Um hobby que se tornou trabalho. Assim o artista Tiago Silva, 25 anos, define a função pela qual se encantou e que hoje é sua fonte de renda: o ferromodelismo.
Morador de Porto Alegre, Tiago tem forte relação com o Museu do Trem leopoldense, por onde começou sua paixão. “Quando eu era pequeno, o trensurb não ia até Novo Hamburgo e eu tenho uma tia que mora lá. A gente vinha até São Leopoldo, pegava um ônibus e ia pra lá. Mas, na volta, nos domingos, meu tio trazia a gente aqui e isso me despertou uma paixão, que ficou adormecida por anos”, conta.
Anos depois, já adulto, em pesquisa nas redes sociais, ele viu o anúncio de uma miniatura de locomotiva, que o fez lembrar um dos trens do museu. “Naquela época eu não sabia nada sobre trens. Fui me informar e acabei descobrindo esse hobby, que não é tão conhecido no Brasil”.
ENTRE NA COMUNIDADE DO JORNAL VS NO WHATSAPP E RECEBA MAIS NOTÍCIAS
Pesquisa
Tiago então iniciou uma pesquisa e percebeu que a maior parte do material existente era de Estados do Sudeste do País. Com isso, entendeu que precisava fazer algo voltado ao Rio Grande do Sul, focando sua pesquisa em como produzir as pequenas peças. “São muitos cálculos, muitos detalhes pequenos”.
O caminho foi a modelagem 3D. Como ela ainda estava se desenvolvendo, num primeiro momento, o artista buscou terceiros que pudessem imprimir. Em 2022, conseguiu comprar uma máquina de resina e, desde então, foi aprimorando suas técnicas.
Lembrança
A ideia de comercializar veio em seguida, mas a intenção, segundo ele, é oferecer valores acessíveis, para que quem gosta mesmo tenha a chance de adquirir. “A maioria das pessoas que vem comprar as coisas comigo gosta de história, se interessa pelo trem, mas eles amam principalmente a lembrança. Por exemplo, perguntam: ‘Tu pode fazer essa locomotiva? Meu pai era maquinista’. E aí, com isso, além de relembrar essa história das ferrovias e trens, a gente lembra aquelas de pessoas que a história esqueceu”, sublinha.
VIU ESSA? VÍDEO: Colecionador de São Leopoldo transforma paixão em acervo de 6 mil camisas de futebol
Maquete foi exposta no Museu do Trem
Com suas criações, Tiago já participou de exposições em Santa Maria, que promove um evento anual de ferromodelismo. Em fevereiro, ele também doou uma maquete para o Museu Estação Férrea Várzea Grande, de Gramado.
Na semana passada, a mostra de uma de suas obras fez parte da programação da Semana dos Museu, promovida pelo Museu do Trem de São Leopoldo. O convite veio através da coordenadora do local, Melissa Goulart, após uma das visitas de Tiago pelo espaço. No evento, ele expôs uma réplica da antiga Estação Hamburgo Velho, quando fazia parte do município leopoldense, construída com riqueza de detalhes.
O trabalho é composto pela estação férrea, locomotiva, plataforma, um veículo e bonequinhos, de cerca de 2 centímetros de altura, que representam passageiros e trabalhadores, modelados no computador, impressos em 3D e feitos de resina, na escala 1:76. Além disso, há os trilhos, feitos a partir de latão e plástico, a vegetação e o solo. Tudo pintado e envelhecido à mão. “Demorei dois dias para produzir a maquete”, revela.
Junto dela, há ainda três modelos de locomotivas antigas, vermelhas: a B12 – do mesmo modelo que existe no sítio histórico do museu, a G26 e a GT22.
“Memória que virou história”
Amante de História, Tiago tem várias fotos de trens e estações antigas – inclusive, imagens que nem o Museu do Trem dispunha – e fala da sua admiração pelas curiosidades que têm acesso. “A maior parte das pessoas talvez não vai se importar, mas, para mim, é o máximo saber que essas duas portas foram feitas exatamente na distância das portas de um carro correio-bagagem, como o que tem no pátio”, diz, junto a um dos espaços do museu leopoldense.
Ele não tem certeza de quanto investiu para produzir a maquete exposta no local, mas confessa que o ferromodelismo não é barato. “É caro, exige espaço e um amor pela história, por uma memória. No meu caso, foi uma memória que virou amor pela história”, destaca.
LEIA TAMBÉM: Exposição de Carros Antigos ocorre neste sábado no Museu do Trem
Próxima réplica será da Estação Ferroviária leopoldense
Em breve, uma nova obra do artista deve estar disponível para visitação no Museu do Trem. Tiago está produzindo uma réplica do próprio local, que é considerada a mais antiga estação ferroviária do Estado. Para tanto, ele já tem a planta do local e fez o esboço da criação em uma grande tela, com os cálculos necessários e posicionamento de onde devem estar os ambientes.
Conforme Tiago, a maquete da Estação Ferroviária leopoldense contará com uma locomotiva tracionando a composição Farroupilha, com mais oito vagões de passageiros, correio-bagagem e restaurante, entre outros. A maquete representará a estação em período de atividade. “A ideia é reproduzir com o máximo de vida, como tinha naquela época, os carros, os ônibus que chegavam aqui. Vai ser situado em 1938.”