A transição para o fenômeno El Niño já deu seus primeiros passos, com sinais claros detectados nas águas do Pacífico.
Pelo segundo mês consecutivo, rajadas de vento com intensidades recordes no Pacífico Oeste começaram a reorganizar a circulação atmosférica, empurrando as águas aquecidas da região da ilha de Guam em direção à costa da América do Sul.
Segundo a MetSul Meteorologia, esse deslocamento de calor é um dos principais indícios da formação de um episódio de El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial.

Foto: NOAA/ARQUIVO METSUL
LEIA TAMBÉM: Bolha de calor mantém temperaturas extremas e leva RS a quase 40ºC; alívio já tem data para começar
“Em janeiro, as medições mostraram que a enorme área de águas muito quentes no Pacífico Oeste, conhecida como ‘piscina quente’, teve um dos maiores níveis de calor já registrados. E isso mesmo depois de já ter liberado parte dessa energia em direção ao Leste do oceano”, avalia a meteorologista Estael Sias.
Em termos simples, isso significa que o oceano ainda está armazenando muito calor. Na prática, quanto maior essa temperatura, mais intenso tende a ser o El Niño, funcionando como um combustível para alterações climáticas globais.
Esse excesso de calor no mar já tem reflexos práticos. Segundo Estael, as enchentes recentes e mortais na Nova Zelândia foram associadas a águas excepcionalmente quentes ao redor do país. “Quando o oceano está mais quente, ele libera mais umidade para a atmosfera, o que pode resultar em chuvas mais intensas e volumosas.”
Projeções recentes do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo apontam que o El Niño deve se consolidar até o inverno no Hemisfério Sul.
Embora seus impactos não sejam imediatos, o fenômeno pode alterar regimes de chuva na América do Sul, África e Ásia, influenciar temporadas de furacões e tempestades severas nos Estados Unidos e aumentar o risco de branqueamento de corais.
VIU ESSA? RS registra estragos após 91 milímetros de chuva em 12 horas e vento de 82 km/h
Recordes globais de temperatura
Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.
O último El Niño, que se desenvolveu em 2023 e atingiu o pico no começo de 2024, ajudou a impulsionar 2024 ao posto de ano mais quente já registrado. Modelos indicam que o período entre 2026 e 2028 pode estabelecer novos recordes globais de temperatura.
El Niño chega quando?
Após o fim de um evento de La Niña, o Pacífico obrigatoriamente entra em fase de neutralidade.
As projeções indicam que essa neutralidade deve predominar até o início do outono, mas com tendência de aquecimento gradual das águas, primeiro na costa do Peru e do Equador e depois de forma mais ampla na faixa equatorial, favorecendo a instalação de um El Niño clássico entre o outono e o inverno.
Segundo a MetSul, neste momento, os dados indicam um El Niño moderado a forte no segundo semestre deste ano.
CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER
O que o El Niño impacta?
El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo.
As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Esses quadros causam resultados secundários, já que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais.
Os efeitos pdoem ser positivos ou negativos. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes.
Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña.
O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.