“Meu contrato não tinha opção de renegociação, está bem difícil.” Esta é a reclamação de Cheila Machado de Camargo, de 40 anos, moradora de Nova Hartz, apenas uma das mais de 1,1 milhão de pessoas inadimplentes devido aos contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) em fevereiro de 2026.
O número corresponde a 57,6 % dos 1,9 milhão de contratos em amortização, incluindo financiamentos concedidos de 2010 a 2025. Os dados foram fornecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Foto: Agência Brasil
Cheila contratou o Fies no primeiro semestre de 2014 para cursar Psicologia, com um percentual de 100% de financiamento. Como estudante pela Faccat – Faculdades Integradas de Taquara, o custo integral na época seria de R$ 200,00 por disciplina caso não dispusesse de financiamento ou bolsa (ou seja, R$ 1 mil para cinco disciplinas).
“Na época da amortização, as parcelas eram de R$ 732 e meu salário era de R$ 1400. Em 2024 eu não consegui mais pagar e a dívida chegou a R$ 8.200, com 11 meses de atraso”, relata.
Sem ter conseguido a liberação para renegociar, Cheila acabou ganhando outro problema. “Meu fiador me cobrou judicialmente. Hoje em dia, além de pagar meu financiamento, pago meu fiador que acabou pagando a dívida para não ficar com restrições em seu próprio nome”, comenta.
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Embora sua renda tenha passado a ser de R$ 5.710, a profissional ainda enfrenta aperto para lidar com o acúmulo de contas. Somando apenas as parcelas atuais do financiamento e os valores pagos ao fiador, o gasto é de R$ 1.442. “Está comprometendo a minha renda e não posso deixar de pagar para ele para não perder a negociação que fizemos.”
Governo renegocia contratos de 2018 e dívidas mais antigas ficam de fora
Em janeiro de 2024, o governo federal lançou o Desenrola Fies para renegociar dívidas de até 30 de junho de 2023, oferecendo descontos entre 77% e 100%, além de novas opções de parcelamento. Naquela data, eram mais de 1,2 milhão de inadimplentes, conforme divulgava o FNDE.
Embora o número tenha reduzido, os dados revelam que dos 1,6 milhões de contratos assinados em 2017 ou antes, 953,5 mil continuavam inadimplentes em fevereiro de 2026, ou seja, 56,6%.
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Em 2026, o FNDE anunciou uma nova rodada de renegociação, dessa vez contemplando apenas contratos assinados a partir de 2018, regulamentada pela Resolução MEC nº 64, de 24 de julho de 2025. Além disso, o egresso precisa atender também aos seguintes critérios:
- Estar com o contrato em fase de amortização em 31/07/2025;
- Estar inadimplente por mais de 90 dias na data de 31/07/2025;
As condições para quem se encaixa no perfil são desconto de 100% dos encargos moratórios (juros e multas por atraso); parcelamento do saldo devedor em até 180 parcelas mensais e sucessivas; parcela com valor mínimo de R$ 200,00 (exceto se o saldo devedor for inferior); e pagamento de entrada correspondente ao valor da primeira parcela.
Nas redes sociais, a área de comentários da publicação é inundada com pessoas pedindo que o governo federal possibilite também a renegociação de dívidas de contratos assinados em 2017 ou antes.
“E a renegociação para quem tem Fies antes de 2018? Precisamos de AJUDA do GOVERNO para nos livrar dessa dívida eterna!”, diz um deles. “O meu é de 2013. Não vai ter para nós? Parei de pagar em 2023… precisamos de ajuda!”, questiona outro usuário.
O FNDE afirmava, até a data de publicação desta reportagem, que “o Comitê Gestor do Fies tem discutido novas formas de renegociação de dívidas e redução da inadimplência do programa para toda a carteira do Fies, entretanto ainda não há previsão de quando serão disponibilizadas aos financiados”.
Diferenças entre Novo Fies e antigo
Nos contratos assinados até 2017, os alunos pagavam taxas de juros fixas (3,4% ao ano) e possuíam uma fase de carência de 18 meses após o curso. O objetivo era viabilizar que o estudante egresso tivesse um tempo para conseguir emprego na área em que se formou, e assim, ter recursos para a amortização.
Além disso, dependendo da renda do estudante, o Fundo de Garantia de Operações de Crédito Educativo (FGEDUC) substituía o fiador no contrato.
Agora, a taxa de juros é zero para quem possui renda familiar de até três salários mínimos, segundo cartilha divulgada pela Caixa. No entanto, a fase de carência deixa de existir e a amortização inicia-se no mês seguinte ao da formatura, com possibilidade de desconto no contracheque.
Com o Novo Fies, o FGEDUC também deixou de substituir a opção de Fiador.
Financiamentos estudantis carregam histórico de inadimplência
Criado em 2001, na gestão do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o Fies substituiu o antigo Programa de Crédito Educativo (Creduc), que existia desde 1975.
Segundo informações publicadas pela Agência Senado, a substituição ocorreu porque o Creduc possuía uma taxa de inadimplência de 84% em 2003, com mais de 200 mil contratos ativos na época.
Mas, com o passar do tempo, o desafio voltou a aparecer. Em 2017, o Ministério da Educação (MEC) divulgou que a taxa de inadimplência era de 46,4% e que o fundo garantidor não era o suficiente. “O ônus fiscal do Fies em 2016 chegou a R$ 32 bilhões, valor 15 vezes superior ao custo apresentado em 2011”, informava o material que focava nos debates sobre o projeto do Novo Fies, instituído em dezembro de 2017 para contratos assinados a partir de 2018.
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