Na sexta-feira, 1º de agosto, se nada mudar – como nada mudou nas últimas três semanas, desde o anúncio do desajuizado tarifaço norte-americano –, os produtos brasileiros receberão uma absurda taxação de 50% porque o presidente norte-americano Donald Trump, talvez o mais ignóbil líder que já chegou à Casa Branca, decidiu que vai ser assim e pronto.

Foto: Casa Branca/Reprodução
Trump mente – algo que parece tem se tornado cada vez mais comum nos discursos de líderes políticos – quando diz que há um déficit na balança comercial dos Estados Unidos com o Brasil.
Os americanos mais exportam do que importam desde 2009, mesmo que nos dois últimos anos esta margem tenha diminuído bastante. O maior déficit nesta balança das últimas três décadas, na realidade, foi brasileiro, em 2022, “curiosamente” o ano final do governo Bolsonaro. Ou seja, o tarifaço de 50% não se trata de economia.
Uma frase de Trump na última semana em evento nos EUA mostra isso: “Em alguns casos, é 50% porque o relacionamento não tem sido bom com esses países. Então apenas dissemos: ‘vão pagar 50’. E é isso”. Ou seja, uma total prepotência.
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E também não se trata de uma “amizade” com o clã Bolsonaro. O próprio Trump já admitiu à imprensa americana: “Não é que ele seja meu amigo, é alguém que eu conheço”.
O caso Bolsonaro, julgado por ações de montagem de um plano golpista no País, é parte de um contexto maior que inclui uma clara resposta a questões ligadas com decisões judiciais do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre Moraes, inclusive que afetaram Trump e seu “ex-amigo e conselheiro” Elon Musk.
Segundo Trump e seus seguidores, as decisões de Moraes afetam “a liberdade de expressão dos EUA”. Ele só esquece – ou melhor, ignora no sentido de nem querer saber – que o Brasil não é (d)os EUA, e que aqui ele tem que submeter às leis e decisões.

Foto: Alan Santos/PR-Divulgação
Claro que neste pacote se inclui uma anistia total a Bolsonaro. O ex-presidente já está inelegível por uso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e espalhar desinformação sobre o sistema eletrônico de votação, não coincidentemente práticas que Trump livremente faz nos EUA e seu clã, com clara vista às eleições do próximo ano, um Bolsonaro na presidência ajudaria e muito Trump.
Questões políticas
E aí caímos em um outro ponto, talvez um dos mais fortes: Trump odeia o presidente Lula e suas atitudes e vice-versa. Não é coincidência que o tarifaço foi anunciado poucos dias após um encontro do Brics, bloco econômico que reúne países como o Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul e outros chamados países emergentes.
Em uma das pautas estava a criação de uma moeda alternativa (leia-se substituta) ao dólar americano. Ora, nesta polarização esquerda e direita, coisa boa não poderia resultar disso.
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Além disso, o presidente brasileiro teve encontros com líderes antagônicos aos EUA, como Rússia e China, em maio, com declarações como esta, feita na primeira quinzena de maio, exatos dois meses antes do tarifaço:
“As últimas decisões anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos de taxação de comércio com todos os países do mundo, de forma unilateral, joga por terra a grande ideia do livre comércio, joga por terra a grande ideia do fortalecimento do multilateralismo e joga por terra muitas vezes o respeito à soberania dos países que nós temos que ter”.

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Em meio a isso tudo, Lula não ajuda também ao desafiar Trump. Suas bravatas nacionalistas neste momento são eleitoreiras e pouco diplomáticas, mesmo que diplomacia seja algo que o presidente americano desconheça.
O Brasil deve defender sua soberania, sim, mas não é com frases de botequim que vai se resolver algo – “eu não sou mineiro, mas eu sou bom de truco, Se Trump estiver ‘trucando’ (blefando), ele ‘vai tomar um seis”, disse Lula, dizendo que aumentaria a “aposta” em caso de blefe como é feito no jogo de cartas.
A pressão tarifária também teria alguns aspectos econômicos não ligados à questão da balança comercial. O Brasil teria reservas de minerais e as chamadas terras raras que contém elementos importantes para setores tecnológicos como o energético e de produção de semicondutores, algo no qual os Estados Unidos estão de olho. Vale lembrar que as negociações à base de chantagens tarifárias ou de suporte bélico com China e Ucrânia, respectivamente, passaram por esta pauta também.
Ou seja, Trump é um ardiloso negociante. E brasileiros apoiarem ele só pelo fato de uma ideologia política demonstra que o lema “Brasil acima de tudo” é apenas uma fachada. Ah, mas “o Brasil com Lula não é o meu Brasil”. Ora, quem defende este tipo de ardil político estrangeiro feito por Trump – que é capaz de causar bilhões de dólares em prejuízo ao País e causar desemprego – gostaria de seguir aquele igualmente sombrio slogan da ditadura militar “Ame-o ou deixe-o?” É ruim quando se está do outro lado, mas não é assim que deveria ser uma oposição civilizada.
Uma democracia precisa ser baseada em respeito, algo que, infelizmente – e que muito se deve à proliferação das idiotices em redes sociais – é algo raro por aqui.
Efeitos do Trumpaço
A semana final de julho deve ser tensa. No Brasil é clara a preocupação com o tarifaço que afetará muitos setores econômicos. Mas não é só aqui que há temor pelos efeitos nefastos da prepotência do Trumpaço.
Nos Estados Unidos já há uma movimentação bem preocupada com a economia americana que também será afetada com esta sobretaxa. Senadores americanos enviaram carta a Trump falando em “claro abuso de poder” na tarifação ao Brasil.
“Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. (…) Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação”, diz a carta.
E os senadores vão além: “Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região. (…) Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China (RPC) em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina.”
A preocupação é dupla: o tarifaço não afetará apenas o Brasil, mas também os EUA, e as ações de Trump podem aproximar ainda mais o Brasil da China, algo que todos americanos, republicanos e democratas, temem dentro da velha questão ideológica capitalismo x comunismo.
E esta é uma questão importante: as atitudes chantagistas e prepotentes de Trump podem levar o mundo inteiro a repensar a relação com os americanos. Buscar novos modelos que reduzam a dependência econômica em relação aos EUA.
Trump joga pesado e sem escrúpulos. Pode ser que ganhe aqui ou lá, mas, talvez, a médio e longo prazo, ele faça exatamente ao contrário do que prometeu em sua campanha de “a América grande novamente”.
Os efeitos destes tarifaços mundo afora podem fazer o mundo todo repensar a relação com os americanos.
Trump pode ganhar as quedas de braço a curto prazo. Mas os “vencidos” vão buscar meios de se livrar cada vez mais da influência americana.
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