Em plena semana em que se celebrou o Dia da Mulher e se relembra os 21 feminicídios no Estado, a publicação de uma revenda de veículos de Novo Hamburgo movimentou as redes sociais nesta quinta-feira (12). Seguidores da Bolezina Veículos no Instagram foram surpreendidos por um reel que gerou revolta e tomou maiores proporções após críticas do apresentador da RedeTV! Guilherme Pallesi, o Guipa. [Veja vídeo ao final da matéria]
ATUALIZAÇÃO: Após repercussão de vídeo com tapa no rosto de mulher, proprietário de revenda de Novo Hamburgo se pronuncia
“Já viram alguma empresa incitando violência contra a mulher?”, questiona o jornalista, que reproduz, na sequência, o vídeo publicado no feed público do estabelecimento comercial nesta manhã.
CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Foto: Reprodução/Redes sociais
ENTRE NA COMUNIDADE DO ABCMAIS NO WHATSAPP
Na imagem, uma funcionária serve pouco café em uma xícara, destinada a um cliente. O chefe, em frente a ela, pede que sirva um pouco mais, momento em que deixa a bebida transbordar. Ele questiona: “Posso tocar em você?”
A funcionária assente e é vista levando um suposto tapa no rosto na sequência. O vídeo, intitulado como “POV: A comunicação da equipe está em dia”, foi publicado no feed público do estabelecimento, mas excluído com a repercussão do caso. Com a revolta de usuários que assistiram à imagem a partir de Pallesi, a empresa também restringiu os comentários.
A advogada hamburguense Caterine Rosa informou à reportagem de ABCmais que o caso já foi repassado à OAB e às autoridades, como o Ministério Público e a Patrulha Maria da Penha do Município. “Estamos em choque.”
No comentários do post do apresentador, que somava mais de 270 mil visualizações até a tarde desta quinta, moradoras da cidade se revoltaram com a publicação da revenda. “Como cidadã Hamburguense, me sinto enojada”, escreveu uma usuária. “São tempos sombrios para nós, mulheres…”, expôs outra.
O proprietário Carlão Bolezina, que representa a Bolezina Veículos, foi contatado via WhatsApp para se manifestar sobre a publicação, mas não prestou esclarecimento algum sobre o vídeo, apenas escreveu que: “Manifestar oque? Com vocês? Mídia hipocrita e lacradora?…. Aonde vocês tavam quando a minha empresa ficou parada na enchente virando CD pra população e gastei mais de 500k do meu bolso pra ajudar? Fazem oque quiser, mas já adianto que não autorizo uso da minha imagem e perguntaria pro superior aí do NH antes de publicar algo da minha pessoa e me difamar!!! No mais passar bem.”
Nenhuma nota sobre o assunto havia sido publicada nas redes sociais da empresa ou do proprietário até a publicação da reportagem.
Investigação
A publicação virou caso de Polícia. O delegado Alexandre Quintão, à frente da Delegacia de Polícia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Novo Hamburgo, informou que foi registrada uma ocorrência sobre o caso e que os envolvidos serão ouvidos na segunda-feira (16) por incitação ao crime contra a mulher.
As autoridades também vão apurar a conduta da empresa com a funcionária que aparece no vídeo.
Em nota, a Brigada Militar informou que “toda a rede de proteção à mulher de Novo Hamburgo já foi cientificada sobre a situação, incluindo a promotoria, para análise e adoção das medidas cabíveis”.
MPT pede esclarecimentos
A reportagem contatou as autoridades citadas pela advogada e o Ministério Público do Trabalho (MPT), que informou a unidade de Novo Hamburgo “já instaurou um procedimento de averiguação, uma NF (Notícia de Fato)”. “A empresa vai ser chamada para apresentar esclarecimentos e, a partir daí, o MPT vai avaliar as medidas cabíveis na sequência.”
“Violência contra a mulher não é entretenimento”
A Diretoria da Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de Novo Hamburgo/RS, conjuntamente com a Comissão da Mulher Advogada, se manifestou por meio de uma nota de repúdio em relação ao vídeo publicado, citando a chamada trend “caso ela diga não”, que foi excluída das redes sociais por veicular “conteúdo que naturaliza e incentiva a violência contra a mulher, além de reproduzir práticas de assédio moral no ambiente de trabalho dirigidas às mulheres”.
“É absolutamente inadmissível que, em pleno ano de 2026, ainda se utilize do alcance das redes sociais para banalizar, relativizar ou estimular comportamentos violentos e discriminatórios contra mulheres”, diz parte da nota.
“A violência contra a mulher não é entretenimento. Não é conteúdo humorístico. Não é tendência de internet. Trata-se de uma grave violação de direitos humanos, repudiada pela Constituição Federal, pela Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) e por tratados internacionais de proteção às mulheres ratificados pelo Brasil, exigindo responsabilidade, consciência social e compromisso coletivo no seu enfrentamento.”
A OAB Subseção de Novo Hamburgo informa ainda que “já está em articulação com a rede de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher, empreendendo esforços para a apuração detalhada dos fatos e de eventuais responsabilidades nas esferas cabíveis, a fim de que sejam adotadas, pelas autoridades competentes, as providências pertinentes.”
“Não é brincadeira”
A coordenadora da Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar no Vale do Sinos, a major Bibiana se manifestou por meio de vídeo nesta sexta (13). Sem mencionar diretamente o conteúdo feito pela revenda, reiterou que “violência contra mulher não é entretenimento, não é brincadeira e não é conteúdo”.
“Entenda que além de imprudente, quem produz e compartilha esse tipo de conteúdo pode ser sim responsabilizado cível e criminalmente. Quando a violência vira piada ou trend, ela acaba alimentando comportamentos machistas e misóginos. Comportamentos estes que precisamos combater se queremos diminuir os índices de violência contra a mulher”, salientou.
Veja vídeo:
A imagem foi borrada para preservar a mulher que aparece no vídeo.
SILÊNCIO APRISIONA. INFORMAÇÃO LIBERTA. DENUNCIE! LIGUE 180.
- Polícia Civil – 197
- Disque-Denúncia – 181
- Brigada Militar – 190

Foto: Grupo Sinos
LEIA TAMBÉM