A doação de órgãos segue sendo tabu no Brasil, no entanto, fez avanços significativos em 2024. Dados do Ministério da Saúde mostram que o país ultrapassou, pela primeira vez, a marca dos 30 mil procedimentos realizados em um único ano.
Parte do sucesso é motivado pelo papel do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela oferta de medicamentos imunossupressores e da Prova Cruzada Real, exame que identifica a possibilidade de rejeição no transplante.

Foto: Juliano Piasentin/ GES-Especial
Outra ferramenta entra em vigor no mês de setembro, trata-se da Prova Virtual, que visa acelerar o processo de compatibilidade, reduzindo rejeições e diminuindo o tempo de espera entre a doação e cirurgia. O Brasil é referência por oferecer todas as etapas do processo de forma integral e gratuita.
Apesar do sucesso ao nível nacional, a doação de órgãos registra números baixos em Novo Hamburgo. Conforme a Fundação de Saúde (FSNH), familiares de 16 pacientes foram entrevistados em 2024 no Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH).
Destes, apenas oito doaram os órgãos. Foram sete rins direitos, sete rins esquerdos, dois figados, pulmão direito e esquerdo e dois corações.
Ainda assim, esse foi considerado o melhor ano em números de doações, com aprovação de 64% das famílias de potenciais doadores. Em 2025 a porcentagem é de 40% até o mês de junho, com a doação de rins, figado e córneas de três pacientes.
Desde 2012 foram 60 captações de órgãos no HMNH. Conforme o professor do curso de medicina da Universidade Feevale, Leandro Orlandini, uma dos obstáculos é a falta de um cadastro oficial de doação de órgãos em vida no país. Ou seja, o indivíduo que desejar ser doador precisa avisar, com clareza, sua família. “A decisão final pela doação, após a morte encefálica do possível doador, será da família.”
Orlandini explica que mesmo que o doador tenha se prontificado à doação ainda em vida, a decisão para casos após a morte encefálica segue sendo da família.
“O protocolo de doação de órgãos e tecidos é rigidamente regulado pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde (ANVISA), e segue regras e leis federais. O diagnóstico de morte encefálica também deve seguir as diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM).”

Foto: Ministério da Saúde/ Divulgação
Tempo
Embora delicado, o protocolo precisa ser ágil por conta do tempo necessário entre a captação e o implante do órgão. Conforme o professor de medicina, pulmões, coração, pâncreas e figado precisam de maior rapidez.
“Estudos bem atuais tem demonstrado que algumas soluções de preservação de órgãos auxiliam muito nesta preparação do órgão a ser transplantado.”
Para Orlandini, a maior dificuldade na espera pelo transplante é a insegurança e ansiedade de aguardar por algo que pode mudar a qualidade de vida do paciente.
“Difícil imaginarmos a angústia da espera de alguém que necessita de hemodiálise para que seus rins funcionem, de várias medicações para manter seu coração com força para manter seus órgãos bem perfundidos ou que não consegue completar uma frase por falta de ar.”
Neste momento, o apoio de equipes multidisciplinares é essencial para os pacientes, como saliente o professor. “Psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais e uma infinidade de outros profissionais são imprescindíveis para o bom funcionamento destes centros especializados.”
Captação no Brasil
No que diz respeito ao transplante de órgãos no Brasil, Orlandini reforça que o sistema é considerado um dos melhores do mundo. “Em torno de 90% dos transplantes são realizados pelo SUS.”
Entretanto, salienta que ainda há muita desinformação por parte da população, especialmente no conceito de morte encefálica. “É um estado irreversível de perda da função cerebral, momento no qual ocorre a possibilidade de doação de órgãos e tecidos.”
O professor ainda fez elogios a estrutura no Rio Grande do Sul. “Temos excelentes centros de transplante no país, inclusive no nosso estado. A Santa Casa de Porto Alegre, por exemplo, foi pioneira no transplante pulmonar no Brasil, no final da década da 1980. Porém, estes centros de excelência estão centrados, principalmente, nas regiões sul e sudeste.”

Foto: SES-RS/ Divulgação
Demanda alta no País
De acordo com o Ministério da Saúde, atualmente 78 mil pessoas aguardam na fila por um transplante. Os órgãos mais demandados em 2024 foram: rim (42,8 mil), córnea (32,3 mil) e fígado (2,3 mil). Entre os transplantes realizados, destacam-se: córnea (17,1 mil), rim (6,3 mil), medula óssea (3,7 mil) e fígado (2,4 mil).
Orlandini destaca que a dificuldade na doação está relacionada à condição do doador, infraestrutura do centro de transplante, tempo necessário para captação e o tempo que o órgão poderá ficar sem receber sangue.
“Pulmões, coração, fígado e pâncreas apresentam estas condições. Obviamente que, com equipe treinada, sistema público funcionante, informações rápidas e precisas e condições adequadas de trabalho, estas dificuldades são reduzidas e promovem um procedimento com melhores resultados”, completa.
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