“As arquibancadas tremiam; as bandeiras ondulavam. Era tarde de clássico entre os maiores rivais da pequena Santa Marina. O ano é 2011 e o que está em jogo no gramado é mais do que futebol: é a honra. Algumas horas depois, aquele meio de tarde de domingo se transformaria em noite e a segunda-feira não tardaria em chegar com toda a carga do início de semana. Caberia aos homens, reunidos entre quatro linhas, decidir quem começaria o dia seguinte de cabeça em pé.”
Mas a segunda-feira não chegou para o Alcemir Ivan Nunes, 55 anos, conhecido como Bola. O massagista do Clube Esportivo Santa Marina morreu no gramado minutos antes de começar o clássico com o Esporte Clube Verde e Branco.
O corpo estendido no centro do campo é o pontapé do livro Bola no Chão, escrito pelo jornalista Leandro Domingos, repórter do Jornal Diário de Canoas, e lançado em junho deste ano pela editora Beta Librum. A obra de 148 páginas põe o futebol nas páginas policiais do jornal da cidade fictícia de Santa Marina.

Foto: PAULO PIRES/GES
Quem matou Bola? Como? E por quê? São questionamentos que permeiam a história protagonizada pela jornalista Mariana e pelo delegado Rodrigo: uma que está de olho em tudo e outro que não sabe nem por onde começar.
A dupla encara as suas diferenças e age para solucionar um caso nada simples. E nada simples mesmo. Se engana quem acha que vai resolver o mistério desse livro antes de chegar às últimas páginas. A história só se completa mesmo no final.
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E o craque Romarinho brilha
A trama é conduzida e protagonizada por Mariana e Rodrigo. Mas é o menino Romarinho, um jogador promissor, que enlaça a trama nos bastidores. O personagem vai aparecendo ao longo do livro, com capítulos próprios intercalados com a trama da investigação, até ter o seu momento de brilhar.
“Tinha um passe perfeito e colocava a bola na área como ninguém.” Mas isso se perdeu com o trauma. A raiva pelo abuso que sofreu foi descontada em colegas e Romarinho virou o menino que recolhe as bolas e os coletes após o treino. Rebaixado e invisível.
Ele é vítima e seu próprio salvador. O menino de 9 anos não queria terminar assim, nem deixar de viver seu sonho que já era realidade. A promessa prometeu e entregou vingança: denunciou.
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É sim sobre futebol
Dentro da redação, o Leandro costuma comentar os feedbacks que recebe do livro. E muitos dizem que pensavam que a história era sobre futebol – por imaginarem o jogo em si, campeonatos, disputas e títulos. Mas é sim sobre futebol. É o seu lado do sonho, do talento; do pesadelo, do crime.
Assim como tem o seu lado racista e discriminatório, o futebol também é abusivo. O esporte não está descolado nem deslocado da realidade do nosso país e do mundo. Casos como o do livro acontecem sem ninguém ficar sabendo e, ainda sim, fazem parte deste universo que move paixões.
Tratar como algo à parte não ajuda a avançar em nenhuma das lutas. Por isso, o livro acerta quando mantém toda a trama e os envolvidos próximos ou dentro do estádio de futebol – este lugar místico e encantador, mas que também pode ser traiçoeiro.
Mas toda a reflexão está nas entrelinhas. Na obra, temos o mistério, a investigação, o romance, o drama e a comédia. Tem de tudo um pouco, assim como uma partida de futebol.
Obra na Feira do Livro de Porto Alegre
O jornalista Leandro Domingos é uma das presenças na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. O evento acontece entre os dias 31 de outubro e 16 de novembro, na Praça da Alfândega, no Centro Histórico. A sessão de autógrafos será no dia 3 de novembro, a partir das 19 horas.