Com diversos cartazes e camisetas com a foto de Ketlyn Vargas, de 25 anos, centenas de pessoas participaram da caminhada Justiça pela Ketlyn e Pela Vida de Todas as Mulheres, na manhã deste sábado (22), em São Leopoldo.
A mobilização buscou lembrar o caso da jovem, morta 43 dias depois de ser atacada a facadas pelo ex-companheiro, conscientizar sobre a violência contra a mulher e dar mais visibilidade à temática. O ato, marcado pela emoção, iniciou na frente da Câmara de Vereadores, com um minuto de silêncio por Ketlyn e a fala de alguns participantes, e seguiu pela Rua Independência até a esquina com a Rua Conceição.

Foto: Priscila Carvalho/GES-Especial
“Lutou até onde deu”
A melhor amiga de Ketlyn, a vendedora Rafaela Silva de Almeida, 23 anos, foi uma das organizadoras da caminhada. Ela conta que, na noite do ataque, esperava por Ketlyn, que aguardava o ex-companheiro buscar alguns móveis em sua casa. “Ela ia jantar na minha casa depois, eu estava fazendo uma torta de bolacha pra ela”.
Rafaela chegou a falar com Ketlyn por vídeo quando ela foi socorrida ao Hospital Centenário e visitou a amiga por diversas vezes. “Por uns 10 dias, ela ficou acordada, falando. Mas aí, quando começou a agravar o caso, tiveram que sedar ela. Ela realmente tentou. Lutou até onde deu. Ela não queria morrer, em nenhum momento ela entregou as pontas. Foi realmente porque não deu mais”.
Segundo a amiga, a intenção da caminhada é não deixar que Ketlyn “seja mais uma” e chamar a atenção da Justiça. “Eu, como amiga, preciso lutar pelo nome dela, pela vida dela, mostrar que ela não é mais uma, porque tantas outras se foram e ninguém fez nada. Mas também para pressionar o sistema, as leis, a audiência dele, pra que ele pague”, justificou.
“A pressão é para que isso chegue no Ministério Público, que eles vejam a nossa dor. Para que na hora que eles deem uma sentença, eles saibam para quem eles estão dando e a família que vai ficar”, disse, ressaltando que tem medo de que o agressor vá também atrás dela, caso seja solto.
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Um mês depois, amiga também foi agredida
A ação deste sábado também reforçou o apelo por medidas mais efetivas no combate à violência contra a mulher e trouxe à tona o caso de Rafaela: a amiga de Ketlyn foi agredida pelo ex-companheiro na sexta-feira (21), um mês depois da morte da jovem e um dia antes da caminhada.
Rafaela buscou atendimento e registrou Boletim de Ocorrência. No fim da caminhada, recebeu a notícia de que a medida protetiva que solicitou foi expedida.
“Não entendo até hoje”, diz mãe de Ketlyn
A mãe de Ketlyn, Jaqueline da Silva Vargas, 42 anos, destacou que a mobilização também é um alerta para as mulheres. “A gente está fazendo essa caminhada por não aceitar mais esse tipo de violência. É um alerta de que as mulheres não precisam passar pelo que a minha filha passou, alerta para elas denunciarem, não terem medo, para elas contarem pra alguém, se abrirem com alguém, porque a minha filha não se abria, não queria trazer problema para os pais, e acabou na morte dela. Não queremos mais que isso aconteça”
Ressaltando que a filha era carinhosa, Jaqueline disse que Ketlyn estava bem e que parecia “outra pessoa” após o término da relação, cerca de um mês antes do ataque. “E ele terminou com isso. Eu não entendo até hoje o por quê. Ele estava tendo um bom relacionamento com ela, pegava o filho”, comenta.
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Vítima queria ajudar outras mulheres
Irmão de Ketlyn, Wagner Vargas, 27 anos, salientou que a ação é por ela, mas também pela condenação do agressor. “No hospital, ela comentou que quando ela saísse queria estar na luta também por outras mulheres, ajudar outras mulheres. A gente está aqui por ela, pela história dela, pela história que ela queria passar pra frente e que não pôde, não teve chance”, iniciou. “Como ele tirou a vida da minha irmã, que ele pague realmente, que a Justiça seja feita, seja cumprida.”
Projeto de Lei Ketlyn Vargas tramita na Câmara
Um dos pedidos feitos durante a mobilização foi a aprovação da Lei Ketlyn Vargas, projeto que visa a destinação de aluguel social a mulheres vítimas de violência doméstica e que está em tramitação na Câmara de Vereadores de São Leopoldo.
Autora do projeto, a vereadora Karina Camillo (PT) disse que ele foi protocolado ainda em agosto, e, pelo alto índice de feminicídios vistos no Rio Grande do Sul, foi observado que seria importante acelerar o trâmite. “Outras cidades já aprovaram, e a lei Maria da Penha é muito clara, dizendo que os municípios e os estados precisam se adequar e criar legislações”, disse.
“Tem muitas mulheres que ainda vivem a violência por não terem um teto, então esse é o sentido dessa proposta de lei”, acrescentou, revelando que já foi vítima de violência doméstica, há 25 anos. “Assim como eu consegui sair disso, porque tive a oportunidade de ter um teto, eu sei que tem muitas outras mulheres que hoje não conseguem sair, porque não tem esse teto, e a política pública precisa garantir isso”.
Segundo a vereadora, amigos e familiares de Ketlyn chegaram até ela para ajudar na mobilização e, num entendimento conjunto, o projeto ganhou o nome de Ketlyn Vargas. “Para que ela seja um símbolo em São Leopoldo”.
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Caminho é a conscientização
Presidente da Câmara de Vereadores, a vereadora Iara Cardoso (PDT) disse acreditar que o Projeto de Lei Ketlyn Vargas pode ser apreciado pelo Legislativo ainda este ano. Também presente no ato, ela ponderou que foi prestar solidariedade à família de Ketlyn e, principalmente, às mulheres. “Estamos na metade do século 21, com tanta tecnologia e inovação, mas no aspecto humano ficamos patinando nessas questões de violência”.
Para ela, o caminho para evoluir no tema passa, em primeiro lugar, pela conscientização. “Temos que evoluir enquanto civilização. Depende muito da sociedade pegar junto e acho que é isso que esse movimento aqui instiga.”
Relembre o caso
Ketlyn Jennifer Vargas da Silva foi atacada a facadas pelo ex-companheiro, de 42 anos, dentro da casa onde morava, no bairro Santos Dumont, e na frente do filho do casal, de 5 anos, que é autista nível 3 de suporte. O ataque ocorreu na noite de 8 de setembro e teria acontecido pois o agressor não aceitava o fim do relacionamento.
A jovem foi levada ao Hospital Centenário, vindo a falecer 43 dias depois. O ex-marido de Ketlyn fugiu e foi preso horas depois, após ser linchado por populares. A primeira audiência do caso foi marcada para o dia 19 de janeiro.
VÍDEO – CAMINHADA POR JUSTIÇA MOBILIZA COMUNIDADE DE SÃO LEOPOLDO