Há um mês, a vida de uma família de Canela mudou completamente. A expectativa dos encontros para curtir o Natal transformou-se em momentos de apreensão e incertezas. Desde o dia 22 de dezembro do ano passado, Lizabel de Moura Pereira, de 56 anos, está hospitalizada. Com 43% do corpo queimado, ela é uma das vítimas da queda do avião da família Galeazzi, em Gramado.

Foto: Mônica Pereira/ GES-Especial /ARQUIVO
Internada desde então na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre, a rotina de Lizabel tem sido de cuidados. As queimaduras de segundo e terceiro graus atingiram os braços, tórax, costas e glúteos. A recuperação inclui também as queimaduras superficiais no rosto e orelhas. Ainda não existe qualquer previsão de quando ela poderá voltar para casa.
O quadro de saúde é considerado grave, mas estável. Cirurgias e procedimentos são realizados. A primeira vez que a família detalha o caso à imprensa é para o Jornal de Gramado. Os quatro filhos preferem não se identificar e pedem para que fotos da mãe não sejam divulgadas. Eles entendem que o caso se tornou público, mas solicitam compreensão sobre o delicado período que estão encarando. “Mas a gente quer que as pessoas saibam que ela está bem, se recuperando”, conta uma das filhas.
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A família relata que Lizabel está com ferimentos profundos. Apesar da gravidade, não precisou ser entubada e está consciente. No braço esquerdo, um corte precisou ser feito para aliviar a pressão do músculo e evitar a perda de movimento. O corpo continua enfaixado e Lizabel ainda não consegue caminhar.
Ela tem passado por processos de desbridamento, que é a retirada do tecido afetado, comumente chamado de raspagem, além de cirurgias de enxerto cutâneo. Uma bactéria foi contraída e ela está fazendo tratamento para anemia. “Os médicos nos falaram que são coisas esperadas pela gravidade do estado dela. A gente nunca teve essa vivência e é muito impactante. Não desejamos para ninguém”, acentua a família.
A volta para casa

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Lizabel é acompanhada de perto por uma equipe multidisciplinar do Hospital de Pronto Socorro da capital, incluindo psicólogo e psiquiatra.
“São autorizadas visitas estendidas para que a gente passe mais tempo com ela, dando força para se recuperar. Ela pede muito para voltar para casa”, cita a filha. “Na última semana, a médica disse que não tem como dizer quando ele vai ter alta. Depende muito da evolução do quadro, da cicatrização. Ela ficou bem abalada ao saber, chorou muito”, completa.
Em processos delicados e difíceis, Lizabel tem que conviver com a dor, precisando, em alguns momentos, ser sedada.
Os familiares a descrevem como uma mulher trabalhadeira e vaidosa. “Não tem tempo ruim com ela. Sempre foi muito ativa, fez academia, cuidou da alimentação. Ela não pára um minuto. Então, vem sendo muito difícil para ela esse momento”, citam. “Ela adora cozinhar, cuidar da horta. A gente sempre teve ela como um exemplo de mulher forte, ativa, pronta pra tudo”, enfatizam.
Campanha de doação de sangue à vítima
Moradora do bairro São Luiz há 20 anos, desde agosto do ano passado, Lizabel trabalhava na pousada que foi atingida pelo avião. Ela fazia extras no local, como camareira e também no café da manhã.
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No momento do acidente estava subindo para o segundo andar. “Ela diz que só sentiu o estrondo e ouviu o barulho. Ela não conseguiu tirar a roupa e nem apagar o fogo. Foi quando desceu as escadas para pedir socorro”, destaca a filha.
Para conseguir ficar mais perto do HPS e diminuir os custos, a família está em uma casa em Cachoeirinha. Foram feitas duas vaquinhas on-line para angariar recursos, mas que já foram encerradas.
Neste momento, a necessidade maior é por doação de sangue. Para realizar a doação, as pessoas devem preferencialmente fazer agendamento prévio pelo WhatsApp (51) 3289-7658.
O banco de sangue da casa de saúde da capital funciona das 8 horas ao meio-dia nas segundas, quartas e sextas; e das 13 às 17 horas, nas terças e quartas, no segundo andar do HPS, no Largo Teodoro Herzl, sem número, no bairro Bom Fim. O local tem capacidade para atender de 16 a 20 pessoas por dia.
“Só queremos que ela se recupere”
A família relata que precisou contratar um advogado para resolver a documentação e dar andamento ao pedido de benefício do INSS. O intuito é que Lizabel possa ter uma renda para auxiliar nos custos dos tratamentos. “Quando ela vier para casa, vai precisar de curativos e protetor solar especiais, de fisioterapia”, enumera.
“Só queremos que ela se recupere. Sinceramente, não estamos preocupados com indenização, com o que ela pode ou não pode ganhar, porque isso não vai pagar o que aconteceu, não vai recuperar as restrições que ela vai ter para o resto da vida. A gente está fazendo todo o processo para ela poder ter também uma renda, mas é algo que vamos ver mais na frente”, corroboram os familiares.
Mortos estão identificados
O delegado regional Gustavo Barcellos declara que todas as dez pessoas que morreram no acidente foram identificadas e que condizem com a lista divulgada pelas autoridades no dia da queda do avião.
Além do piloto Luiz Claudio Salgueiro Galeazzi, morreram a esposa dele, Tatiana Natucci Niro; as três filhas do casal, Maria Eduarda Niro Galeazzi, Maria Elena Niro Galeazzi e Maria Antonia Niro Galeazzi; Lilian Natucci, sogra de Galeazzi; Veridiana Natucci Niro, irmã da esposa de Galeazzi; Bruno Cardoso Munhoz Guimaraes Araújo, diretor da empresa e marido de Veridiana; e as filhas do casal, Giulia e Matteo.
“É uma investigação complexa e muito técnica. Nós dependemos de pareceres e laudos de órgãos técnicos especializados, como do Cenipa [Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos] e o IGP [Instituto-Geral de Perícias]”, alega o delegado sobre o andamento dos trabalhos.
Estrutura interditada

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Conforme o Corpo de Bombeiros Militar, a pousada continua interditada e os responsáveis entrarão com um novo processo de licenciamento. A partir disso, será realizada uma análise documental para averiguar as novas configurações de ocupação e layout. A reportagem entrou em contato com o proprietário do prédio onde funcionava a pousada, que preferiu não se manifestar sobre o assunto.
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