O que uma cidade afetada pela maior tragédia climática registrada no Rio Grande do Sul precisa para se tornar resiliente? Essa foi a pergunta que motivou três alunas da Escola Municipal de Educação Básica (EMEB) Arnaldo Grin, no bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, a transformar a dor em aprendizado e ação.
Maria Isadora Wickiewicz Prestes, Isabella Moraes dos Santos Lindenr e Maria Eduarda Correa da Silva usaram um projeto desenvolvido na escola para buscar soluções para episódios de eventos climáticos extremos
Foto: Joceline Silveira/GES-Especial
Isabella Moraes dos Santos Lindenr (13), Maria Eduarda Correa da Silva (13) e Maria Isadora Wickiewicz Prestes (14) desenvolveram um projeto de iniciação científica que está em análise na 12ª Feira Municipal de Iniciação Científica e Tecnológica (Femictec), realizada nos pavilhões da Fenac.
O bairro onde vivem foi diretamente afetado pelas enchentes de maio de 2024, deixando casas submersas, histórias perdidas e famílias emocionalmente abaladas. A escola, uma das maiores da cidade, com cerca de 800 estudantes e área de 4.800m², ficou mais de 30 dias debaixo d’água. “As pessoas perderam praticamente todas as histórias da vida deles: fotos antigas, memórias da família, tudo foi embora com a enchente”, relata Isabella Moraes dos Santos Lindenr.
Apesar da dor, elas decidiram investigar o que causou tamanha destruição e como a comunidade poderia reagir de forma mais consciente. Com apoio da escola e em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o projeto propõe compreender as mudanças climáticas e promover a educação ambiental como ferramenta de enfrentamento à crise climática. Ciência feita por quem viveu a tragédia.
O trabalho foi difícil desde o início. Segundo as alunas, falar sobre a tragédia ainda é doloroso para muitas famílias, inclusive as famílias das estudantes. “A minha avó começa a chorar quando o assunto vem à tona. A gente pensou bastante antes de decidir se conseguiria mesmo lidar com isso, mas entendemos que era importante mostrar o que aconteceu e como as pessoas foram impactadas. Não podemos deixar que isso seja esquecido”, relata Maria Eduarda Correa da Silva.
Atingidas diretamente pela enchente de 2024 as estudantes encaram o desafio em busca de respostas e soluções que possam evitar que a tragédia se repita. “A gente queria entender por que aconteceu tudo isso. Antes, ninguém explicava pra gente o que causava essas enchentes. Agora, conseguimos estudar e até explicar para nossas famílias”, comenta Maria Eduarda. A casa da estudante, assim como das colegas de pesquisa e da professora orientadora, ficaram submersas por mais de uma mês. “A gente viveu tudo aquilo e ainda tá muito presente pra todo mundo do nosso bairro”, completa.
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As estudantes ressaltam que muitas pessoas ainda não compreendem a gravidade das mudanças climáticas. Por isso, acreditam que a educação é o caminho mais eficaz para a prevenção de novas tragédias. “É importante que as informações sejam claras, com linguagem acessível, para que todos possam entender e se preparar melhor”, afirma Maria Isadora.
Na avaliação da professora de Ciência Sheila Parnoff, responsável pela orientação da pesquisa, o processo, científico e de ressignificação da catástrofe climática foi doloroso, mas necessário. “No passado, a gente só reagiu. Agora, estamos compreendendo e tentando nos preparar. Mesmo que de forma limitada, enquanto escola, queremos contribuir no enfrentamento à crise climática, ensinando os estudantes a monitorar o clima, cuidar do meio ambiente e agir com mais sustentabilidade”, afirma a educadora.
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Moradora de São Leopoldo ela teve a casa condenada após a água atingir o telhado da residência. “Ela ( a casa) foi condenada pela Defesa Civil, então foi tudo ao mesmo tempo, não só comigo, mas toda a nossa comunidade escolar. A gente queria retomar as aulas e reestruturar a escola ao mesmo tempo que tínhamos que recomeçar as nossas vidas”.
Trabalho pode ser conferido na 12ª Feira Municipal de Iniciação Científica e Tecnológica (FEMICTEC) que segue até este sábado (6)
Foto: Joceline Silveira/GES-Especial
Entre os objetivos do projeto estava investigar as mudanças climáticas e sua relação com eventos extremos como enchentes, compreender a percepção da comunidade local sobre o tema e promover ações educativas acessíveis e esclarecedoras. Além disto, as estudantes monitoraram dados climáticos (chuvas, temperaturas, umidade, radiação solar) por meio da estação meteorológica instalada na escola, em parceria com o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais ).
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Reflorestar para resistir
A próxima etapa do projeto é a implantação de uma mini floresta urbana na área da escola, em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A meta é plantar 500 mudas de árvores nativas até 2026, começando com 80 a 100 já em setembro, em comemoração ao Dia da Árvore, celebrado no dia 21 deste mês.
Além disso, os dados gerados pela estação meteorológica do Cemaden serão usados para educação ambiental e monitoramento constante das condições climáticas, como temperatura, chuvas, ventos e umidade do ar, permitindo que a escola atue como um ponto de alerta e conscientização para toda a comunidade.