A história de Roberto Josué Lopes da Luz, 39 anos, se confunde com a de muitos brasileiros: dois empregos, sonhos e batalhas diárias. O morador de Novo Hamburgo atua há duas décadas como técnico de enfermagem e percebeu que poderia oferecer cuidados mais completos aos pacientes. Para isso, decidiu se tornar médico e começou a cursar medicina na Universidade Feevale. “O que estou vivendo é um sonho, procuro não reclamar muito.”

Foto: Juliano Piasentin/ GES-Especial
O estudante divide o tempo entre a universidade e os empregos, no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Sapiranga e no Ambulatório 12 de Maio, em Santa Maria do Herval. “Estou há 15 anos no Samu e há cinco na clínica.” As oportunidades de trabalho surgiram por meio de concursos públicos. “É o que me dá folego para seguir, ter essa estabilidade é fundamental.”
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Formado como técnico de enfermagem desde 2005, Roberto diz que sequer pensava em faculdade na época. “Me formei em Taquara, vim de uma família humilde, na minha realidade ser técnico era o máximo que poderia alcançar.” Durante a trajetória também participou do primeiro atendimento realizado pelo Samu em Sapiranga, quando socorreu Enio Falcão de Souza em seu sítio no Morro Ferrabraz. O caso aconteceu em maio de 2017.
A escolha pela profissão ocorreu pelo exemplo de um líder. “Fazia parte dos desbravadores, um grupo da igreja parecido com os escoteiros. Lá aprendemos primeiros socorros e nosso líder era técnico em enfermagem e me espelhava muito nele. Mais tarde, também fui líder e optei pelo curso.”
Apesar do amor pela área onde atua, o sonho da medicina falou mais alto. “Especialmente durante a pandemia da Covid-19. Foi o pior momento da minha vida, chegava em casa e chorava.” Naquele instante, percebeu a necessidade de médicos intensivistas. “Vi que o médico precisa de muito estudo e o Brasil tem uma demanda para a área de intensivistas.”
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Sobre a idade, o profissional/estudante diz que isso jamais foi problema. “Nunca é tarde para seguir os sonhos. Não me limitei, com 41 anos espero estar formado, tenho muito tempo para trabalhar.”
Ou seja, a expectativa é que a formatura ocorra daqui a dois anos. “Meu sonho agora é inspirar outras pessoas que estão em busca dos seus objetivos.” Após finalizar o curso, a próxima etapa já é planejada: sua especialização. “Estou pensando em me especializar na área da urgência e emergência”, confirma.
Conciliações
E não é apenas com o trabalho que Roberto precisa conciliar os estudos. O técnico de enfermagem tem uma filha, Mariana, de 10 anos. Atualmente a pequena mora com a mãe em Sapiranga. “Organizo minha rotina para conseguir ficar com ela, dar atenção. Almoçar, levar na escola.”

Foto: Arquivo Pessoal
A principal atividade acadêmica no momento é o estágio em ginecologia no Centro Integrado de Especialidades em Saúde (CIES) no próprio Campus da Feevale, o que ajuda nos momentos de pai e filha. “Quando tinha mais aulas teóricas conseguia passar em casa, comer alguma coisa, tomar um banho e já precisava sair de novo. Era bem difícil, pensei em desistir algumas vezes, mas agora não penso nisso.”
Desde que entrou na faculdade, também conta com o apoio de colegas. “Hoje moro com um amigo em Novo Hamburgo, ele me ajudou muito. São amizades que ficam para a vida toda, sou muito grato.”
Limbo financeiro
No que se refere aos custos da faculdade de medicina, Roberto conta que foi apresentado ao crédito educacional Fundacred. “Estou em um limbo financeiro, nem tão pobre para conseguir uma bolsa 100% e, ao mesmo tempo, não tenho condições de pagar o curso integral.”

Foto: Juliano Piasentin/ GES-Especial
A possibilidade do Prouni chegou a ser discutida, no entanto, não foi contemplada. “Os documentos não foram aprovados por conta da minha renda, já que sou concursado.” O estudante também tentou a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Fiz as provas em três anos, é o sonho de todo estudante de medicina, infelizmente não consegui. Pagar a faculdade era um plano D”, completa.
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