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TARIFA DE TRUMP

Indústria calçadista pode perder até 4 mil postos de empregos nos próximos 12 meses; saiba a projeção para o setor no RS

Levantamento é da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados); Vale do Sinos terá impacto maior

Indústria calçadista pode perder até 4 mil postos de empregos nos próximos 12 meses; saiba a projeção para o setor no RS
Publicado em: 08/08/2025 às 06h:23 Última atualização: 08/08/2025 às 06h:39
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Eleito sob o slogan “Make America Great Again”, que significa “Faça a América Grande Novamente” em tradução livre, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, taxou centenas de produtos brasileiros em 50%. A medida, que passou a valer na última quarta-feira (6), vai afetar diversos setores, levando a milhares de pessoas ao desemprego em todo o Brasil.

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O Rio Grande do Sul será um dos estados mais impactados pelo tarifaço. Apesar retirar alguns setores da sobretaxa, o decreto de Trump manteve a taxação a ramos essenciais para a economia gaúcha. Entre eles, destaque para as calçadistas, fumageiras e armamentistas.

Setor calçadista é um dos mais impactados pelo tarifaço | abc+



Setor calçadista é um dos mais impactados pelo tarifaço

Foto: Abicalçados/Divulgação

Conforme a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), a redução das exportações nos próximos 12 meses devem chegar a 16,4% no Estado. Quando o assunto é o mercado de trabalho, até 3,9 mil postos de empregos podem ser fechados no período.

O RS é o estado que mais empregou no setor no primeiro semestre de 2025, com 82,2 mil vagas preenchidas. Neste quesito, o Vale do Rio dos Sinos emprega 32 mil pessoa, o Vale do Paranhana e a Encosta da Serra contribuem com 22,2 mil empregos e a região das Hortênsias e Serra com outras 4,7 mil.

Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Calçados do RS (Sicergs), Renato Klein, o percentual de receita das exportações para os Estados Unidos das calçadista do Vale do Sinos é de 33%, enquanto do Vale do Paranhana e Serra a contribuição é de 21%.

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“Temos empresas que tem forte dependência do mercado americano. A perda de linhas de produção e por consequência de postos de trabalho é uma realidade”, diz Klein.

Tempo para retomada do setor pode ser longo

Klein explica que reposicionar uma marca demanda adaptação de produtos, novas certificações e canais comerciais, o que pode levar tempo. “O formato Private Label [produzir para marcas estrangeiras] dificulta ainda mais, pois os produtos são feitos para marcas dos EUA, fazer um novo direcionamento desta produção não é tarefa que se faça do dia para a noite. Acredito que teremos um desafio para os próximos 3 a 5 anos.”

Para ultrapassar o desafio, o presidente do sindicato reforça a necessidade de políticas públicas para incentivar as exportações. “Estamos buscando ações que minimizem os danos junto aos governos estadual e federal desde o anúncio da medida.” Para isso, Klein já se reuniu com a Fiergs durante a semana.

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Empresas já são impactadas

De acordo com a Abicalçados, 84% das calçadistas gaúchas afirmam que já foram impactadas pelas medidas do governo dos EUA, grande parte com atrasos ou paralisação de negociações que estavam em andamento. “Dependemos [setor] destas exportações”, reforça a coordenadora de Inteligência de Mercado da entidade, Priscila Linck.

Priscila afirmou que 57% dos empresários do setor relataram cancelamentos de pedidos, produzidos, ou não. Já o presidente do Sicergs destaca que o cenário é altamente instável e recente. “São diversos fatores que influenciarão, e cada empresa precisará realizar uma análise individualizada de seu posicionamento estratégico e de sua capacidade de adaptação.”

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O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, salienta que há necessidade de medidas com caráter emergencial para a preservação dos empregos e das próprias empresas. “Entre os impactos já relatados há atrasos ou paralisação em negociações, queda do faturamento em decorrência da medida e cancelamento de pedidos, parte, inclusive, já produzidos ou em produção”, alerta.

“Empresas serão mais afetadas do que o setor”, diz professor de economia 

Conforme o coordenador do núcleo de Competitividade, Economia Regional e Internacional (CEI) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Marcos Tadeu Caputi Lélis, 87% dos calçados fabricados no Rio Grande do Sul são destinados ao mercado interno (nacional) e 13% para outros países. “Empresas serão mais impactadas do que o setor como um todo.”

Ou seja, a cada 100 pares de calçados fabricados, 87 são vendidos para o Brasil. Levando em conta, calçadistas que têm um percentual menor de exportação, especialmente para os Estados Unidos, não devem ser tão impactadas. Já àquelas que têm no mercado estadunidense sua principal fonte de renda, devem sofrer as consequências, buscando novos compradores.

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A busca, inclusive, não será fácil, segundo o próprio professor. “Não se substitui o mercado de uma hora para outra. A logística é diferente.” Lélis destaca que 53% da exportação de calçados brasileiros são oriundas do RS. “Nosso Estado é o maior polo exportador do Brasil, principalmente calçados de couro.”

Outro ponto abordado pelo professor diz respeito a recomposição do mercado. “Pode demorar anos para retomar. Pensamos assim, se houver a redução ou retirada da taxa de 50%, um fornecedor de outro país tomou o lugar do Brasil como exportador para os EUA. As negociações entre calçadistas brasileiras e clientes voltam para o zero.”

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Questionado sobre ações dos governos federal e estadual, Lélis reforça que o ideal seria beneficiar empresas que exportam apenas para os Estados Unidos e não o setor como um todo.

Impacto no Vale do Sinos

O coordenador do CEI também falou sobre os impactos na região do Vale do Sinos. Para ele, é necessário ter um olhar detalhado para cada setor e região. “Os setores não serão afetados de forma hegemônica.”

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No Vale do Sinos, além das calçadistas, o ramo armamentista também é impactado. Lélis citou o exemplo da Taurus, que anunciou que vai transferir parte da linha de montagem das suas pistolas, produzidas na sede de São Leopoldo para a fábrica que fica nos Estados Unidos.

E lembrou que as fumageiras de Santa Cruz do Sul são multinacionais, ou seja, com recuperação mais ágil no mercado externo.

Interesses dos Estados Unidos no tarifaço

No comunicado da Casa Branca, que confirmou o tarifaço, Trump diz que ações recentes do governo brasileiro constituem uma ameça incomum e extraordinária aos Estados Unidos. “A perseguição, intimidação, assédio, censura e processo politicamente motivado pelo Governo do Brasil contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e milhares de seus apoiadores são graves violações dos direitos humanos que minaram o Estado de Direito no Brasil”.

Entretanto, outros três fatores podem estar atrelados ao tarifaço. O primeiro são os interesses das chamadas big techs. Em entrevista à Reuters, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que não vai aceitar interferência de outro país na legislação brasileira. A regulamentação das empresas deve aumentar os custos no Brasil. Se não quiser regulação, que saiam do Brasil, não existe outro mecanismo. Da mesma forma que lá nos Estados Unidos uma empresa brasileira é obrigada a seguir a legislação americana.”

Há também a questão do Pix, que retirou rentabilidade das operadoras de cartão de crédito. A possibilidade de utilizar o recurso na função crédito pode mexer ainda mais com a renda das gigantes estadunidenses, responsáveis por boa parte da oferta de cartões no Brasil.

Por fim, há o interesse dos EUA nas terras raras e minerais críticos em território brasileiro. Conforme o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um acordo sobre os temas pode ser assinado com o governo dos Estados Unidos.

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