O início do tarifaço anunciado por Donald Trump no dia 9 de julho foi adiado por alguns dias e nem mesmo a lista de isenção de produtos amenizou os danos na economia, especialmente a gaúcha. E como chegamos neste cenário e quais as possíveis alternativas para amenizar ou solucionar os impactos para exportadores e até mesmo para o consumidor final?

Foto: Daniel Torok/Casa Branca
O economista e professor do curso de Gestão de Negócios da Unisinos, Pedro Sampaio, explica que estamos vivendo o que chama de “ressaca da globalização”.
“Isso no sentido de que caiu por terra aquela ideia de que a integração dos países através do livre comércio garantiria um maior patamar de prosperidade e bem-estar social. Isso ficou muito evidente durante a crise financeira global, em 2007, 2008. E neste contexto, mesmo no pós-crise, a recuperação é lenta e difícil nos EUA, principalmente no mercado de trabalho, onde houve a descentralização das cadeias de produção, o que gerou mal-estar social, inflação. Isso está diretamente ligado ao fenômeno Trump”, conta.
O economista lembra que desde a primeira gestão de Trump foi adotada a estratégia político-econômica que “visa interesses específicos com parceiros comerciais específicos e, por vezes, fazendo o chamado protecionismo comercial, uma politica tarifária mais arrojada.”
Cenário não é novo
Tarifas mais elevadas já foram aplicadas anteriormente sobre produtos brasileiros. “Em 2018, 2019, houve a cobrança tarifária no setor da metalurgia. Mas, naquela época, Trump voltou atrás após agendas de empresários e negociações. Então, esse olhar para o Brasil não é algo novo. No entanto, desta vez, ganhou novos fatores como a política brasileira”, contextualiza Sampaio.
Além da questão política, que envolve o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o economista cita a questão do BRICS, bloco econômico que reúne países como o Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul e outros chamados países emergentes. A criação de uma moeda alternativa ao dólar americano teria sido pauta de um dos encontros do bloco.
Sampaio também cita as recentes críticas de Trump ao sistema de pagamento brasileiro Pix. “São elementos econômicos novos e podem estar sido vistos como estratégicos pra disputar frente ao Brasil.”
O Rio Grande do Sul
Conforme o estudo preliminar da Fiergs, o RS é um dos estados mais afetados com o tarifaço e o menos contemplado com as isenções. “É um estado que está com bastante risco. O Rio Grande do Sul é um estado que ainda não se recuperou das enchentes, que está em reconstrução.
O economista e professor da Unisinos destaca que alguns setores podem vir a mirar em novos mercados, como o da Ásia. Seria o caso principalmente de produtos primários, envolvendo setores como o agroindustrial e pecuária.
Mas, na região, com foco em indústrias têxteis e um grande polo calçadista, já há uma “disputa” de mercado com produções asiáticas, em especial a chinesa. “Temos o chamado fast fashion, com redes como Shein, Shopee. E com o produto calçadista ficando mais caro lá fora, pode ser que a China abocanhe parte das nossas exportações”, comenta.
Sampaio também menciona a situação da Taurus, de São Leopoldo, que tem quase 86% da sua produção enviada ao mercado norte-americano. “Com um parceiro comercial desta magnitude fica muito difícil escoar esta produção ou pensar em alternativas”, lamenta.
Efeitos para o consumidor
Os impactos deverão ser sentidos também a partir do fechamento de empresas e de postos de trabalho em setores exportadores. “Temos muitas empresas que dependem desta receita, então podemos ter queda de dinamismo, fechamento de unidades e a perda de empregos”, avalia o economista.
Em relação ao valor dos alimentos e uma possível redução dentro do mercado interno, na visão do especialista, tudo depende da absorção da demanda no mercado interno.
“Alguns economistas até sinalizam um certo otimismo, um alívio da inflação haja vista que teríamos mais oferta no mercado interno. E existem setores em que isso pode acontecer, devido à maior capacidade de absorção, mas outros nem tanto. E devemos lembrar que o que fica mais barato deve ser compensado com um maior volume de vendas. Além disso, o preço do que consumimos é regulado pelo preço da exportação. É como meu professor de graduação dizia ‘a gente come em dólar’.”
Teremos negociações?
Ainda na avaliação de Sampaio, não estão descartadas novas negociações entre Brasil e EUA. “As sanções com A China foram revertidas, em parte, então acredito que podemos esperar que a via diplomática seja feita sem deixar, claro, de cobrar, se articular, em favor de politicas públicas que amorteçam estes impactos.”