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O QUE FICOU DEPOIS

COVID-19: A dor de quem perdeu familiares e as sequelas que acompanham os sobreviventes; pandemia completa 5 anos

Moradores da região relatam as mudanças de vida após enfrentarem os efeitos do coronavírus, que se espalhou em 2020

Publicado em: 11/03/2025 às 09h:55 Última atualização: 13/03/2025 às 14h:02
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No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um anúncio e a Covid-19 passou a ser caracterizada como uma pandemia. Foi só no dia 5 de maio de 2023 que foi declarado o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). A doença, até o dia 7 de março deste ano, segundo dados do Ministério da Saúde, provocou a morte de 715.295 pessoas no Brasil, com 39.210.405 casos acumulados. No Rio Grande do Sul, segundo dados da Secretaria Estadual até 10 de março deste ano, foram 43.207 óbitos, com 3.162.130 casos confirmados.

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Aposentado Valmir Rodrigues, morador do bairro Primavera, em Novo Hamburgo, sente-se um sobrevivente da Covid-19. Ao lado da esposa,  Rosana Viviana Arend ainda guarda aparelhos e acessórios usados em seu tratamento | abc+



Aposentado Valmir Rodrigues, morador do bairro Primavera, em Novo Hamburgo, sente-se um sobrevivente da Covid-19. Ao lado da esposa, Rosana Viviana Arend ainda guarda aparelhos e acessórios usados em seu tratamento

Foto: Susi Mello/GES-Especial

Histórias de perdas, salvamentos, curas, lágrimas de dor e de alegrias de quem perdeu familiares e de quem venceu o coronavírus, não faltam. A pandemia deixou marcas de tristeza e desafios que precisam ser levados a sério no campo da saúde.

Em meio à pandemia que transformou vidas e comunidades, a história do aposentado Valmir Rodrigues, morador do bairro Primavera, em Novo Hamburgo, um sobrevivente da Covid-19, ressalta a luta de muitos contra os desafios físicos e emocionais por conta da doença.

Aos 57 anos, Rodrigues aborda sua jornada após contrair o vírus em julho de 2020, quando chegou a ficar 35 dias na Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) e as consequências que isso trouxe para sua vida e a de sua família. “Hoje eu estou bem, do jeito que me sentia antes. O que eu sinto agora é apenas um problema na traqueia”, afirma, segurando o curativo no pescoço para que sua voz saia.

Ao lembrar das dezenas de dias no Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH), ele conta que a maioria das pessoas durava 10, 15 ou 20 dias . “Eu via muita gente morrer e ouvia médico surpreso de eu estar com meu coração batendo, porque não parecia que eu iria escapar. Eu cheguei a pesar 36 quilos e o coração batia, não morria, eu não estava morto”, relembra o aposentado que faz questão de agradecer aos que, por muitas vezes, arriscam suas vidas para salvar outros. “Sou muito grato aos médicos, aos guerreiros do Samu e a todos profissionais que trabalharam sem parar dia e noite. Não podemos esquecer de todas essas lutas e que Deus abençõe a todos”, frisa.

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Aposentado Valmir Rodrigues, morador do bairro Primavera, em Novo Hamburgo, sente-se um sobrevivente da Covid-19 e ainda guarda aparelhos e acessórios usados em seu tratamento | abc+



Aposentado Valmir Rodrigues, morador do bairro Primavera, em Novo Hamburgo, sente-se um sobrevivente da Covid-19 e ainda guarda aparelhos e acessórios usados em seu tratamento

Foto: Susi Mello/GES-Especial

A batalha de Rodrigues para recuperar a saúde não foi fácil. Após ser hospitalizado na UTI, enfrentou outras complicações de saúde, incluindo a espera pela cirurgia para fechar o buraco da traqueia, procedimento que só pode ser realizado em Porto Alegre. “Tem que fazer uma cirurgia para fechar, porque tiraram a traqueia e o buraco não fecha como deveria”, relata o aposentado que precisou da abertura do local para que o ar chegasse aos pulmões no auge de sua doença.

Os efeitos da Covid-19 não foram somente os problemas respiratórios. Valmir também enfrentou a perda de audição. “Fiquei surdo, e isso me atrapalha bastante. Mas eu estou aprendendo a falar de novo, e devo colocar outros aparelhos auditivos”, comentou.

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O aposentado, que trabalhava como vendedor em uma padaria hamburguense, precisou reaprender a caminhar, comer, beber e, especialmente, a respirar. “Depois que fechar a traqueia, provavelmente vai melhorar mais ainda”, espera.

Apesar das dificuldades, ele se dedica a retomar sua rotina mesmo com as limitações impostas pela doença. “Hoje eu caminho, hoje eu como tudo normal. Preciso ter cuidados, especialmente com a alimentação e mudanças bruscas de temperatura, mas me considero privilegiado”, compartilha.

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Sua esposa, Rosana Viviana Arend, 50 anos, também reflete sobre as mudanças trazidas pela pandemia. “A rotina mudou muito. Eu sou técnica aposentada, mas passei a cuidar dele, e isso exige muito esforço”, revela. Juntos, eles aprenderam a conviver com as sequelas da Covid-19, uma situação que transformou suas vidas e trouxe novos desafios.

Valmir deseja um futuro sereno. “Meu sonho é morar no interior, ter uma vida mais calma, criar animais e viver tranquilamente”, conta. Essa perspectiva de vida simples traz a ele um senso de esperança e renovação.

O impacto da pandemia na vida de Valmir e Rosana, pais de Dionas e Bernardo Rodrigues, 19 e 6 anos, respectivamente, se reflete não apenas em suas rotinas, mas também em suas relações e percepções sobre a vida. Valmir se vê como um sobrevivente, agradecendo ao apoio dos profissionais de saúde e, principalmente, à força de Deus: “Se não fosse pela mão de Deus, eu não estaria aqui. O médico fez o que podia, mas foi a fé que me trouxe de volta”.

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“A rotina do coração mudou”, diz mãe que perdeu o filho

Salete de Oliveira Assis de Souza, 59 anos, técnica em enfermagem, perdeu seu filho mais velho para a Covid-19. Luiz Natanael Assis de Souza morreu aos 33 anos em Dois Irmãos, cidade onde vivia com ela e seu irmão e realizou o sonho do noivado. Entre contrair a doença e ficar hospitalizado foram apenas 12 dias, quando aconteceu o falecimento. 

Salete de Oliveira Assis de Souza, 59 anos, técnica em enfermagem, perdeu seu filho mais velho para a Covid-19. Luiz Natanael Assis de Souza morreu aos 33 anos em Dois Irmãos, | abc+



Salete de Oliveira Assis de Souza, 59 anos, técnica em enfermagem, perdeu seu filho mais velho para a Covid-19. Luiz Natanael Assis de Souza morreu aos 33 anos em Dois Irmãos,

Foto: SUSI MELLO/GES-ESPECIAL

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Sua mãe compartilha a dolorosa experiência e os aprendizados que surgiram em meio ao luto.
“Ele se positivou e, após dez dias em casa, teve uma piora súbita. Fomos ao hospital, mas ele não voltou mais. Foi em apenas 12 dias que tudo aconteceu”, relembra Salete, com a voz tremendo ao narrar a rapidez com que a doença se abateu sobre a família. Desde o dia 31 de março de 2021, o mês de março tornou-se um marco doloroso em sua vida. “No dia 13 de março completaria 37 anos e no dia 31 de março são quatro anos de sua morte”, escreveu a mãe em uma mensagem de WhatsApp enviada à reportagem, texto acompanhado de emoji de choro.

Salete de Oliveira Assis de Souza, 59 anos, técnica em enfermagem, perdeu seu filho mais velho para a Covid-19. Luiz Natanael Assis de Souza morreu aos 33 anos em Dois Irmãos, | abc+



Salete de Oliveira Assis de Souza, 59 anos, técnica em enfermagem, perdeu seu filho mais velho para a Covid-19. Luiz Natanael Assis de Souza morreu aos 33 anos em Dois Irmãos,

Foto: SUSI MELLO/GES-ESPECIAL

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Salete reflete sobre como a rotina diária não sofreu grandes mudanças, mas seus sentimentos, sim. “A rotina do coração mudou. Mas pessoalmente, não. O que mudou é a proximidade que tenho agora com meu outro filho, o Lucas. Eu não posso perder ele de vista. Trabalhamos, mas sempre temos esse laço que ficou mais forte”, detalha a mãe que, mesmo diante da perda, reforça a importância de compartilhar momentos com quem se ama.

“Infelizmente aqueles morreram sufocados”, lembra advogada

Entre as famílias que tiveram suas vidas despedaçadas, estão a de pacientes em tratamento contra o Covid, no Hospital Lauro Reus, de Campo Bom, que acabaram falecendo por conta da falta de oxigênio. A tragédia ocorreu em março de 2021 e somente em fevereiro deste ano, prestes a completar quatro anos do ocorrido, a Justiça mandou indenizar familiares dos 21 mortos. Foram condenados o hospital, a empresa responsável pelo oxigênio (Air Liquide Brasil Ltda) e o município de Campo Bom.

Dos 21 mortos por falta de oxigênio, oito familiares deles são representados na Justiça pela advogada Franciele Kozlowski.

Dos 21 mortos por falta de oxigênio, como Vani Heloina Diesel (foto), oito familiares deles são representados pela advogada Franciele Kozlowski | abc+



Dos 21 mortos por falta de oxigênio, como Vani Heloina Diesel (foto), oito familiares deles são representados pela advogada Franciele Kozlowski

Foto: Susi Mello/GES-Especial

Entre seus clientes está a terapeuta Luciana Pedroso, 45 anos, que perdeu a mãe em período de pandemia em 19 de março de 2021, mas não pelo Covid-19 e sim pela negligência dos envolvidos no fornecimento de oxigênio. “Quando eu contei para o meu irmão, por telefone, ele disse que era um absurdo. Ou seja, a mãe foi internada por Covid, estava em recuperação já sem Covid e foi morrer por falta de oxigênio”, relembra Luciana, ao falar da mãe, a bancária aposentada Vani Heloina Diesel, 66 anos.

“Se fosse pela pandemia, eu acredito que todo mundo já estava mais ou menos conformado com a ideia de que poderia acontecer com alguém dos nossos. Era um risco que todo mundo estava sujeito.  Ninguém queria, mas era uma coisa que estava passando perto o tempo inteiro. Agora, o absurdo foi o falecimento por esse motivo”, reforça Luciana.

Ao falar sobre o caso, a advogada destaca que o resultado foi uma grande vitória e que, a partir disso, cada família, de forma individual, segue com pedidos de análise do direito ao dano. Entretanto, ela destaca que as famílias estão arrasadas, mas cheias de esperança e ansiosas para que cada caso seja analisado.

“Os nossos gestores não foram eficientes o suficiente para que essas pessoas pudessem hoje estar vivas. Hoje, a expectativa é de que de fato se consiga, pelo menos, o reconhecimento desse erro e da devida responsabilização para que essa tragédia não se repita”, aponta a advogada, sublinhando que nenhum dos familiares teve suporte psicológico por parte de nenhum dos réus após a situação. “Nunca foram procurados para ter um suporte psicológico ou mesmo um pedido de desculpas”

Ao relembrar o período, a advogada destaca que não foi feito o reabastecimento do oxigênio a tempo. Por isso, complementa, nessas famílias a pandemia não só ficou marcada pela doença. “E sim pela falta de competência do Poder Público na fiscalização e os gestores contratados. Houve falta de fiscalização do poder público, do município, de responsáveis com a obrigação de apontar os níveis de oxigênio 24 horas por dia e alertar o desabastecimento. Não eram qualificadas o suficiente para aquela responsabilidade. Sabia que era uma doença terrível, mas teve muita gente que sobreviveu depois porque tinha o oxigênio, conseguiu sair da UTI, e está vivendo aí com sua família. Infelizmente aqueles pacientes morreram por falta de oxigênio”, recorda.

Virologista alerta que outros vírus continuam a desafiar

Pró-Reitor de pesquisa, Pós Graduação e Extensão da Universidade Feevale, o virologista Fernando Spilki, salienta que muitas lições e desafios foram deixados pela pandemia, que não é um fenômeno isolado.

Para ele, a pandemia representou um marco histórico e a crise sanitária mais grave desde a gripe de 1918. “É a pior crise sanitária que nós temos no mundo, no Brasil e na região”, enfatizou, evocando um sentimento de urgência e a necessidade de aprendizado a partir dessa experiência.

No entanto, além das lições aprendidas, a doença deixou legados negativos. “Eu ingenuamente cheguei a pensar que as pessoas entenderam a importância de medidas de saúde, mas lamentavelmente esse legado não ficou”, comentou. Para Spilki, a falta de adoção de práticas de higiene e cuidado em comunidades, que poderiam minimizar a disseminação de doenças respiratórias, é uma preocupação que persiste.

O virologista destaca que há especialistas na saúde alertando que eventos pandêmicos como a Covid-19 não são um fenômeno isolado. A presença de outros vírus, como os da dengue e H5N1, continua a desafiar a saúde pública. “Nós precisamos estar mais atentos, precisamos tomar mais cuidado”, adverte.

Para ele, enquanto a sociedade busca se recuperar há necessidade da ciência e da pesquisa se tornarem ainda mais evidentes. “Esse legado do potencial que há, com medidas de prevenção e tratamento eficaz, deve ser aplicado da melhor forma possível na ciência disponível. Será isso que nos ajudará a enfrentar futuros desafios”, conclui.

Óbitos confirmados na região no acumulado de 14/3/20 a 08/3/25

Fonte Painel Coronavírus – atualizado em 10/3 – Secretaria Estadual de Saúde

1.Araricá: 30
2.Brochier: 8
3.Bom Principio: 36
4.Campo Bom: 299
5.Canela: 219
6.Canoas: 1.979
7.Capela de Santana: 32
8.Dois Irmãos: 88
9.Estância Velha: 163
10.Esteio: 427
11.Feliz: 29
12.Gramado: 170
13.Harmonia: 17
14.Imbé: 152
15.Igrejinha: 139
16.Ivoti: 79
17.Lindolfo Collor: 18
18.Montenegro: 205
19.Morro Reuter: 18
20.Nova Hartz: 82
21.Nova Petrópolis: 103
22.Nova Santa Rita: 116
23.Novo Hamburgo: 1.149
24.Pareci Novo: 7
25.Parobé: 263
26.Picada Café: 14
27.Portão: 149
28.Presidente Lucena: 4
29.Riozinho: 14
30.Rolante: 77
31.Salvador do Sul: 7
32.São José do Hortêncio: 13
33.São Francisco de Paula: 57
34.Santa Maria do Herval: 17
35.São Leopoldo: 909
36.Sapiranga: 376
37.Sapucaia do Sul: 654
38.São Sebastião do Caí: 70
39.Taquara: 208
40.Tramandaí: 267
41.Três Coroas: 83
42.Tupandi: 17
43.Vale Real: 16

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