Corridas ao sol e longas marchas sob a chuva; centenas de flexões e abdominais; instrução de tiro e exercícios de campanha; serviços de guarda e estudos teóricos; comandos e hierarquia.
Palavras e expressões que antes eram parte do vocabulário de homens de cabeça raspada após o ingresso nas Forças Armadas de modo obrigatório, agora estão em um contexto voluntário do militarismo para mulheres.

Foto: PAULO PIRES/GES
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Em uma iniciativa inédita, as Forças Armadas permitiram o ingresso das primeiras recrutas da história do país na última segunda-feira (2), após um longo e criterioso processo de seleção.
A Base Aérea de Canoas (Baco) garantiu à primeira turma de recrutas fazer parte do quadro de soldados. São 24 jovens entre 18 e 19 anos selecionadas entre milhares de inscritas para o processo.
Nicolly Tressi Helfenstell, 18 anos, conta que estudou durante a infância em uma escola que era rota dos caças F-5M da Baco. Cresceu sonhando em um dia fazer parte do serviço militar.
“Eu olhava para o céu e sabia que queria fazer parte do serviço militar. Ficava maravilhada olhando os caças passarem em cima da escola. É um sentimento de gratidão muito grande estar fazendo parte desta história”, disse.
Moradora do bairro Guajuviras, Nicolly quer dar o máximo durante o período de serviço obrigatório. Isso porque, já que a permitiram sonhar, ela sonha ir mais longe e planeja uma carreira militar para o futuro.
“Este é um importante primeiro passo, mas eu quero seguir carreira militar, sem dúvida”, afirma. “Espero inicialmente completar o período de serviço militar obrigatório e posteriormente fazer curso para sargento e permanecer na Força Aérea.”
Ansiedade
Moradora do bairro Estância Velha, Maria Eduarda da Silva diz ter recebido todo o apoio em casa. Prepara-se psicologicamente agora para a rotina intensa de treinamentos que terá início na próxima semana.
“Eu confesso que estou um pouquinho ansiosa e nervosa, mas estou muito feliz de estar aqui”, diz. “Minha família deu o maior apoio quando eu disse que queria me alistar e isso faz toda a diferença.”
A jovem de 18 anos recorda-se de parentes e amigos que serviram a Força Aérea, o que, para ela, sempre foi algo admirável desde a mais tenra idade.
“Sempre foi meu sonho servir, desde bem novinha”, conta Maria Eduarda da Silva. “Sempre achei muito lindo e quando surgiu a oportunidade, eu nem pensei duas vezes e me inscrevi no processo.”

Foto: Paulo Pires/GES
Impulso
A chegada das primeiras recrutas reforça a ampliação da presença feminina em todos os níveis da Aeronáutica, de Soldado a Oficial-General. Atualmente, a Força Aérea conta com 15.301 mulheres, o equivalente a 23% do efetivo total.
Para isso, houve a necessidade de adaptações nos alojamentos e a inclusão de instrutoras para acompanhar todo o processo de preparação das recrutas nesta fase inicial de treinamento.
“Elas passaram por um processo de seleção bastante rigoroso e, a partir de agora, elas têm quatro meses de treinamento intensivo da parte militar e parte disciplinar, inclusive com aulas sobre valores e a ética militar”, explicou o brigadeiro do Ar Eduardo Miguel Soares, comandante do V Comando Aéreo Regional (V Comar).
Por se tratar de um momento considerado um marco para as Forças Armadas, a expectativa é de que, após este primeiro processo, haverá novos ingressos de mulheres na luta pela defesa do país.
“Para a Força Aérea Brasileira, é uma satisfação muito grande. É um momento de transformação institucional e estamos muito felizes em receber as recrutas”, salienta o brigadeiro. “A sociedade tem demandado não apenas das Forças Armadas, mas de todas as instituições, esta inclusão.”
Obrigatório
É sabido que as recrutas que tomaram parte no serviço militar o fizeram de modo voluntário. Isso significa que se inscreveram para o processo sem a obrigatoriedade exigida para os garotos ao completarem 18 anos no Brasil.
O projeto que implementou o Serviço Militar Inicial Feminino (SMIF) prevê o alistamento voluntário para jovens mulheres de 18 anos, mas, uma vez aceitas e incorporadas, o serviço torna-se obrigatório.
Essa iniciativa permite que mulheres ingressem nas três Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) como recrutas, cumprindo as mesmas obrigações, treinamento e rotina dos homens, com duração inicial de um ano.
Assim como ocorre com os homens, as mulheres incorporadas recebem soldo, benefícios, alimentação e alojamento, atuando em áreas de operações militares, logística, saúde e tecnologia.