Foi para poder ajudar a comunidade indígena que Damares de Oliveira Tomás, de 33 anos, tornou-se a primeira nutricionista formada da aldeia caingangue Por Fi Ga, em 2024. Ela, que morava na terra indígena Serrinha, de Constantina, começou a graduação em 2015 e passou quase 10 anos morando em Porto Alegre enquanto estudava na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufgrs).

Foto: Amanda Krohn/Especial
“Sou também a primeira indígena a se formar em Nutrição na Ufrgs. Quando entrei, tinha 10 cotas para indígenas, de cursos diferentes, e apenas uma era para Nutrição”, conta. “Uma das coisas que me fez escolher esse curso foi a falta de profissionais para trabalhar dentro das comunidades. Temos de outras áreas, médicos, enfermeiros, educação, mas nutricionista tem muito poucos”, continua.
Além do sonho de ampliar o acesso da comunidade aos atendimentos, Damares afirma que sempre teve interesse pelo assunto. “Eu tinha curiosidade sobre alimentação, como ela age no nosso organismo.”
Sonho e desafio
Para que fosse possível acompanhar a rotina de estudos em uma universidade federal, Damares de Oliveira mudou-se para a casa de estudantes que fica próxima à Ufrgs, na capital gaúcha.
“Os horários eram bem quebrados. Algumas aulas eram às 7h da manhã, outras às 19h, então não tinha como trabalhar. Por isso tinha auxílios com alimentação, transporte, e na Casa do Estudante não tínhamos que pagar luz, Internet, etc”, relata.
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“Eu saí do interior diretamente para a capital, então foi desafiador. E devido aos meus traços indígenas, cabelo liso, os olhos puxados, sofri alguns preconceitos em sala de aula, no restaurante da universidade”, continua.
Necessidades nutricionais da comunidade Por Fi Ga
Pelo que Damares observa, uma das demandas mais comuns entre os indígenas é a obesidade. “O que vejo agora é que temos muitas crianças, mulheres, homens, com essa doença crônica, que é multifatorial e pode causar outras doenças. Temos uma falha ambiental que faz com que nossa alimentação típica diminua, por conta de agrotóxicos, e também uma questão econômica, a maioria sobrevive dos artesanatos”, explica.
“Então, ao sair ali do portão, tu vai encontrar os mercados com os alimentos ultraprocessados, a maioria conhece esses alimentos”, continua. com os alimentos ultraprocessados, a maioria conhece esses alimentos”, continua.
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Nutricionista Damares – primeira indígena nutricionista da Por Fi Ga e da URGRS
Foto:
Amanda Krohn/EspecialPublicidade -

Damares de Oliveira mostra na telinha o trabalho gerado por seu TCC sobre pratos típicos indígenas
Foto:
Amanda Krohn/Especial
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Promovendo a cultura indígena
Em suas palestras, a nutricionista Damares ensina ao público sobre a cultura alimentar das comunidades indígenas. “Meu TCC foi um livro digital que vai ser entregue nas escolas indígenas Kaingangs, com o mesmo assunto que eu abordo nas palestras”, comenta.
“A alimentação típica é a nossa riqueza. Apesar de vir se agravando os impactos ambientais, essa alimentação é resistente até os dias atuais e vem lá da geração passada”, ressalta. “Ela é bem preservada. Os principais pratos são o Cumim, o Fuá e o Bolo na Cinza. O Cumim e o Fuá são retirados diretamente da natureza, e são à base de banha e sal. Já o Bolo na Cinza é feito de farinha de trigo com sal, amassado em formato de pizza e preparado no fogo de chão, nas cinzas”, continua.
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Para ela, a promoção desse conhecimento ajuda a combater preconceitos. “Muitas pessoas não conhecem nossa cultura, acham que a gente anda nu na rua, ainda acredita em mitos espalhados na TV há muitas décadas”, defende.
Planos para a carreira
A nutricionista pretende começar a trabalhar na área por meio de concurso público para a Secretaria de Saúde de Porto Alegre para ajudar a comunidade. Enquanto não abre vaga, ela realiza palestras sobre alimentos típicos da cultura indígena para a Ufrgs. “Fui chamada pela primeira vez na metade do ano passado e, sempre que me chamam, eu vou. É algo que me ajuda bastante financeiramente”, conta. “Eu também quero voltar a estudar, fazer um mestrado, na área clínica, e mais tarde abrir um consultório para mim”, continua.