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ENTREVISTA

"O jornalismo sempre será necessário": Miriam Leitão recebe o título de Doutora Honoris Causa em Canoas

Honraria que reconhece a trajetória da jornalista e escritora foi concedida pela Universidade La Salle nesta quinta-feira (9)

Publicado em: 10/10/2025 às 11h:49 Última atualização: 10/10/2025 às 12h:44
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Uma personalidade conhecida em todos os cantos do país. Não precisa dizer que é jornalista, apresentadora ou escritora, bastando falar o nome para saber quem é. Miriam Leitão, 72 anos, é uma das grandes profissionais da comunicação com suas opiniões, análises e reportagens sobre economia, política, meio ambiente e direitos humanos.

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 09/10/25   MIRIAM  LEITÃO | abc+



09/10/25 MIRIAM LEITÃO

Foto: Paulo Pires/GES

Mas esse comunicar não é somente baseado no que acha, mas também no que vê, ouve e estuda. A reflexão exige realidade, dizer como impacta e afeta quem lhe assiste todo dia de manhã no jornal. Ou nas entrevistas às quartas-feiras à noite.

E exige conversar com todos, incluindo que está há pouco neste mundo. Miriam fala de tudo e mais um pouco, de forma lúdica, também com as crianças. É para ensinar e fazer pensar, mas também para divertir, guardar na memória e levar adiante. Isso também serve aos adultos.

É por toda essa trajetória, elegância e sensibilidade que a jornalista e escritora foi a grande homenageada na Unilasalle nesta quinta-feira (9). Miriam Leitão é a primeira mulher a receber o título de Doutora Honoris Causa da universidade.

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“A escolha é especialmente pela sua defesa dos direitos humanos e do meio ambiente como jornalista, e principalmente como mulher. E vimos que nós tínhamos já dado outros seis Honoris Causa a homens e dissemos: precisamos escolher uma mulher, uma voz importante dentro do Brasil”, destaca o reitor da Unilasalle, Irmão Cledes Antonio Casagrande.

Mas antes de ser agraciada com essa honraria, Miriam sentou e conversou com a reportagem do Diário de Canoas. Com uma voz calma e uma visão lúcida sobre a própria história, ela respondeu sobre sua carreira, literatura, momento político do Brasil e muito mais.

Confira a entrevista na íntegra

Diário de Canoas (DC): Como se sente recebendo essa honraria?

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Miriam Leitão: É uma alegria enorme porque é a primeira vez que eu recebo um título como esse. E então é uma alegria, principalmente porque a Unilasalle é uma universidade tradicional, é uma universidade comunitária, é uma universidade que tem todos os valores que eu tenho.

E que fez o que fez durante as enchentes. Abrigou as pessoas da comunidade, se tornou parte do instrumento de para atenuar a dor da população de Canoas e da população de Porto Alegre. Realmente eu tenho muita empatia com a universidade. Então isso me deixou muito feliz.

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DC: Esse não é o único reconhecimento que você recebeu na sua carreira. Recentemente, foi empossada na cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Como se sente também tendo esse reconhecimento da sua carreira?

Miriam: Foi um momento de muita emoção, porque na verdade eu sou uma apaixonada por livros desde a infância. Quer dizer, era meu melhor brinquedo, era uma criança que viveu entre livros, uma adolescente que viveu entre livros. Os livros sempre estiveram presentes na minha vida.

Eu, na verdade, sempre sonhei em ser escritora, mas eu nunca sonhei em chegar na Academia Brasileira de Letras. Não foi uma coisa que eu tenha pensado, foi uma decorrência. Sonhei com os livros. E era assim, eu sonhava em ser escritora, mas isso não significa que eu achava ruim ser jornalista.

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Eu falo que eu sou uma mulher de dois amores, gosto, amo o jornalismo e também a literatura. Então, eu vim escrevendo meus livros para realização. Aí um belo dia, uma pessoa da Academia falou: “Por que você não se candidata?” e eu falei: “Ah, não, acho que não.” Então fiquei em dúvida, mas depois e resolvi me candidatar.

É assim que acontece, você se candidata e tem um processo eleitoral como qualquer outro. Você tem que convencer aquele colégio eleitoral, que são os acadêmicos, de que você tem a o mérito. Tem que apresentar suas obras, tem que fazer uma campanha e e tem tinha duas pessoas no meu caso. O outro era o Cristovam Buarque, foi ministro da Educação.

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Mas enfim, eles me elegeram e eu vivi um dia de glória no dia 8 de de agosto, quando assumi. É um processo cheio de ritual. Mas a Academia é pouco conhecida, as pessoas não sabem muito bem o que que acontece lá, mas é um centro cultural, produz muita cultura, muitos eventos. Essa semana eu fiz um evento sobre a COP 30. É um lugar que circula muito conhecimento e tem muito trabalho lá. Além de feliz, eu tô um pouco mais ocupada. Tem mais trabalho agora também.

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DC: Junto com a honraria aqui na universidade, você vai dar uma palestra. Do que vai tratar?

Miriam: Eu vou falar sobre o meu último livro que é sobre Amazônia: “Amazônia na encruzilhada: o poder da destruição e o tempo das possibilidades.” Pensamos que num assunto que unisse tanto o meu livro quanto o tema da semana acadêmica, que é esse tempo da inovação para a construção de soluções coletivas.

Então, a gente fez um texto que mistura as duas coisas. Eu vou falar dessa da luta da Amazônia, a luta dos amazônicos, da luta das pessoas que amam a Amazônia e que estão tentando defendê-la.

Nesse livro, eu botei um monte de informação sobre o que é a floresta, o que ela significa, o que que ela passou, qual foi a luta para reduzir o desmatamento, como é que é lá em reportagens que eu fui. Eu vou falar um pouco disso que é a mudança climática dentro desse preocupação com a proteção da Amazônia.

DC: E uma das questões que você vai trazer são as soluções sustentáveis. Isso?

Miriam: Sim, mas isso é um tema da própria semana acadêmica. As soluções sustentáveis tratam de como as cidades precisam se proteger, os próprios biomas precisam se proteger. A gente tem que construir esse respeito a todos os biomas.

Vai ser uma coisa que eu vou fazer mais de improviso e vai ter pergunta também. E eu estou muito interessada nas perguntas, porque elas vão conduzir a palestra. Eu quero que haja interação, que não seja uma coisa que eu chegue, dê o conteúdo e vai embora. Eu quero interagir com os alunos.

 09/10/25   MIRIAM  LEITÃO | abc+



09/10/25 MIRIAM LEITÃO

Foto: Paulo Pires/GES

DC: Falando em interação, qual a sua opinião hoje sobre a comunicação? Não só sobre o jornalismo em si, mas o próprio comunicar, conversar com as pessoas, nesse ambiente tão polarizado.

Miriam: Eu sou uma pessoa que estou na comunicação integralmente. Eu estou no Twitter, do X ao livro. Eu tô nas principais plataformas. Eu escrevo para jornal, trabalho em televisão, trabalho em rádio, tenho blog, tenho livro. E dentro do livro, vários gêneros: tenho não ficção, ficção, infantil. Então, eu sou uma pessoa da comunicação, um ser que se comunica.

Eu sei de todas as dificuldades desse momento, mas uma coisa importante pra gente reter, nós jornalistas, é que nós continuaremos sendo talvez até mais importantes do que antes. Tem a ideia de que todo mundo pode se comunicar, todo mundo pode fazer o seu blog, pode fazer o seu post e pronto. Ok, todo mundo pode e a informação circula mais intensamente.

Mas nós somos profissionais da informação. Nós sabemos como pegar uma informação e checar a informação e entregar uma informação confiável. Então, para começo de conversa, uma coisa é a gente precisa ter em mente: o jornalismo sempre será necessário.

A segunda coisa é o meu ambiente polarizado. Eu vivo dentro desse ambiente polarizado. Às vezes sou muito atacada de um lado e do outro. Eu não me preocupo, eu nunca respondo, por exemplo, a quem me ataca. Eu não respondo porque eu tô ali para entregar minha informação. Não, para entrar em conflito.

Então, se me atacam, se o ataque é de uma pessoa com uma posição pública importante e ele criou uma mentira de mim, eu posso procurar a justiça, já procurei e posso voltar a procurar. Mas eu não fico ali entrando naquele clima de Fla-Flu, de briga. Eu acho que nós temos que ter cabeça fria. E saber que a gente é relevante, a gente tá entregando informação e informação de qualidade e está buscando a credibilidade.

E aí me atacam e com mentiras. Inventam que eu fiz coisas que eu não fiz. Muitas vezes é através de bots, de robôs, então você não tem nem a quem se dirigir. Então, se é uma pessoa mesmo, aí eu respondo que não fiz isso, que aquilo é uma mentira. Mas assim, a gente tem que ter isso: cabeça fria e saber que nós somos relevantes nesse mundo da comunicação.

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DC: E como é que você se sente vendo as pessoas defenderem coisas e sistemas políticos que te fizeram sofrer e que fizeram outras pessoas sofrerem também?

Miriam: Não é nem uma questão pessoal, é uma questão coletiva. Eu tô absolutamente convencida, e isso ao longo de toda a minha vida, sempre estive desde o começo, que a democracia é o melhor, é o melhor sistema de governo, é o melhor regime. Eu achava isso aos 18 anos, aos 19 quando fui presa, acho isso hoje, quando a democracia foi novamente ameaçada.

Vou sempre estar em defesa da democracia, sempre preocupada que esses valores democráticos fiquem, permaneçam, principalmente com os jovens. Se a gente não convencer os jovens que a democracia vale a pena, a gente pode perdê-la. E eu sei o que é viver sem.

Então, esse é o compromisso que do qual eu jamais vou me redar. Eu sou uma defensora, eu sou uma democrata, vou defender a democracia toda vez que ela for ameaçada, como eu fiz aos 19, como eu fiz agora novamente, eu sempre farei isso.

DC: Voltando à questão dos livros. Você escreve para adulto e escreve para criança. Qual é a diferença entre esses dois?

Miriam: Totalmente diferente. Mas não é uma coisa assim, é mais fácil escrever pra criança porque o livro é pequeno. É muito desafiador, tanto para adulto, quanto pra criança. E você tem que ter saber o que que você quer. Eu quero divertir a criança, eu quero que a criança se encante com o livro, quero que goste do livro, como eu gostei dos livros que eu li na infância. Então, esse é o primeiro ponto.

Mas, ao mesmo tempo, eu quero passar alguns valores. Meus livros tratam ou da sustentabilidade ou do combate ao racismo, a ancestralidade, eu pego sempre essas questões. O último livro trata de uma criança PcD, uma criança com a síndrome rara, só que é de uma forma lúdica. Aí você fala: “Como você pode tratar de uma forma lúdica uma criança com uma síndrome?” Pois é, mas eu esse que é o desafio.

Você encanta a criança, informa a criança, tira preconceitos, trabalha pra criança perder preconceitos ou não construir preconceitos para esse mundo. É um mundo que tem que ser inclusivo, essa é a nova ordem. Você tem que ter todo mundo dentro do mesmo projeto de país.

DC: E como é que você se sente escrevendo para esse público? O que que você mais gosta?

Miriam: Eu faço esse cuidado de ler, reler, mostrar para crianças da minha família, ver se eles gostam, se eu não gostam, já passou por vários testes. “Ah, isso aqui tá chato, vovó”, então vou mudar.

Tem um livro meu que chama e “O Estranho Caso do Sono Perdido”, que é um livro sobre estresse urbano. É a história de uma avó que não consegue dormir e e aí uma neta leva ela pro mundo dos sonos, onde ela vai procurar o sono perdido. Ela perdeu o sono, vamos procurar o sono perdido da vovó. É todo brincando, mas o subtexto é esse.

Tem um que chama “O Menino que Conheceu o Fim da Noite”, que a história para construir uma noite que não acabava. Então, os meninos da cidade vão à procura do fim da noite na floresta, encontrando as crianças indígenas. O resumo da história é no encontro, exatamente com o respeito de etnias diferentes, é que a gente acaba encontrando e essa nova manhã.

Eu fico às vezes trabalhando um livro, às vezes ele sai de repente. Mas é uma trilha na qual eu gosto de trabalhar. O livro infantil, eu aprendi isso com a minha mestra, Ana Maria Machado, tem que falar com o adulto também. É como se fosse duas ondas, você trabalha a comunicação em duas ondas.

 09/10/25   MIRIAM  LEITÃO | abc+



09/10/25 MIRIAM LEITÃO

Foto: Paulo Pires/GES

Nessa onda aqui você vai falar para a criança. As crianças têm que achar super divertido e têm que absorver o principal da gestos. Nessa onda que você fala com os adultos, os adultos têm que também ler e entender que aquela história é profunda, tem profundidade, mas isso não significa que a criança veja superficialmente.

Eu vou te contar só uma história para você. Tem um livro que eu escrevi que é “Flávia e o Bolo de Chocolate” que é sobre combate ao racismo. A ideia é uma criança que não queria ser marrom, queria ser branca como a mãe. Vão brincando e acabam desfazendo a ideia de ter uma cor certa e uma cor errada.

A criança entende profundamente, mas o adulto ele tem ali uma conversa com os adultos também. É um pouco desse esforço que eu faço.

 

DC: E tem mais algum que queira experimentar? Mais alguma coisa que queira experimentar?

Miriam: Ah, eu vou continuar nesse caminho. Eu quero fazer mais um de ficção. E ficção é completamente diferente para nós, jornalistas, é inclusive um exercício muito desafiador. A gente tá acostumado a entrevistar as pessoas e escrever sobre aquilo, fazer uma reportagem, escrever reportagem.

Aí, de repente, você vai tirar tudo da sua imaginação. Você vai criar uma realidade, você vai criar um personagem. Então, é um outro desafio. É a verdade das mentiras.

DC: Mais alguma coisa que queira acrescentar?

Miriam: Acho que é isso, que eu tô muito grata, muito feliz de estar aqui. Hoje eu botei no Instagram: hoje é o dia da alegria. Então, eu vim aqui para ser feliz. Liguei para os meus filhos, tô indo para Porto Alegre, para Canoas, para ser feliz. É isso que eu estou sendo hoje, sendo feliz.

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