Nos últimos anos, a sigla ESG (ambiental, social e governança, em tradução livre) deixou de ser restrita a relatórios internos de grandes companhias e passou a ocupar espaço central na estratégia corporativa. Companhias de diferentes portes e setores incorporam compromissos socioambientais em seus planos de negócios, muitas vezes vinculando-os a metas financeiras e de reputação.

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Para a Lojas Renner S.A., maior varejista de moda do Brasil, o tema é estruturante. “Implementar práticas ESG não é apenas uma escolha ética, mas uma decisão inteligente e estratégica”, diz ao Grupo Sinos Eduardo Ferlauto, diretor de Sustentabilidade da companhia que reúne marcas como Renner, Camicado, Youcom, Realize, Ashua e Repassa.
Segundo o executivo, o alinhamento à agenda socioambiental fortalece a resiliência das empresas em um cenário de mudanças climáticas e de exigência crescente por parte de consumidores e investidores. “O futuro dos negócios pertence àqueles que entendem que lucro e impacto positivo podem e devem caminhar juntos”, diz.
Ferlauto destaca que a agenda ESG não deve ser entendida como uma meta pontual, mas como um processo de transformação permanente. “É uma jornada, comece com ações reais, mesmo que pequenas, e comunique com autenticidade. Envolva sua equipe, escute seus stakeholders [interessados] e transforme o propósito em prática”, sugere.
Para o executivo, a clareza sobre compromissos e a transparência na divulgação de resultados são fatores que diferenciam as organizações. “Empresas que colocam a sustentabilidade, a responsabilidade social e a boa governança no centro de suas decisões conquistam mais do que reputação: constroem resiliência, inovação e valor de longo prazo.”
No centro da estratégia
Nos anos 2000, iniciativas de ESG apareciam de forma pontual em grandes empresas. A partir da última década, no entanto, mudanças climáticas, pressões regulatórias e transformações sociais ampliaram a cobrança sobre o setor privado. Esse movimento fez com que práticas de sustentabilidade deixassem de ser uma ação isolada para integrar todas as etapas do negócio, da matriz energética às formas de produção e descarte.
O processo também levou à definição de metas públicas, como a neutralidade climática até 2050, alinhada ao Acordo de Paris. O objetivo é unir esforços globais para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Países signatários se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitar esse aumento a 1,5 °C.
Para alcançar essas metas, cada nação deve apresentar planos nacionais de ação climática, detalhando as medidas que pretende adotar para reduzir suas emissões de carbono e aumentar a resiliência frente aos efeitos da mudança do clima.
Medidas concretas na moda
Um dos principais desafios na área de ESG é separar compromissos de longo prazo de ações efetivas. A Renner iniciou sua trajetória em 2008, com a criação do Instituto Lojas Renner, voltado ao investimento social privado. No mesmo ano instituiu um comitê de sustentabilidade. Em 2011, foi lançado o programa EcoEstilo, de logística reversa de produtos pós-consumo. Dois anos depois, a sustentabilidade passou a integrar oficialmente os valores corporativos.
Desde então, a empresa introduziu peças com tecidos reciclados, desenvolveu coleções rastreáveis via blockchain, um projeto que rastreia a cadeia de produção de peças de roupa, desde o campo, onde o algodão é plantado, até a loja, permitindo que o consumidor acesse essas informações através de um QR Code na etiqueta.
Além disso, inaugurou a primeira loja do varejo nacional concebida com premissas de circularidade. Entre os resultados apresentados, está a redução de 60,9% das emissões absolutas de gases de efeito estufa nos escopos 1 e 2, entre 2019 e 2024, superando a meta prevista para 2030.
Também atingiu 100% de consumo corporativo de energia proveniente de fontes renováveis e chegou a 81,3% do vestuário produzido com atributos de menor impacto ambiental. Em 2024, 47,9% da alta liderança da Renner era composta por mulheres, e a representatividade de pessoas negras em cargos de liderança alcançou 34,4%. A participação de pessoas com deficiência no quadro geral subiu para 5,1%.
Desafios locais e impactos climáticos
A adoção de práticas sustentáveis no Brasil enfrenta barreiras específicas, como cadeias de fornecimento longas e fragmentadas, custos de produção e baixa rastreabilidade. Ainda assim, empresas brasileiras assumem compromissos com alcance global, entre eles o de que 100% das roupas das marcas próprias tenham atributos de menor impacto ambiental nos próximos anos.
Outro ponto de atenção é a adaptação a eventos climáticos extremos, como a enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. “As tragédias climáticas que foram vivenciadas reforçaram que o impacto das mudanças climáticas é uma realidade do presente e não mais uma possibilidade futura. E isso não só para o segmento têxtil, mas também para outros setores da economia”, frisa o diretor de Sustentabilidade da Renner.
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