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ACOLHIMENTO

"Eu não teria me fortalecido": Como centro de referência ajuda mulheres vítimas de violência em Canoas

Espaço na Rua Siqueira Campos dissemina informação, recebe famílias e dá encaminhamentos para uma vida longe do ciclo de abuso

Publicado em: 18/02/2026 às 13h:02 Última atualização: 18/02/2026 às 13h:03
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O número assustador de mulheres vítimas de feminicídio neste início de 2026 no RS chama a atenção, mais uma vez, para a necessidade de combater esse crime. Para além das ações de conscientização, existem os espaços de acolhimento.

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A coordenadora do CRM de Canoas, Fernanda Friedrich, destaca a importância do acolhimento dado às vítimas | abc+



A coordenadora do CRM de Canoas, Fernanda Friedrich, destaca a importância do acolhimento dado às vítimas

Foto: Paulo Pires/GES

Quando uma mulher sofre algum tipo de abuso é preciso um atendimento qualificado que lhe tire desse ciclo e lhe dê esperança para uma vida nova. Para isso, foram criados os Centros de Referência para Mulheres (CRM), em 2002, no Rio Grande do Sul.

Em Canoas, o espaço foi inaugurado em 2011 e funciona até hoje na Rua Siqueira Campos, 321, Centro. A casa simples em uma rua tranquila é um sinônimo de segurança. Ali, as vítimas passam por diferentes profissionais e buscam um recomeço para as suas vidas.

“O nosso atendimento aqui é psicossocial, não é psicoterapêutico. Ele é basicamente para o enfrentamento da situação de violência. Trazer um pouco mais da autonomia da mulher, para ela se entender de novo como uma cidadã de direitos”, destaca a coordenadora do CRM Patrícia Esber, Fernanda Friedrich.

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A partir desse acolhimento, a mulher pode ser direcionada a outros meios que atendam suas necessidades. Entre eles estão a polícia, justiça, assistência social, cursos de qualificação, programas sociais, realocação no mercado de trabalho, centro de abrigamento, rodas de conversas, entre outros.

Somente em 2025, foram mais de 3 mil atendimentos realizados, somando as mulheres que vão até CRM e a busca ativa de vítimas que possam precisar do serviço em Canoas. “É uma luta de todas as mulheres. Esse espaço de acolhimento é justamente para que a gente tenha um espaço nosso, em que possamos ser ouvidas, escutadas e orientadas”, destaca Fernanda.

Centro é local de passagem

Algumas mulheres chegam e batem na porta. Mas muitas outras são encaminhadas para o CRM por outros profissionais. As vítimas – ou quem conhece uma – podem ser orientadas dentro das escolas, delegacias, conselhos tutelares, UPAs, UBSs e CRAS – serviços que percebem a violência sofrida e ajudam na quebra do ciclo.

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“Os atendimentos são sempre individuais. O primeiro normalmente é feito com a assistência social que vai fazer o acolhimento, identificar todas as demandas daquela mulher e ver quais outros serviços a gente precisa acionar”, explica a coordenadora do CRM.

CRM Patrícia Esber fica na Rua Siqueira Campos, 321, no Centro de Canoas | abc+



CRM Patrícia Esber fica na Rua Siqueira Campos, 321, no Centro de Canoas

Foto: Paulo Pires/GES

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Grande parte dos encaminhamentos são feitos pelos serviços de saúde e pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher – que compõe a rede de proteção, observa Fernanda. Mas o centro também trabalha indo atrás das vítimas.

“Toda medida protetiva que é concedida em Canoas é encaminhada para o CRM e disso fazemos as buscas ativas. Nós entramos em contato com todas as mulheres para perguntar se a medida está sendo cumprida, ou não, e para atualizar o endereço”, detalha.

O centro também ajuda no atendimento de mulheres que estão sendo ameaçadas e não têm para onde ir. Essas vítimas podem ser direcionadas para o Centro Regional de Abrigamento para Mulheres (Cram) que não tem endereço divulgado por questões de segurança.

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Os casos passam por uma avaliação, segundo a diretora da Mulher, da Secretaria Municipal de Mulher, Cidadania e Inclusão, Sara Amaral Avila. “Nós temos esse lugar para aquelas que não têm para onde ir e que estão com risco de vida. Nessa situação de risco iminente é feito uma avaliação com base nos critérios do centro regional”, afirma.

“Basicamente essa movimentação, enquanto a mulher está lá, é feita pelo CRM. Quando estamos fechados, é direto na delegacia. Também fazemos um plano protetivo para que ela tenha um mínimo de estrutura quando sair do abrigo”, destaca a diretora.

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“Se não tivesse isso aqui seria bem difícil”

Esses espaços compõem uma longa rede de proteção e de acolhimento a essa vítima de violência. Frequentando o CRM há quase três anos, Maria*, 64 anos, ressalta a importância desse atendimento na sua vida.

“O que me trouxe aqui foi porque o meu casamento não estava bom. Eu tive um relacionamento de 28 anos e eu procurei ajuda com a assistente social do meu bairro. Ai, ela me indicou aqui. Eu cheguei e fui muito bem recebida, muito bem acolhida”, relembra.

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O acompanhando passa pela psicóloga e segue até hoje. “Também estou num grupo e vamos aprendendo muito e falando das coisas que nos acontecem. Muitas vezes na família a gente não tem esse acolhimento. Mas aqui acolhe e cria um vínculo”, observa.

Maria* acredita que a sua realidade hoje seria bem diferente se não existia o CRM. “Se não tivesse isso aqui seria bem difícil. Não teria ajuda, eu não saberia para onde ir. Eu não teria me fortalecido”, completa.

CRMs existem há mais de 20 anos

Os Centros de Referência para Mulheres (CRM) foram criados através do Decreto nº 41.509/2002, no Rio Grande do Sul. A medida foi pensada por uma comissão instituída no âmbito da Política Estadual de Combate à Violência Contra a Mulher e de Garantia dos seus Direitos (Decreto nº 40.594/2001).

Fernanda Friedrich e Sara Amaral Avila trabalham na rede de apoio às mulheres vítimas de violência | abc+



Fernanda Friedrich e Sara Amaral Avila trabalham na rede de apoio às mulheres vítimas de violência

Foto: Paulo Pires/GES

Ao longo dos anos, os centros foram abertos e gerenciados pelas administrações municipais em diversas cidades. Em Canoas, por exemplo, o espaço conta com a parceria da Fundação La Salle para atender quem busca pela ajuda.

Em todo o Estado, são 29 endereços elencados pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Um deles, em Novo Hamburgo, foi descontinuado e é motivo de cobrança por um coletivo de mulheres da cidade

Espaço lembra vítima de feminicídio

A rede de proteção e a cobrança pelo seu fortalecimento são para que não haja mais vítimas de violência doméstica e de feminicídio na sociedade. A luta é para quem tragédias não se repitam. O CRM de Canoas leva o nome de uma dessas vítimas.

Patrícia Ivaniski Esber, 32 anos, era uma liderança do movimento da economia solidária em Canoas. Mas, em maio de 2009, ela foi brutalmente assassinada pelo seu marido no bairro Mato Grande. 

O homem chegou a simular uma situação de latrocínio para encobrir a autoria do crime, segundo a Polícia Civil, mas acabou confessando o assassinato. O casal tinha dois filhos.

Inaugurado em setembro de 2011, o CRM ganhou o nome de Patrícia meses depois, em março de 2012. A sugestão foi aprovada pela Câmara Municipal de Vereadores e instituída pela Lei nº 5.679/2012.

Outras ações

Além do Centro de Referência, Canoas possui mais iniciativas que ajudam no combate à violência contra a mulher. A primeira delas é o Disque Mulher, um canal que serve para pedir informações, pedir ajuda e denunciar. O número (51) 99275-8146 é de responsabilidade da Secretaria Municipal da Mulher, Cidadania e Inclusão. 

A pasta também é responsável pela ações de conscientização do Dia 25 Laranja e dos 21 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Em ambas, a secretaria busca ampliar o acesso à informações sobre os canais de denúncia e de acolhimento em Canoas. 

Paralelamente, o município possui o programa Por Mim, desenvolvimento pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (SMDEI). A proposta foca na empregabilidade das vítimas de violência doméstica, encerrando a dependência financeira dos parceiros abusadores.

O programa conta com a parceria, e empatia, de empresas privadas para oferecer e manter esse emprego. Além disso, o Por Mim também deve oferecer cursos de qualificação profissional neste ano.

Tipos de violência

A coordenadoria do CRM de Canoas chama a atenção para o fato de quem nem sempre a violência é uma agressão física. Por isso, o centro produziu um folheto com os cinco tipos de violência elencados na Lei Maria da Penha. Confira:

  • violência física: bater, arremessar objetos, sacudir, apertar os braços, estrangular/sufocar, cortar/perfurar, queimar
  • violência psicológica: ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, limitação do direito de ir e vir
  • violência sexual: obrigar a mulher a fazer ou presenciar atos sexuais, forçar o aborto ou a prosseguir com uma gestão, impedir o uso de métodos contraceptivos
  • violência moral: expor a vida íntima, desferir críticas mentirosas, rebaixar a mulher com xingamentos sobre sua índole, desacreditar de uma vítima pela sua vestimenta

Como denunciar

Disque Mulher – (51) 99275-8146

Brigada Militar – ligue 190

Guarda Civil Municipal – ligue 153

Central de Atendimento à Mulher – ligue 180

Disque Mulher Canoas – (51) 99275-8146

Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) – Plantão (51) 99859-0943

Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) – 3425-9000 – atendimento 24 horas, todos os dias.

Contatos do CRM Patrícia Esber

Telefones: (51) 3476-0706 e (51) 99815-3503 (WhatsApp)
E-mail: crm@canoas.rs.gov.br
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas; sábado, das 8 às 12 horas
Endereço: Rua Siqueira Campos, 321 – Centro

 

(*) Reportagem usou um nome fictício para proteger a identidade da entrevistada.

 

SILÊNCIO APRISIONA. INFORMAÇÃO LIBERTA. DENUNCIE! LIGUE 180.

Este é um movimento de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher

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