Morador de Novo Hamburgo há um ano e meio, Xavier Espinola nasceu no sul da Venezuela, próximo à Colômbia, e morou por 8 anos em Caracas, onde se formou na Universidade Católica Andres Bello. Apesar de estar a mais de 6 mil quilômetros de distância, a Venezuela nunca esteve tão presente no coração e na mente de Xavier como agora, após os terremotos que atingiram o país na noite de quarta-feira (24).
“Meus amigos, meus conhecidos, todos moram em Caracas e La Guaira, as duas cidades mais afetadas pelos recentes terremotos. Pensar nas pessoas que conheço e que muitas ainda não foram resgatadas me deixa com uma sensação de agonia interna, me sinto frustrado de não poder ajudar”, resume Xavier sobre o sentimento de estar longe de casa.

Foto: Andrieli Siqueira/Universidade Feevale
O venezuelano relata que, logo após sair do trabalho, no Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados em São Leopoldo, recebeu nos grupos de mensagens com seus amigos relatos sobre um tremor. “Mas sempre tem, achei normal. Nunca imaginei, jamais pensei [sobre] a magnitude do que estava acontecendo em Caracas. À noite, quando chegaram os vídeos da devastação, eu não sabia o que fazer. Comecei a entrar em contato com meus amigos para saber se todos estavam a salvo, mas muitos não me respondiam”, conta.
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Xavier também relata que passou a acompanhar as atualizações publicadas nas redes sociais de conhecidos e se assustou com o desastre vivido pelos conterrâneos, a ponto de ter sido difícil pegar no sono. “Pela manhã, meu Instagram estava cheio de fotos com familiares dos meus amigos desaparecidos, crianças que conseguiram se proteger, mas os pais não conseguiram. Minha família está no sul do país, todos a salvo”, lembra.
Ele expõe que dois de seus amigos estiveram desaparecidos após o terremoto, mas foram encontrados durante a tarde desta quinta (25). Além disso, Xavier enfrenta limitações em acessar informações precisas sobre muitos dos conhecidos, devido à falta de energia, sinal, internet e até celulares perdidos durante o desastre.
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“Muitas das pessoas afetadas perderam documentação, poupanças, investimentos, empregos, família… E pensar em reconstruir a vida na Venezuela com a crise produzida me deixa extremamente preocupado pelo grau de vulnerabilidade que essas pessoas experimentariam na hora de migrar”, lamenta.
Atendimento a estrangeiros na Feevale
Após os terremotos, o Centro de Educação e Direitos Humanos (Ceduca DH), da Universidade Feevale, acompanha de perto a situação dos venezuelanos atendidos pelo projeto, incluindo Xavier. Criada há dez anos, a iniciativa oferece gratuitamente aulas de português como língua de acolhimento, orientação jurídica e psicológica, além de oficinas sobre cultura brasileira e direitos humanos para migrantes e refugiados da região.
Neste ano, o projeto atende 46 estrangeiros de diferentes nacionalidades, sendo 22 venezuelanos. Segundo a coordenadora, Márcia Blanco Cardoso, muitos participantes têm familiares e amigos nas áreas atingidas e vivem dias de apreensão enquanto aguardam notícias.
“Muitos estão muito preocupados, alguns já comentaram que têm pessoas muito próximas que estão desaparecidas, todos muito tristes, muito consternados com o que está acontecendo. O que nós podemos fazer, nesse primeiro momento, até para entender o que está acontecendo e como as coisas vão se desenvolver, é dar o nosso apoio”, afirma.
Além das atividades semanais, o Ceduca DH mantém um grupo de WhatsApp com os participantes para compartilhar informações e prestar suporte em momentos de crise. De acordo com Márcia, o espaço também tem servido para acompanhar a situação das famílias dos venezuelanos atendidos e oferecer acolhimento enquanto o cenário no país se desenrola.