O retorno do El Niño acende um alerta, especialmente no Sul do Brasil. Enquanto no Norte do País a tendência é de que a chuva fique escassa durante a vigência do fenômeno, os três estados da região precisam enfrentar volumes que podem ser excessivos, o que agrava a situação das enchentes.
CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Foto: Paulo Pires/GES
Foi exatamente o que aconteceu em maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul registrou a maior catástrofe climática do Estado. Ocorre que um El Niño Costeiro já causa o mesmo impacto no Peru e no Equador, que emitiu emergência nacional. O fenômeno já atingiu o mesmo nível de 2023 nesta época do ano.
Apesar disso, o El Niño não vai se instalar no início deste outono, que começou exatamente às 11h45 desta sexta (20). Segundo a MetSul Meteorologia, o aquecimento será gradual e a caracterização se dará na segunda metade da estação, ou seja, entre maio e junho. Vai ser no segundo semestre que o fenômeno se intensificará e deve atingir o pico nos meses de novembro ou dezembro, persistindo ainda nos primeiros meses de 2027.
SIGA O ABCMAIS NO GOOGLE NOTÍCIAS!
Qual o período de maior risco para enchentes?
A meteorologista Estael Sias explica que “o risco será maior na segunda metade de 2026 e na primeira de 2027, sobretudo na primavera de 2026 e no outono de 2027”.
“Uma vez que o El Niño em 2026 vai começar mais cedo e terá forte intensidade, não se pode afastar que já no fim do outono, como em 2023, haja enchentes. O perigo maior, contudo, será nos meses seguintes, especialmente no fim do inverno e na primavera.”
Cenário semelhante de 2023-2024
Ela pontua que este foi o mesmo cenário de 2023, ano que marcou o começo do último El Niño. A primeira enchente registrada naquele ano se deu com um ciclone na costa do litoral norte em junho, mas as piores cheias de 2023 aconteceram em setembro e novembro. Na sequência, veio o grande desastre climático do RS, entre o fim de abril e o decorrer de maio.
Há risco da catástrofe climática de 2024 se repetir?
“Esta é a resposta que não temos e ninguém pode ter. Nenhum episódio de El Niño é igual ao outro”, salienta Estael, que esclarece que cada fenômeno se manifesta de forma diferente em seus efeitos, mas que, em 2024, outros fatores concomitantes ao El Niño foram responsáveis por criar o cenário climático que levou ao desastre histórico no Estado.
Aquecimento extraordinário, bloqueios atmosféricos e mais
Naquele ano, havia simultaneamente um aquecimento extraordinário e sem precedentes do Atlântico Tropical, o que injetou quantidade imensa de vapor na atmosfera, além de dois bloqueios atmosféricos que canalizaram o excesso de umidade dos trópicos ao Sul do Brasil.
A meteorologista relembra que o Rio Grande do Sul também estava entre uma enorme massa de ar muito quente sobre o País e uma grande e poderosa massa de ar frio sobre a Argentina, que deixou temperaturas extremamente baixas na Patagônia, que teve um dos meses de maio mais frios da história.
Além disso, a atmosfera em escala global ainda sofria os efeitos de injeção massiva de vapor na estratosfera pela erupção do vulcão Hunga Tonga, “o que colaborou para piorar o superaquecimento do planeta causado pela soma de El Niño e mudanças climáticas”.
Estael complementa que o chamado Modo Anular Sul ou a Oscilação Antártica (AAO) na Antártida se encontrava consistentemente em fase negativa no outono de 2024, o que tornou a circulação atmosférica muito propícia ao aumento de chuva no Sul do Brasil.
“Moral da história? O El Niño foi o grande vilão em 2024, mas havia vários outros juntos e concomitância de todos eles foi excepcional e rara.”
O que é possível prever
Sobre este novo episódio, a meteorologista pontua que “é altíssimo o risco de enchentes nos próximos meses, inclusive algumas mais graves, afetando os estados da Região Sul, inclusive o Rio Grande do Sul”.
Contudo, desastres como o ocorrido em 2024 não são previsíveis “porque há uma dependência de vários fatores intrasazonais que não se pode prognosticar, exceto em mais curto prazo”.