribuídos”, complementa.
Mais de 5,5 mil famílias envolvidas
As cadeias produtivas da Veja envolvem mais de 5,5 mil famílias. “Nossos projetos são construídos juntos com as cooperativas e as associações e o foco é a criação e manutenção de relacionamento com as famílias. Erramos e aprendemos juntos, sonhamos e realizamos sonhos juntos”, pontua Luciana. Ela acrescenta que sua responsabilidade é “garantir que o trabalho dessas famílias seja reconhecido e valorizado”. A diretora comenta que busca “dividir nossa experiência com outros atores visando conectar novos parceiros com as cooperativas e associações que, além das matérias-primas que usamos, produzem outras com a mesma qualidade e cuidado da nossa”.
Luciana disse que “é uma alegria” ser responsável pelas cadeias produtivas de algodão agroecológico, borracha nativa, couro orgânico e poliéster reciclado da Veja. “É muito gratificante trabalhar numa empresa que tem como ponto de partida da sua existência o comércio justo e o cuidado genuíno com as pessoas e a natureza, além de estar cercada por pessoas incríveis e competentes que são movidas pelo mesmo propósito.”
Seleção de fornecedores
Sobre a seleção de fornecedores, desde o início da marca, há 20 anos, a Veja optou por trabalhar com cooperativas e associações formadas por famílias que estão localizadas nos territórios onde as principais matérias-primas da empresa (borracha nativa, algodão agroecológico, couro orgânico e PET reciclado) são produzidas e/ou coletados. “Também temos fornecedores e fábricas parceiras, que compartilham dos mesmos valores e propósitos da nossa marca, além dos cuidados legais e certificações. Nossa relação com os fornecedores é baseada no diálogo contínuo e juntos buscamos aprimorar (e inovar) cada vez mais nossa atividade como um todo”, comenta Luciana.
Aprimorar e investir
A Veja desenvolveu seus canais de fornecimento com base em parcerias de longo prazo com produtores locais, “priorizando transparência e rastreabilidade em toda a cadeia”. Ao longo dos anos, tem aprimorado esse processo investindo em matéria-prima de origem orgânica e responsável, fortalecendo relações com cooperativas e fornecedores regionais, e garantindo que cada etapa, “do campo até a fábrica”, siga critérios sociais e ambientais rigorosos para “causar maior impacto positivo possível”.
Desde a sua criação, a Veja segue a política dos três zeros que abrange, segundo Luciana, “não termos investidores externos, ou seja, conseguimos manter nossos princípios como pilares do negócio”. A empresa não trabalha com estoque. “Temos também sapatarias instaladas nas nossas lojas cujo objetivo é consertar os calçados, aumentando o tempo de vida do produto além de provocar reflexões sobre o consumo excessivo”, finaliza.
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