No Rio Grande do Sul, em outro estado ou até fora do Brasil. Onde há um gaúcho, com certeza há chimarrão. Parte da cultura do Estado, essa bebida tão amada tem uma origem curiosa.

Foto: ARQUIVO/GES
“O chimarrão passa por todas as classes sociais, todas as idades e todos os espaços. Vai à praia, tomado na beira do mar, nas repartições, escolas, parques, calçadas, enfim, está em todo o lugar”, afirma Maria Eunice Maciel, em um artigo publicado em 2022. Ela é mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e doutora na mesma área pela Universidade de Paris.
A erva-mate (Ilex paraguayensis) é o primeiro patrimônio cultural imaterial do RS, oficializado em 2023 pelo governo do Estado. E existe até o Dia Estadual do Chimarrão, comemorado no dia 24 de abril.
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Herança cultural dos indígenas, a bebida feita a partir da infusão de folhas da erva-mate, nativa das florestas da América do Sul, é conhecida por dois nomes. “Segundo alguns folcloristas, a diferença entre os dois consistiria no fato de que o chimarrão é sempre amargo, enquanto que o mate pode ser tanto amargo quanto doce”, explica Maria.
Para os guaranis, se tratava da caái. A palavra vem de caá, que significa árvore, e i, que é água. E os primeiros europeus que tomaram a bebida foram os espanhóis, que chegaram no território que hoje é o Paraná. Rapidamente, ela se tornou popular.
Proibido pela Igreja Católica e mais
Por volta de 1600, o consumo do chimarrão chegou a ser proibido pela Igreja Católica. “Associada aos índios, em especial aos pajés guaranis, e tida como afrodisíaca, era considerada perigosa.”
No entanto, a tentativa de fazer com que a população deixasse a bebida de lado não deu certo e, no fim, a própria igreja começou a produzir a erva-mate. As Missões Jesuíticas usavam a erva, inclusive, como uma espécie de moeda.
Ainda, eles incentivaram o consumo para afastar as pessoas do álcool, segundo o Sindicato da Indústria do Mate no Estado do Paraná (Sindimate).
Em 1991, o então governador do RS Alceu Collares tentou proibir o consumo do mate, desta vez, nas repartições públicas estaduais. A motivação para isso é que a bebida estaria atrapalhando o trabalho. Mas a polêmica caiu em desuso.
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Bebida social: “Chimarrão de calçada”
Sem dúvida, o chimarrão é uma bebida social, principalmente com as famosas rodas pelo RS. Não que ele não possa ser consumido por uma única pessoa, mas a antropóloga aponta que o mate reforça os laços de um grupo, visto que uma mesma cuia e bomba são compartilhados, junto com as histórias.
Antigamente, a antropóloga Maria conta que era comum o “chimarrão de calçada”. Assim, nos dias mais amenos, as pessoas colocavam as cadeiras pra fora e ficavam “chimarreando e conversando”, tanto nas cidades pequenas quanto nos bairros de grandes municípios. E quem passava por ali, já parava para conversar e aproveitava para tomar um mate.
A festa só terminava quando ficava frio, chovia ou então estava muito tarde. “As vezes, servia mesmo para indicar a meteorologia”, explica. “Quando alguém chegava de uma outra localidade e era perguntado sobre que tempo estava fazendo lá, podia dar como resposta: ‘de chimarrão na calçada, só uma noite'”, escreve. Mas com o aumento das televisões, ela afirma que o hábito diminuiu.
Apesar de ser também muito consumida fora do Estado e do País, o chimarrão se tornou parte da identidade dos gaúchos.
Informações Revista Farinha e Rapadura: Chimarrão, Fierp.
No Rio Grande do Sul, em outro estado ou até fora do Brasil. Onde há um gaúcho, com certeza há chimarrão.