*Alerta: Esta reportagem aborda violência contra a mulher. Se você é sensível ao tema, a matéria pode despertar gatilhos. Veja abaixo como denunciar.
Uma gaúcha de 39 anos denunciou ter sido mantida em cárcere privado por um dentista em Itapema, no litoral norte de Santa Catarina. O agressor é Alisson Malinoski, de 40 anos, que foi preso. A vítima, Mariane Velhos, relatou ao programa Domingo Espetacular, da Record TV, que sofreu agressões físicas e psicológicas durante aproximadamente quatro meses.

Foto: Reprodução/Record TV/ND Mais
Mariane conheceu Alisson quando trabalhava em uma concessionária. Ela era nova na cidade e buscava independência. O dentista conquistou a confiança dela ao se apresentar como gentil e honesto. Após um mês do primeiro encontro, os dois passaram a morar juntos. O caso, que chocou a região litorânea catarinense, ganhou repercussão nacional devido à gravidade das agressões relatadas pela vítima.
O dentista se aproximou dos pais de Mariane oferecendo trabalho como secretária em seu consultório. “Ele tinha uma lábia muito boa, então ele falou com meus pais, e meus pais falaram da minha situação financeira, que eu não estava conseguindo pagar aluguel, que estava difícil. E eu estou precisando de uma secretária para trabalhar comigo no consultório”, contou a vítima ao Domingo Espetacular.
Com o tempo, Alisson passou a controlar a rotina de Mariane. Ele colocou um rastreador no celular dela. A obrigou a sair do emprego por ciúmes. Os dois passaram a viver 24 horas juntos.
A vítima foi afastada da família. Era orientada a dizer que estava bem sempre que era questionada. Dentro da casa, ela era obrigada a usar salto alto o tempo inteiro. Segundo o relato, essa era uma forma de controle. O agressor conseguia ouvir os passos e impedir qualquer tentativa de fuga.
Durante o período de confinamento, Mariane foi submetida a agressões físicas constantes. Sofreu espancamentos com cinta, fivela de cinta e cabo de vassoura. O agressor também a enforcava até que ela perdesse a consciência. Além das agressões físicas, Mariane era constantemente humilhada verbalmente.
“Ele era alguém e eu só estava sendo alguém porque eu estava como esposa ao lado dele, então eu teria que obedecer ele, ser totalmente submissa a ele. Ele cuspia na minha cara, me chamava de lixo”, conta Mariane.
“Ele pedia para eu ficar ajoelhada, de costas para ele, e me batia com uma cinta, com a fivela da cinta, e com cabo de vassoura. Quebrou várias vezes o cabo de vassoura nas minhas costas, me chutava, e eu caía no chão, ele colocava o pé no meu pescoço, segurava, enforcava, e eu perdia a consciência”, conta Mariane.
O dentista obrigou Mariane a tatuar o nome dele em dez partes diferentes do corpo. Todas as tatuagens foram feitas no mesmo dia. As marcas ficaram nos pés, pernas, cintura, mãos, pescoço e peito. Ela foi orientada a dizer que se tratava de uma comemoração de aniversário de casamento. Seria uma tatuagem por ano de casados.
Mariane afirma que era ameaçada com frequência. O homem dizia como iria matá-la. Relatava que poderia colocar fogo no carro com ela dentro ou esquartejar o corpo e jogar em um saco de lixo.
A casa onde Mariane foi mantida ficava atrás da clínica de Alisson, em Itapema. O imóvel não tinha janelas. Era totalmente fechado. Não permitia saber quando era dia ou noite.
A fuga aconteceu após mais uma sessão de agressões. Ao perceber que Alisson havia tomado um remédio para dormir, Mariane saiu apenas com a roupa do corpo. Pediu ajuda a um vizinho. Em seguida, deixou a cidade. Percorreu cerca de 500 quilômetros até a casa dos pais, em Esteio.
A vítima procurou a polícia somente após chegar à casa dos pais. Segundo relatos, Mariane estava com diversos ferimentos espalhados por todo o corpo quando registrou a denúncia.
“Eu não era mais eu, porque, no momento em que eu estava sendo totalmente submissa, fazendo tudo o que ele mandava e não o que eu queria, o que eu sentia eram só as coisas que ele ordenava. É como se eu não tivesse mais alma”, afirmou Mariane.
Alisson Malinoski foi preso. Ele deve responder por crimes como cárcere privado, ameaça qualificada contra a mulher, dano qualificado e lesão corporal qualificada. Durante o interrogatório, o dentista permaneceu em silêncio.
As investigações apontam que outras duas mulheres podem ter sido vítimas do dentista. A defesa do dentista se pronunciou em nota. Afirmou que ele é inocente. Disse que isso será provado na Justiça.

Foto: Grupo Sinos
Onde pedir ajuda em casos de violência contra a mulher
Brigada Militar – 190
Deve ser acionada imediatamente em situações de violência em andamento. Atendimento 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
A vítima pode registrar ocorrência preferencialmente em uma Delegacia da Mulher ou em qualquer Delegacia de Polícia. Também é possível solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.
Delegacia on-line
Permite o registro de ocorrência e a solicitação de medidas protetivas de urgência pela internet, sem necessidade de deslocamento.
Central de Atendimento à Mulher – Disque 180
Funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. Recebe denúncias, orienta sobre direitos e encaminha para a rede de atendimento. A ligação pode ser anônima.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
Atende vítimas em suas Promotorias de Justiça e oferece canais de atendimento virtual.
Defensoria Pública – 0800 644 5556
Presta orientação jurídica gratuita às vítimas.
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
Oferecem acolhimento psicológico e social, além de orientação e encaminhamento jurídico.