Um material que normalmente iria para o lixo acabou se tornando a base de uma pesquisa com potencial de aplicação em áreas como saúde, meio ambiente e ciência forense. É com esse projeto que o estudante Matheus Loha de Oliveira Ramires, 19 anos, da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, embarca nesta quinta-feira (23) para a Dinamarca, onde representará o Brasil em uma feira internacional de jovens cientistas.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Aluno do curso técnico em Química, Matheus desenvolveu um método para produzir nanopartículas de carbono fluorescentes a partir de um resíduo da kombucha — bebida fermentada que tem se popularizado nos últimos anos. O ponto de partida da pesquisa veio de dentro de casa. “Minha avó e minha tia produzem kombucha, e o resíduo sempre era descartado. Então pensei em transformar algo sem valor em um material com aplicação científica”, conta.
Esse resíduo, conhecido como SCOBY — uma celulose bacteriana gerada durante a fermentação — foi utilizado como matéria-prima para a produção das nanopartículas. O diferencial do trabalho está justamente na forma como isso é feito.
Método mais rápido e acessível
As chamadas nanopartículas de carbono fluorescentes já são estudadas na ciência, principalmente por seu potencial em diagnósticos e tratamentos, como no caso do câncer. No entanto, os métodos tradicionais de produção costumam ser caros, complexos e demorados.
A proposta desenvolvida por Matheus apresenta uma alternativa mais viável. “O desafio foi encontrar um método mais simples, porque os descritos na literatura são complexos e caros. Consegui desenvolver um processo que leva cerca de 30 minutos, usando reagentes mais acessíveis”, explica.
A redução no tempo e no custo pode ampliar as possibilidades de aplicação dessas partículas, tornando a tecnologia mais acessível para pesquisas e usos futuros.
Motivação pessoal com foco na microbiologia
Embora as nanopartículas tenham diversas aplicações possíveis, o estudante decidiu direcionar o projeto para a área microbiológica, investigando o potencial antimicrobiano do material. “Quis focar no desenvolvimento de soluções contra bactérias, pensando em novos antibióticos”, afirma.
Os testes foram realizados com duas bactérias relevantes: Staphylococcus aureus, associada a infecções cardíacas, e Escherichia coli, comum em casos de contaminação intestinal.
Mas a escolha também tem um significado pessoal. “Tenho uma condição chamada válvula aórtica bicúspide, que aumenta o risco de infecções cardíacas. Isso influenciou na escolha da bactéria estudada”, relata.
Os resultados obtidos foram considerados expressivos, indicando potencial para aplicações futuras na área da saúde.
Da sala de aula para o mundo
O interesse pela química surgiu em 2022, quando Matheus ingressou na Liberato. Desde então, passou a participar de feiras científicas e aprofundar o interesse pela nanotecnologia.
O projeto foi desenvolvido ao longo de 2025, em uma rotina intensa de laboratório. “Foram longas jornadas de trabalho, testando alternativas até chegar a um método viável. Mas os resultados compensaram”, resume.
A pesquisa já percorreu diferentes eventos científicos. Em Canoas, na IFCITEC, rendeu credenciamento para uma feira no Ceará. Em Santa Catarina, garantiu medalha de prata. Já na Mostratec, em Novo Hamburgo, conquistou o segundo lugar na categoria de Engenharia de Materiais, além do Prêmio Killing de Tecnologia, que viabilizou a participação no evento internacional.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Agora, o próximo passo é apresentar o projeto na feira em Odense, na Dinamarca, entre os dias 24 e 28 de abril. “Estou bastante ansioso, principalmente pela questão do idioma, mas a apresentação será em inglês, então tenho me preparado bastante”, afirma.
Mais do que a competição, o estudante destaca a oportunidade de troca de conhecimento. “É uma oportunidade importante de representar o Brasil, a Liberato e Novo Hamburgo no exterior”, finaliza.