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É BOA MESMO?

Apesar do acesso à água tratada, poço é opção de abastecimento para 49% das residências em Nova Santa Rita

Estrutura usada como fonte principal em mais de 5 mil casas na cidade também precisa passar por tratamento

Publicado em: 28/11/2025 às 09h:05 Última atualização: 01/12/2025 às 09h:47
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A água jorra naturalmente, como um presente da natureza pronto para desfrutar. Mas também pode estar no fundo, e só perfurando para captar. O cano desce e parece não ter fim. Mas a abundância que sobe garante o abastecimento de casas há séculos no Brasil.

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Na residência da Ana Leci Lemes da Rosa, em Nova Santa Rita, não é diferente. Os poços no terreno da família são as principais fontes de água – no plural mesmo. “É água do poço industrial que vem lá de cima, tem o nosso poço artesiano também. O açude a gente não usa muito e o poço cavado também não, bem pouco”, conta a costureira de 51 anos.

Ana Leci Lemes tem poço artesiano em sua casa em Nova Santa Rita | abc+



Ana Leci Lemes tem poço artesiano em sua casa em Nova Santa Rita

Foto: Paulo Pires/GES

“Aqui nós estamos bem servidos de água”, destaca a aposentada Diastene Mafessoni, 70 anos. A sogra de Ana mora na casa ao lado e relembra que a água de poço era a única opção de abastecimento quando Nova Santa Rita nem era emancipada.

“Faz tempo, uns 35, 36 anos ou mais que estamos aqui. E quando chegamos, não tinha nada e a luz era só na rua. Pra ter água nós fizemos um poço cavado, mas logo depois fizemos um artesiano”, comenta Diastene. Desde o início, a família fez obras nas casas para que a água ficasse armazenada em caixas d’água e que fosse encanada, chegando nas torneiras.

Junto com os poços que existem no terreno localizado na Estrada Itapuí, as moradoras utilizam água de um poço industrial, gerido por uma associação que cobra uma taxa mensal. Pelo menos outras 50 famílias também são clientes, segundo a costureira. A “água lá de cima”, como elas chamam, chega na rua e nunca faltou, nem mesmo no verão.

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“A nossa água é muito boa. O poço é bom e a água que vem lá de cima é muito boa também porque é uma água bem natural. Eu não sei se eles colocam alguma coisa pra tratar, mas ela não vem com gosto de nada e a gente nunca ficou sem”, relata Ana.

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Quase metade da cidade tem poço

A família de Ana e Diastene representam uma realidade do abastecimento em Nova Santa Rita. São 5.109 residências que utilizam o poço como a principal fonte de abastecimento de água, representando 49,75% das moradias da cidade. A informação é do Censo 2022 do IBGE.

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Residências de Diastene e Ana Leci tem água de poço canalizada e com caixa d'água | abc+



Residências de Diastene e Ana Leci tem água de poço canalizada e com caixa d’água

Foto: Paulo Pires/GES

Mas poço não é tudo igual: são 5.019 casas com poços profundos ou artesianos, que podem chegar a 2 mil metros de profundidade. A esse número ainda se somam outras 90 casas que utilizam poço cavado, raso, freático, caipira ou cacimba. Essas estruturas costumam ter 20 metros de profundidade, no máximo.

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Assim como nas casas delas, a maioria esmagadora possui água canalizada, trazendo mais conforto. A informação colhida no Censo afasta aquela imagem de água coletada com balde no quintal e levada para dentro das casas.

Se tem poço é porque ele chegou antes

Se os moradores de Nova Santa Rita ainda utilizam água de poço é porque foi a única opção de abastecimento durante muito tempo. O município de 34 anos de história firmou convênio com a Corsan em 1997.

No início dos anos 2000, uma Estação de Tratamento de Água (ETA) compacta metálica abastecia o bairro Berto Círio. Em 2004, a estação definitiva foi inaugurada no mesmo bairro, com capacidade para 50 litros por segundo. Na época, Nova Santa Rita tinha população estimada em 12 mil habitantes.

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De lá pra cá, a cidade cresceu e a companhia vem ampliando o fornecimento. Nesta semana, a companhia inaugurou uma nova estrutura compacta, ao lado da ETA, ampliando a capacidade para 145 litros por segundo. O abastecimento também conta com um poço artesiano e dois reservatórios para reforçar o serviço nos bairros Centro e Califórnia.

Estação de Tratamento de Água tem dois módulos | abc+



Estação de Tratamento de Água tem dois módulos

Foto: Divulgação/Corsan

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Atualmente, são 7.103 domicílios ligados à rede, segundo a própria empresa. “A Corsan disponibiliza cobertura de rede em todos os bairros do município, dando condições para que a população tenha na porta de casa água tratada e de qualidade”, informa.

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Chegou antes e permanece

No entanto, a adesão esbarra no imaginário da água de poço. Mesmo onde chegou, nem sempre tem a preferência: 2.210 casas que estão conectadas à rede utilizam outra fonte de água como principal, conforme levantamento do Censo 2022. Ou seja, tem a água da Corsan, mas usa a do poço.

Para além da preferência, existe a necessidade. Algumas localidades são colocadas em situação de vulnerabilidade hídrica, ou seja, com dificuldade de acesso a um sistema de abastecimento de água potável. Uma delas é a Comunidade Rural do Picadão que deve receber um poço artesiano após aprovação de um projeto apresentado pela Prefeitura de Nova Santa Rita.

A lei nº 2.125/2025 foi promulgada no início de outubro e autoriza a assinatura de contrato de comodato para implementação do abastecimento. O poço artesiano terá área de 310,54 m², além de um reservatório. O prazo do contrato é de até 30 anos, podendo ser renovado pelo mesmo período. A iniciativa beneficiará 82 famílias.

Outras localidades também são alvo de pedidos para abertura de poços artesianos, como o Beco do Sabão, Beco do Incra, Beco do Mosquito, Beco do Servidão, Rua Santa Clara, Capão do Padre, Estrada dos Colonos, Estrada Álvaro Ignácio e Estrada dos Wink. Neste último, vivem 12 famílias e acumula quatro pedidos de abertura de poço, feitos pelos vereadores.

Ao todo, foram 12 indicações para estudos de viabilidade de perfuração de poço artesiano comunitário para atender as necessidades das comunidades desde 2020.

Além do abastecimento para uso da população, com o devido tratamento, a água também pode ser usada para jardinagem, irrigação e atividades industriais. O geólogo e professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS Tiago de Vargas lista algumas vantagens como os menos custos de obtenção e manutenção, menor impacto ambiental da captação subterrânea, autonomia e agilidade no fornecimento.

“Também tem uma menor susceptibilidade às condições climáticas, pois a capacidade de armazenamento dos aquíferos torna a vazão estável até nos períodos de estiagem”, ressalta.

No entanto, também tem as desvantagens como o grande número de poços mal localizados, construídos e operados, junto com a falta de controle e fiscalização.

Conforme o Departamento de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS) da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), é necessária a emissão de outorga para captação e uso das águas subterrâneas, mas com casos em que há dispensa. No entanto, todos devem estar cadastrados. De acordo com a secretaria, o sistema consta com apenas 30 outorgas concedidas para poço artesiano em Nova Santa Rita.

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Mas a água é boa mesmo?

“Fui criada com poço artesiano. Eu gosto e acho mais saudável, mais limpa porque é mais fundo”, observa Vanessa Nunes da Rosa. A moradora do bairro Caju já testou outras opções, mas não abre mão do artesiano.

“Cheguei a ter poço cavado e já provei a da Corsan, mas vi diferença e não gostei. Acho que a do poço artesiano tem um gosto adocicado. Eu não troco mais”, ressalta a chefe de gabinete parlamentar de 44 anos.

Corsan também tem poço artesiano em Nova Santa Rita para reforçar abastecimento do Centro e Califórnia | abc+



Corsan também tem poço artesiano em Nova Santa Rita para reforçar abastecimento do Centro e Califórnia

Foto: Vitor Gomes/Divulgação

Observações como essa da Vanessa também foram ouvidas pelo geólogo Tiago de Vargas. “Em conversas com usuários de água de poço, percebi que o principal argumento utilizado para manter o poço está relacionado ao gosto da água. Eles acreditam que a água do poço tem um sabor melhor do que a água fornecida pela concessionária. Isso ocorre porque estão acostumados a consumir água sem tratamento com cloro, substância que altera o sabor natural da água. Mas a adição de cloro é essencial para garantir a eliminação de microrganismos”, explica.

O professor da UFRGS ainda ressalta a questão cultural por trás da preferência pela água de poço. “Outro motivo possível é a crença popular de que a água subterrânea não precisa de tratamento e que sempre será ‘boa’. Embora, na maioria dos casos, a água subterrânea apresente boa qualidade, existem situações em que isso não ocorre. Por isso, é necessário realizar análises periódicas da água captada em poços tubulares, considerando o uso destinado a ela.”

Diferença está no tratamento

A água de poço, profunda ou rasa, é captada nos lençóis freáticos, minas, córregos, rios e lagos. Assim como a água fornecida por autarquias ou empresas. A Corsan, por exemplo, usa o Rio dos Sinos como fonte para abastecer Nova Santa Rita – junto com o poço artesiano instalado no Berto Círio.

Segundo o professor, a diferença está no cuidado com essa água. “Se for água captada de poço tubular para abastecimento público fornecido pela Corsan, a principal diferença entre a água de poço particular e a água de poço distribuída na rede pública está no tratamento realizado pela companhia, que é obrigatório para garantir a potabilidade”, destaca.

O processo de tratamento pode envolver filtragem, decantação e uso de cloro (cloração). “Geralmente a água subterrânea necessita apenas das etapas de desinfecção e fluoretação para torná-la potável”, explica a Corsan. Já a água que passa pelas ETAs possui um caminho mais longo até a casa dos clientes, passando por nove processos.

  1. Captação: retirada de água bruta do manancial
  2. Adução: caminho percorrido pela água bruta até a Estação de Tratamento de Água
  3. Mistura rápida: adição de um coagulante para remoção das impurezas
  4. Floculação: onde ocorre a aglutinação das impurezas
  5. Decantação: etapa seguinte, em que os flocos sedimentam no fundo de um tanque
  6. Filtração: retenção dos flocos menores em camadas filtrantes
  7. Desinfecção: adição de cloro para eliminação de micro-organismos patogênicos
  8. Fluoretação: adição de compostos de flúor para prevenção de cárie dentária
  9. Bombeamento para as redes e reservatórios de distribuição

Com o interesse de atingir a meta do Marco Legal do Saneamento, que busca fornecer água tratada para 98% da população das cidades atendidas até 2033, a Corsan chama atenção para a qualidade da água de poço. “As principais considerações a serem feitas sobre as águas subterrâneas (poços) é que a perfuração descontrolada pode causar uma série de riscos à população. A perfuração feita sem os cuidados técnicos necessários pode causar a contaminação do lençol freático e, principalmente, do aquífero”, alerta.

“Outra situação é que alguns poços se conectam erroneamente à rede pública, com possibilidade de contaminação da água tratada, que é o que denominamos de “contaminação cruzada”, destaca.

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Mas a água é boa pra saúde?

A qualidade da água depende de como está o aquífero de onde ela é captada, explica o professor Vargas. “Existem aquíferos com água de boa qualidade, porém também há aqueles que já foram contaminados, seja de forma natural ou antrópica. Pode haver uma parte do aquífero contaminada e outra não. Por esse motivo, é sempre necessário avaliar a qualidade da água em todos os poços tubulares, independentemente do uso que será destinado à água.”

Ou seja, se tratada adequadamente, a água de poço é boa para a saúde. E boa em diversos sentidos. “As águas subterrâneas constituem as maiores reservas de água líquida do mundo e são amplamente utilizadas no abastecimento público, especialmente em municípios de pequeno porte. Elas podem contribuir significativamente para a segurança hídrica da sociedade, desde que exista uma boa governança sobre esses recursos”, observa Vargas.

Mas para isso é preciso haver um acordo entre as comunidades e poder público para melhorar a gestão e acesso a esse bem de forma segura. O professor elenca algumas recomendações:

  • Obter as permissões necessárias para perfurar o poço e usar as águas subterrâneas
  • Contratar empresas idôneas de perfuração que sigam as normas técnicas
  • Realizar a inscrição no cadastro de poços
  • Operar e manter o poço de acordo com as normas técnicas, de forma a protegê-lo de contaminantes
  • Monitorar a qualidade e quantidade da água, mantendo um bombeamento dentro dos parâmetros técnicos recomendados e dos termos da outorga
  • Guardar a informação necessária sobre o perfil e funcionamento do poço
  • Dotar a captação de água subterrânea de dispositivos que permitam a coleta de água, medições de nível, vazão e volume captado, de forma a realizar o monitoramento quantitativo e qualitativo
  • Recolher os valores devidos pelo uso da água nos casos em que a cobrança esteja implementada na bacia
  • Tamponar os poços abandonados ou improdutivos, conforme instruções do órgão gestor estadual
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