Leva em torno de 30 minutos no forno, mas desde o processo inicial, são duas horas dedicadas. O pãozinho com linguiça se tornou um sucesso, principalmente, após a pandemia de Covid-19, quando ganhou fama nas redes sociais.
Os fornos do Centro e Várzea Grande recebem milhares de turistas, que pagam R$ 8 para saborear e conhecer uma receita que foi criada há gerações pelas famílias do interior.
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Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
E agora, esse produto pode ser reconhecido no município, como Patrimônio Cultural Imaterial.
“O pão é único. O pão com linguiça nasceu aqui, nas famílias rurais, foi aperfeiçoado e já é reconhecido pelas pessoas do Brasil inteiro. Só legalmente que ainda não, então esse processo que vamos trabalhar agora”, conta o presidente da associação do Centro, Gustavo Weber.
“Reconhecer ele como patrimônio valoriza o que começou aqui”, completa a chefe do escritório da Emater Gramado, Janete Basso.
Próximos passos
A partir de agora, as Secretarias da Cultura e Turismo do município farão entrevistas com os grupos pertencentes às associações.
“O que será reconhecido será o modo de fazer, então como isso passou de geração para geração a receita, por que foi modificado. E isso gerará um documento e com base nele, um projeto de lei será feito para aprovação da Câmara. Mas isso à nível municipal, a tendência é que seja feito esse passo a passo também no Estado e à nível federal”, revela Janete.

Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
“Tendo esse reconhecimento é uma garantia para aqueles que iniciaram as primeiras fornadas há mais de 20 anos. E estamos garantindo a continuidade desse trabalho, que é tão bonito”, coloca o secretário da Agricultura, Eliézer Lima.
Produto turístico
Antes do sucesso, a palavra-chave foi organização. “A associação é muito bem estruturada. Tem presidente, diretoria, coordenadores de cada grupo, conselho de ética. São 12 grupos no Centro, por exemplo, e cinco nos fornos da Várzea. E o mais legal é que um grupo fiscaliza o outro. O produto é pesado, cortado para ver se está assado e recheado”, explica Eliézer.
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Hoje os fornos viraram um atrativo. “Cada grupo tem seu toque, conforme a cultura. É uma experiência, porque as pessoas chegam ali, é a fumaça saindo da chaminé, as pessoas amassando e preparando, conseguem ver a massa sendo feita. E o pulo do gato é verem enfornando e tirando. O cheiro de pão quente que nos remete a casa dos avós, fornece acolhimento”, relembra.
Na alta temporada, 40 mil ao mês
São mais de 25 anos produzindo os pães, desde 2014 no Centro de forma legalizada. Mais de 5 mil são feitos em um final de semana. Um levantamento da Emater revelou que chega-se a fazer 30 mil por mês, enquanto na alta temporada, o número sobe para 40 mil. Os dados são de 2025.
“Mais do que um produto saboroso, quem visita está experimentando uma tradição e cultura do município. Está descobrindo a colônia de Gramado. E o turista quer ter esse contato com a formação do município”, pontua Janete.
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O sucesso trouxe mudanças nos processos. “Tivemos que nos adaptar, com as filas que se formam. Sabemos que estamos no caminho certo. A gente fica pensando em como nosso trabalho nos fornos é valorizado, é gratificante. Saber que uma pessoa fica aguardando para comprar”, diz Gustavo.
Da calabresa à linguiça
O pão com linguiça passou por algumas mudanças ao longo dos anos, mas nunca perdeu a característica tão marcante do colonial. “O pão começou como sovado, grande, para famílias. Mas nos fornos fomos vendo que a necessidade de um lanche, de um produto individual”, conta Gustavo.
“A massa também passou por transformação, antes a linguiça era enrolada junto, na hora de sovar. Agora é primeiro feita a massa, após o recheio, o pão é enrolado e aí forma o que é o produto atual”, justifica o presidente da associação do Várzea, Marialdo Pizetta.
E antes da linguiça, há mais de 25 anos, o produto que era usado na verdade era a calabresa. “Na época, a minha comunidade da Linha Bonita éramos em quatro famílias, Rama, Berti, Cavichion e Benetti. Aí começou com uma colega a fazer o pão com calabresa e tempero verde. Com o passar do tempo, começamos a fazer o pão com linguiça, pois tinha uma agroindústria que fazia a linguiça”, recorda o produtor Davi Rama.
“Mudança radical na vida”
Davi conta como participar dos fornos mudou sua vida.

Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
“A cada ano, eu dizia: ‘Vou na Festa da Colônia e construir uma estufa de morango com o que ganho na festa’. E eu consegui isso durante cinco anos. Quando veio a pandemia, perdi meu pai. E não acreditava em depressão, mas caí num buraco. E o que aconteceu, passei os morangos para meu filho mais velho, e continuei nos fornos. Me atrevo a dizer que consegui comprar um pedaço de terra na Linha Bonita, que é um lugar que eu amo, com os fornos. No sábado, participei do Desfile de Carretas com o Arthur, de 13 anos, e ele disse que quer trabalhar comigo. Consegui construir minha família e manter eles próximos de mim. A gente conseguiu ficar na colônia. O sucesso dos fornos foi uma mudança radical nas nossas vidas. E o pãozinho com linguiça nos proporcionou isso”, diz emocionado o produtor.