“Somos mais que nossos corpos”. Esta era a frase de um dos cartazes espalhados pelo Instituto Estadual Seno Frederico Ludwig, do bairro Canudos, de Novo Hamburgo na quinta-feira (2). A data foi escolhida para o seminário Seno contra o Feminicídio, que contou com palestras, atrações culturais e apresentações de trabalhos escolares acerca do tema.
O evento teve como abertura as palestras das professoras Miriam Cerveira, pós-doutorada em Gênero e Religião, e Mariléia Sell, representando a 2ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE).
O diretor José Silon Ferreira comenta que o projeto vem sido planejado desde o início do ano, quando ocorreu uma formação entre os professores para que o assunto fosse abordado adequadamente em sala de aula.
“Desde março, os professores escreveram projetos e trabalharam em cada uma das turmas sobre o feminicídio e as relações tóxicas. Dali então surgiram muitos vídeos, cartazes e também uma exposição”, conta.
“Uma delas é a Zapatos Rojos, que cita o nome de todas as mulheres assassinadas, e isso fez com que os próprios alunos se inserissem de uma forma que não esperávamos, porque eles acabam vendo a violência de alguma forma em casa, nas famílias…”, continua.
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Mariléia Sell destaca a importância e o papel da ação na formação de uma sociedade mais segura para as mulheres. “A escola, que já programava tudo em janeiro, se antecipou a uma lei que, desde março, prevê que toda a educação básica de temas como gênero e violência contra a mulher de forma interdisciplinar”, diz.
A palestrante se referiu à regulamentação da Lei Maria da Penha Vai à Escola (nº 14.164/2021), que, segundo material da Agência Brasil, teve sua portaria assinada no dia 25 de março deste ano para incluir conteúdo sobre a prevenção a todas as formas de violência contra crianças, adolescentes e mulheres nos currículos da educação básica.
“A cada 5 segundos, uma mulher ‘cai da escada’”
Com uma fita preta cobrindo os lábios e sem dizer nenhuma palavra, a aluna Kauany Corrêa Barbosa, de 16 anos, clamou por mais segurança para as mulheres ao apresentar o trabalho feito junto com os colegas Yasmin Oliveira Celinga e Igor Gabriel Wagner Iberta, da mesma idade.
“A cada 5 segundos, uma mulher cai da escada. E a cada 1h30, uma mulher não sobrevive para contar a próxima desculpa” eram os dizeres no cartaz segurado por Kauany.
Estudantes do segundo ano do Ensino Médio, eles tiveram a missão de, em um trabalho de artes, gerar reflexão sobre os diversos casos de violência contra a mulher que ocorrem no estado.
“A gente se reuniu e foi pensando em como fazer com que as pessoas prestassem atenção de uma forma que pudessem entender e se inspirar. As pessoas precisam procurar saber mais sobre isso, porque a qualquer momento pode acontecer com elas”, defende Kauany.
“Minha melhor amiga passa por isso, ela casou cedo, com 15 anos, ele é muito tóxico, quer mandar em tudo na vida dela, é muito chato isso. E mesmo ela me contando e eu dando conselho, ela não consegue sair disso”, desabafa.
Yasmin descreve que o visual da amiga na apresentação foi uma ideia elaborada em conjunto. “A fita na boca representa as mulheres que são silenciadas pela invalidação e as ameaças que elas sofrem, que se falarem acabam morrendo. E as pinturas no rosto representam as agressões que elas sofrem diariamente.”

Foto: Grupo Sinos
Outra exposição chama atenção para o número crescente de vítimas de feminicídio no Estado. O trabalho “Zapatos Rojos” (em espanhol, Sapatos Vermelhos), simboliza, em cada um dos calçados, os nomes das mulheres assassinadas no Estado.
A exibição, segundo a vice-diretora Maria Rosane, é fruto de um trabalho interdisciplinar das aulas de português (da qual ela também é professora), matemática e artes. “Eu fiz a análise da Lei Maria da Penha com eles, em matemática o professor ensinou as estatísticas e os cálculos para saber os números atuais, e o de artes fez a parte da pintura dos sapatos. Fizemos o projeto com duas turmas nas três disciplinas”, afirma.
“Foi um dos projetos em que vi mais empenho, tanto das meninas quanto dos meninos, porque parece que despertou neles algo que estava à vista, mas eles não conseguiam enxergar porque estava distante: a questão do feminicídio. Eles viam na televisão e internet, agora viram na escola”, continua.
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Dentre os alunos por trás da exibição estão Maria Eduarda Moreira Huff, Sther Eduarda Reinhardt Schneider e Bhrenda Camili Kpop Pereira, todas de 14 anos e do 9º ano do ensino fundamental.
“A gente teve a ideia por causa de um texto que a professora passou sobre os Sapatos Rojos, da Elina Chauvet, que perdeu a irmã e resolveu fazer esse projeto para mostrar a violência contra as mulheres e o feminicídio”, diz Maria, referindo-se à exposição itinerante da artista mexicana, que já percorreu países da América e da Europa.
Para Sther, o simbolismo da exposição traz uma força maior à conscientização. “Acredito que os sapatos vermelhos representam o sangue derramado, mas também a união, a força da mulher, e acima de tudo, a paixão. E quanto mais a gente falar, mais a gente vai conseguir lutar contra a violência.”