As enchentes que atingiram o RS em 2023 e 2024 expuseram de forma dramática a vulnerabilidade do Estado frente aos eventos climáticos extremos. Além da tragédia humanitária, os impactos econômicos são sentidos até hoje.

Foto: Divulgação/Fiergs
O setor produtivo, historicamente resistente a incorporar o meio ambiente como prioridade estratégica, se vê agora forçado a reposicionar práticas e acelerar a transição para modelos mais resilientes e sustentáveis. Esse é o diagnóstico do coordenador do Conselho de Meio Ambiente (Codema) e diretor da Federação das Indústrias do RS (Fiergs), Guilherme Portella dos Santos. Ele sustenta que o planejamento ambiental deixou de ser opcional e passou a ser parte da competitividade das empresas gaúchas.
Dada a frequência cada vez maior destes acontecimentos, o planejamento ambiental é um aspecto central à resiliência dos negócios, especialmente os que se encontram em áreas vulneráveis. “Por isso, temos buscado apoiar de diferentes formas os planos de adaptação climática nas indústrias. Eles consistem em ajustar processos, infraestrutura e gestão de pessoas de forma a mitigar, dentro do possível, os riscos decorrentes de eventos extremos”, informa.
O Sistema Fiergs atua em várias frentes. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) apoia as indústrias em capacitação, inovação e sustentabilidade, com foco em gestão ambiental, eficiência energética, energias renováveis, segurança do trabalho e saúde ocupacional.
“O sistema oferece consultoria e serviços tecnológicos para as indústrias, com foco, em boa parte dos casos, na implantação de sistemas de gestão ambiental, gestão de resíduos e efluentes, a eficiência energética e a descarbonização”, destaca. Já o Serviço Social da Indústria (Sesi), lembra Guilherme Portella dos Santos, atua no pilar social, com serviços de saúde e educação voltados à qualidade de vida dos trabalhadores. O Instituto Euvaldo Lodi (IEL) é parceiro na gestão, governança e estruturação de indicadores, enquanto os bancos sociais são referência em economia circular e inclusão produtiva.
Medidas preventivas
O diretor pondera que, agora, o desafio é transformar discurso em ação. “As indústrias podem reduzir riscos relacionados a eventos extremos por meio de uma combinação de medidas estruturais, operacionais e sociais. Entre elas, reforço de instalações e sistemas críticos, a diversificação de fontes de energia e suprimentos, e a digitalização de processos.” Portella salienta que o monitoramento climático também é fundamental.
“Capacitar trabalhadores, estabelecer protocolos de emergência e engajar comunidades contribui significativamente para a resiliência. Práticas de uso racional da água, segurança hídrica, economia circular e preservação de áreas verdes ajudam a reduzir impactos ambientais, tornando a empresa mais preparada e sustentável frente a eventos extremos.”
Meio ambiente na decisão de negócios
A sustentabilidade deixou de ser um tema periférico e se tornou parte central da tomada de decisões. “A sustentabilidade e a competitividade caminham cada vez mais juntas em uma relação sinérgica. Mesmo que as ações de adaptação climática possam representar algum custo adicional no curto prazo, um caminho interessante é pensar a sustentabilidade como um investimento que trará vantagens competitivas”, frisa o dirigente da Fiergs. De acordo com ele, este olhar mais amplo contribuirá, inclusive, para a estruturação de cadeias produtivas mais resilientes.
Essa mudança de lógica, afirma, já impacta a sustentabilidade financeira dos negócios. “A questão da sustentabilidade produz impactos na conquista de mercados e na imagem das organizações”, pontua. Portella diz que aspectos como rastreabilidade da cadeia produtiva, origem dos insumos e pegada de carbono já são exigências inclusive em contratos. “Muitas dessas pressões vêm de mercados externos, como a União Europeia”, assegura.
ESG incorporada às gestões públicas e privadas
Guilherme Portella defende que as dimensões ambientais do ESG devem ser incorporadas de maneira estratégica às gestões públicas e privadas. Na visão do diretor, a gestão pública deve atuar como catalisadora dessa transformação, integrando o risco climático no planejamento urbano e territorial e criando um arcabouço de segurança jurídica para investimentos de longo prazo em sustentabilidade. “É essencial, também, que a gestão pública promova a expansão das redes de monitoramento hidrológico e meteorológico, possibilitando a adaptação e planejamento eficaz das empresas”, salienta.
Nesse sentido, a agenda ESG pode ter papel decisivo na recuperação das indústrias atingidas por desastres porque cria bases sólidas de resiliência. Do ponto de vista operacional, a capacidade de reestruturação das empresas em regiões vulneráveis está ligada à efetividade em ajustar processos, infraestrutura e gestão de pessoas. Isso inclui desde ajustes nas operações até o cuidado com trabalhadores e comunidades impactadas, garantindo suporte em logística, habitação e bem-estar social. “A governança deixa de ser apenas uma estrutura formal e passa a integrar planejamento ambiental, social e econômico de forma transversal, reduzindo riscos e fortalecendo a confiança.”
Linhas de crédito e fomento à pesquisa
Na avaliação do diretor, políticas de mitigação e adaptação precisam caminhar juntas. “O mercado regulado de carbono, instituído pela lei 15.042/2024, é um instrumento-chave para grandes emissores, pois cria incentivos econômicos para a redução de emissões e estimula a inovação tecnológica e a transição energética”, exemplifica Portella, dizendo que linhas de crédito verde e mecanismos de fomento à pesquisa e inovação funcionam como vetores para investimentos em tecnologias limpas. “Também se destacam as iniciativas de economia circular e logística reversa, ampliando eficiência no uso de insumos e reduzindo resíduos, e o fortalecimento da bioeconomia”.
No campo da adaptação, diz ele, a prioridade deve estar em políticas que aumentem a resiliência frente a eventos extremos mais frequentes. A ampliação e modernização do monitoramento hidrológico, associado a sistemas de alerta precoce, é fundamental para prevenir impactos e reduzir prejuízos. Por fim, Portella reforça que investimentos em infraestrutura, qualificação da força de trabalho e integração entre governos, empresas e universidades podem estimular a implementação de soluções inovadoras. Nesse processo, o papel das lideranças industriais é determinante.
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