“Acho que é um símbolo”, diz Aristides Antunes. “Olhar para o prédio dos bombeiros e ver tudo destruído diz muito sobre o abandono do bairro Mathias Velho desde a enchente. Os moradores se sentem deixados de lado”, completa o aposentado de 68 anos.
Foi no dia 4 de maio de 2024 que as águas inundaram o bairro Mathias Velho e metade de Canoas. A maior tragédia climática do Rio Grande do Sul ceifou vidas e causou destruição.

Foto: Paulo Pires/GES
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Quase dois anos depois, o posto do Corpo de Bombeiros, instalado na Avenida Rio Grande do Sul 1.830, permanece de pé, embora combalido, como uma lembrança permanente da catástrofe que atingiu a população.
A unidade teve a estrutura sensivelmente abalada após passar quase 30 dias debaixo d’água durante o período mais crítico da enchente que inundou o bairro, não sendo possível o retorno das atividades.
Em maio do ano passado, o Estado deu sinal verde para a reconstrução da sede. Na época, o investimento anunciado era superior a R$ 2 milhões para reestruturar a unidade, mas desde então o projeto não saiu do papel.
Segundo a capitã Júlia Calgaro, o processo aberto em julho do ano passado continua, no entanto, a Secretaria de Obras do Estado atende a uma demanda enorme desde as cheias, não sendo possível acelerar o processo.
“Canoas não foi a única cidade afetada pela enchente”, reforça. “Entendemos a apreensão da comunidade e garantimos que o processo para reestruturar a unidade está em andamento, mas ainda não é possível dar uma data.”

Foto: Paulo Pires/GES
Deslocamento
Conforme a capitã Júlia Calgaro, é importante que a população tenha em mente que o bairro Mathias Velho não está desassistido devido à ausência do posto. Isso porque a estrutura humana e material está alocada na unidade da Avenida Santos Ferreira.
“Desde a enchente, toda a estrutura e pessoal seguem atendendo às ocorrências, mas o deslocamento parte aqui da sede da Avenida Santos Ferreira, onde há dois caminhões preparados.”
Por conta das obras na BR-116, a maior dificuldade diz respeito ao tempo de resposta para as ocorrências, já que não é fácil transpor a rodovia federal transformada em um enorme canteiro de obras.
“O tempo de resposta para as ocorrências acaba não sendo o mesmo, mas todas as ocorrências são atendidas pelo Corpo de Bombeiros. Contamos inclusive com o suporte de guarnições vizinhas de Esteio e Nova Santa Rita.”

Foto: Paulo Pires/GES
Necessidade
Foi em 2004 que o Estado inaugurou uma unidade do Corpo de Bombeiros na Avenida Rio Grande do Sul. Desde então, a unidade passou a absorver a demanda não apenas no bairro, mas em áreas vizinhas no quadrante oeste.
Nascida no Mathias, Juliana Telles, 42 anos, viveu uma segunda tragédia após a enchente. Isso porque um curto-circuito na fiação da casa resultou em um incêndio. Ela conta que coube aos vizinhos combater o fogo.
“Ligamos umas 51 vezes para os bombeiros, mas demorou demais para aparecer o caminhão”, lembra. “Se instalaram um posto dos bombeiros no Mathias, é porque precisa. Cadê os bombeiros? Não dá para eles largarem de mão.”
À reportagem, o governo do Estado confirmou que a atual estrutura acabou condenada devido à cheia, não sendo mais adequada. O Estado também reforçou que o projeto existe e não houve o abandono da área.
Para os moradores, o prédio está inserido em um contexto de descaso com a população, que mantém à distância investimentos para a 1ª Companhia da Brigada Militar e o Centro Social Urbano Mathias Velho.
“Basta reparar quantas coisas existiam no bairro Mathias Velho, mas que acabaram abandonadas depois da enchente”, reclama o comerciante Moisés Castro. “O problema não é só dos bombeiros. O posto da Brigada Militar e o Centro Social Urbano também foram abandonados”, defende o trabalhador de 51 anos.
Demanda
A recuperação da unidade no bairro Mathias Velho é considerada estrategicamente importante pelo Corpo de Bombeiros de Canoas devido à posição geográfica do posto para o atendimento à população.
Não há, entretanto, segundo os bombeiros, um montante de ocorrências no Mathias Velho que se destaque no comparativo com outros bairros da cidade. Até mesmo Rio Branco e Niterói têm hoje mais ocorrências.
A demanda dos bombeiros, entretanto, permanece grande. Somente em 2026, houve o crescimento de 25% no número de ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros durante os meses de janeiro e fevereiro.
Conforme o relatório do 8º Batalhão de Bombeiro Militar, as ocorrências saltaram de 279 no ano passado para 351 no período homólogo, de janeiro e fevereiro, neste ano, número considerado elevado. Foram 94 incêndios.
“Nossa demanda é grande, mas não podemos afirmar que o bairro Mathias Velho concentra o maior número de ocorrências”, explica a capitã Júlia Calgaro. “O Centro e arredores têm mais registros de incêndios”, acrescenta.