Título que faz menção à cidade inglesa símbolo da Revolução Industrial, “Manchester Brasileira” foi um nome atribuído a várias cidades industriais pelo Brasil: Sorocaba, Juiz de Fora, Joinville e Novo Hamburgo. Após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento fabril ligado à produção calçadista foi o carro-chefe de todo o desenvolvimento – real e imaginário – de Novo Hamburgo, notadamente com o início da exportação, já na década de 1960.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
É impossível fugir da produção calçadista para explicar a relação entre trabalho, capital e trabalhadores na nossa cidade. Foram décadas e décadas de monopólio consolidado da atividade industrial que dominou a produção local e deu as rédeas da economia de todo o Vale do Sinos. Mas havia algo antes. E não era pouco!
Para que Novo Hamburgo se transformasse na Capital Nacional do Calçado, toda uma estrutura havia sido montada anteriormente pelos pioneiros que se instalaram por aqui. É isso que vamos revisitar no primeiro fascículo da série do Grupo Sinos alusiva aos 100 anos de Novo Hamburgo, disponível na edição desta quarta-feira (6) do Jornal NH. Os demais fascículos serão publicados sempre na primeira quarta-feira de cada mês até o centenário do município, em abril de 2027.
Fábricas
A formação de Hamburgo Velho está intimamente ligada à prestação de serviços e à produção artesanal de manufaturas. Os irmãos Johann Peter e Heinrich Wilhelm Schmitt foram os precursores no comércio de produtos coloniais comprados junto aos imigrantes e seus descendentes e revendidos na capital. João Pedro já tinha sua venda desde 1831 e Henrique tinha uma embarcação, um lanchão que levava produtos até Porto Alegre e, de lá, trazia aquilo que os colonos não produziam nas suas propriedades: sal, tecidos, lampiões…
A ampliação da rede comercial junto ao povoado chamou a atenção daqueles que vieram da Europa como lavradores mas, na verdade, eram artesãos: tanoeiros, moleiros, ferreiros, curtidores e sapateiros começaram a se dirigir para Hamburgerberg, onde pessoas e dinheiro circulavam num fluxo crescente.
Nos trilhos
Com a chegada do trem, em 1876, um novo mundo se abre para estes empreendedores. Sem a lentidão das águas do Rio dos Sinos e os atoleiros dos caminhos terrestres, o trem ligava o agora “Neu” Hamburg à capital em cerca de duas horas de maneira segura e pontual.
Ao Centro!
A economia se diversificou e os caminhos do progresso se estenderam em direção à atual região central. Na antiga Estrada Geral do Hamburgerberg, hoje General Osório, foram surgindo empreendimentos cada vez mais diversos, buscando atender demandas do comércio porto-alegrense, regional e local, um leque produtivo que só cresceu nas décadas seguintes.
Pós-1927
Quando, já emancipada, Novo Hamburgo chegou à década de 1930, sua economia era um primor de diversificação. Fábricas de bebidas alcoólicas e de refrescos, cigarros e cigarrilhas, selas e artigos de couro, fármacos e remédios, molduras, metalurgia, órgãos e harmônios, móveis de luxo, conservas, embutidos, cartonagens e, obviamente, curtumes e fábricas de calçado montavam a paisagem econômica hamburguense. Bem antes do boom calçadista, já havia muito capital investido, tecnologia, estrutura fabril consolidada e o essencial para a produção: uma oferta significativa de mão de obra já treinada na rotina produtiva.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
Trabalhadores
Se na época imperial já havia trabalhadores assalariados nas oficinas familiares de Hamburgerberg, nas propriedades rurais da região muitas famílias com maior poder aquisitivo haviam se integrado ao sistema produtivo característico deste período e possuíam trabalhadores escravizados.
Os registros de batismo da Igreja Luterana Três Reis Magos, de Hamburgo Velho, contabilizam 50 batismos de crianças filhas de escravizados realizados entre os anos de 1846 e 1870, quando entrou em vigor a Lei do Ventre Livre. Documentos de alforria e compra e venda confirmam uma presença significativa da mão de obra escravizada em toda a região colonial.
Em série
A incrementação do trabalho fabril e a evolução da produção industrial para outros patamares – como a instalação da produção em série, pioneirismo da fábrica de sapatos Sul Riograndense, de Pedro Adams Filho, em 1901 – ampliou significativamente a oferta de empregos.
Dos Vales
Nas primeiras décadas do século XX, havia uma crescente comunidade de operários se formando em Novo Hamburgo. Pessoas que vinham dos vales vizinhos, mas também de lugares mais distantes, como as famílias negras que se deslocavam de Pelotas e arredores para trabalhar nos curtumes hamburguenses. O desenvolvimento das fábricas gerou uma corrida regional para Novo Hamburgo em busca de postos de trabalho.
Oportunidades
Registrados a partir de 1947, os dados do primeiro “Livro de Doentes” do Hospital Operário Darcy Vargas, hoje Hospital Municipal, mostram que uma grande parcela da população atendida provinha dos Vales do Caí e Paranhana, empregados na indústria e no comércio locais. A partir da década de 1950, a demanda por mão de obra cresceu exponencialmente, dando à antiga cidade interiorana ares cada vez mais cosmopolitas.
Manchester Brasileira, Cidade Industrial e Courocap são algumas das expressões usadas pela imprensa nacional se referindo a Novo Hamburgo. Uma terra de oportunidades que chamava a atenção de quem buscava uma nova vida.

Foto: Acervo Fundação Scheffel
Entre 1950 e 1980 o aumento populacional de NH chegou a impressionantes 463%. Para se ter uma ideia, o crescimento nacional no mesmo período é de cerca de 229% segundo o IBGE. Este crescimento se manteve em ascensão até o final da década de 1980, quando se estabiliza na mesma velocidade em que a produção industrial tem sua queda na crise do calçado vivida nos anos 1990.
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