Eles ganharam a atenção da sociedade brasileira no primeiro semestre de 2025 e viraram alvo de discussões nas redes sociais. Mas muito antes de estarem no centro de polêmicas, reais ou artificiais, os bebês reborn já estavam presentes no Brasil e no mundo.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
Segundo reportagem recente do jornal O Globo, os bonecos hiper realistas, que passam por um processo artesanal para ficarem com uma aparência mais fiel ao de um bebê humano, começaram a se popularizar na década de 1990 nos Estados Unidos. Com o passar do tempo, a utilização destas bonecas começou a ganhar novas funções para além de brinquedos.
Os reborn começaram a ser usados em tratamentos terapêuticos, especialmente entre pessoas idosas, mas também voltado a quem sofreu traumas com a morte de filhos.
Em artigo científico publicado na revista do 10° Congresso Internacional de Envelhecimento Humano, a psicóloga Evelly Rayanne Oliveira Souza, junto com a enfermeira Maria Izabel dos Santos Nogueira e a assistente social Ana Karina da Cruz Machado, cita como o uso dos bebês reborn impactam no tratamento de pacientes com Alzheimer.
Uma brincadeira detalhista
Há dois anos, Maura Patrícia da Rosa, 49 anos, moradora do bairro Canudos, em Novo Hamburgo, colocou os bebês reborn em sua rotina.
Mas ao contrário das pessoas que consomem esses brinquedos, ela começou a se dedicar a confeccionar os bonecos realistas.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
“Minha irmã que mora em São Paulo começou com esse mundo, e ela me convenceu a trabalhar aqui no Rio Grande Sul, que na época não tinha muita gente trabalhando com isso. Ela que me ensinou as técnicas”, relembra.
Já dominando as técnicas de pintura e transformação dos bonecos, Maura transformou uma das peças da sua casa em seu atelier de criação.
Rodeada de bonecas e outras peças infantis, ela se dedica diariamente a criar os bebês reborn o mais realistas possível. “É muito delicado, difícil. Para fazer um bebê desses leva uns 3, 4 dias. Porque é tudo por camada, tem que esperar secar, tem que aplicar outra camada. O cabelo também é colocado fio a fio, é implantado fio a fio, e ainda tem os que são em 3D.”
Contrariando o senso comum criado nas últimas semanas, Maura deixa claro que as crianças são o público principal dos bebês reborn. “Eu deixo mais parecido, mais próximo a um bebê de verdade para agradar o gosto das crianças, que é para quem mais vendo”, conta.
Dado o preço elevado, na casa de R$ 500, o brinquedo é tratado como um presente especial, e em razão disso, há um cuidado diferenciado antes de entregar. As crianças, por exemplo, recebem junto com as bonecas uma certidão de nascimento que acompanha as instruções de cuidados especiais, já que devido aos materiais, as mesmas não podem ser tratadas como brinquedos mais comuns.
Clientes adultas
Só que mesmo tendo crianças como público principal, Maura também tem algumas clientes adultas, e o perfil neste caso varia bastante. “Vendo bastante para pessoas de idade que querem uma boneca para decorar a cama, também para pessoas que não são mães, mas querem adiar um pouco a maternidade e podem estudar um pouco”, resume os diferentes perfis de pessoas que passaram da infância mas ainda buscam as bonecas.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
Há também alguns casos específicos, onde a boneca funciona como uma lembrança para cicatrizar um trauma. “Esses dias, eu fiz [um bebê reborn] para uma cliente muito querida que fazia 30 anos que tinha perdido a filha dela. Mas o boneco não era uma filha, era uma recordação que ela queria”, conta.
Outro caso específico foi de uma socorrista em um shopping de Canoas, para quem Maura cedeu um bebê reborn para uso em treinamentos de socorros.
O processo
Para a entrega de um boneco finalizado, Maura leva entre 15 a 30 dias, dependendo do material e da complexidade do trabalho. Os chamados “kits” são comprados sem qualquer pintura e podem custar de R$ 300 até R$ 2,5 mil. As bonecas prontas podem custar de R$ 500 a R$ 3 mil.

Foto: Eduardo Amaral/GES-Especial
“Uso técnicas de pinturas para fazer ‘veinhas’, tem a marquinha de frio, boquinha, tudo passo a passo, tudo por camadas. É um trabalho bem artesanal mesmo, e tem a outra opção também, que são os kits prontos e importados que a gente compra, monta, coloca o cabelo, faz alguns detalhes como o cliente quiser”, explica Maura.
Os materiais variam, mas o mais comum no atelier de Maura são bonecos de vinil siliconado. A moradora do bairro Canudos e a irmã encontraram no trabalho artesanal uma forma de ter renda, mas também de encontrar prazer no trabalho. “Minha irmã tem um filho autista, então ela tentou se ocupar um pouco nesse trabalho. E eu hoje venho para fazer a pintura, coloco uma musiquinha, fico ali no meu mundo. Para mim, é terapêutico”, conta Maura.
Mesmo minimizando as polêmicas criadas em torno dos bebês reborn, ela reconhece que o barulho das redes acabou atiçando o público. “Mais pessoas curiosas entraram em contato para saber do meu trabalho. Mas de forma concreta, não impactou meu dia a dia”, conta.