Minha primeira lembrança de Copa é a vibração do pessoal no boteco do meu avô, às margens da BR-116, com o tri do México, em 1970. Aquela imagem da tevezinha (preto e branco) no alto do balcão do armazém e todo mundo xingando e torcendo ao redor. Mas é um flash. Não tinha ainda 4 anos (nasci poucos meses depois da Copa de 66). As lembranças são fragmentadas. Minha primeira Copa, de verdade, seria a de 74.

Foto: Vitor Silva/CBF
Posso, então, dizer que fui da geração que esperou 24 anos para realmente festejar uma Copa (o tetra de 1994). A de 1974 (na qual a Holanda mostrou para Zagallo como funciona um carrossel) até acompanhei com direito a marcar a tabelinha de jogos – acho que era de uma marca de pilhas para os radinhos. Aliás, naquela época o radinho de pilha era a principal maneira de se acompanhar os jogos.
Vieram as frustrações de 1978 (aquela com uma “ajudinha” do Peru para a Argentina golear e tirar nossa seleção da final), de 1982 (a trágica eliminação daquela super seleção para a Itália em Sarriá, na Espanha), 1986 (uma eliminação doída para a França, com pênaltis perdidos pelos craques Zico e Sócrates) e 1990 (o injusto 1 a 0 para a Argentina, em um jogo que o Brasil podia até ter goleados os hermanos).
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O tetra de 1994, da chamada Era Dunga, com Romário comandando o show e Bebeto de escada, foi sofrido, exatamente nos EUA, em uma Copa disputada em horários horrendos, sob um forte calor, como na final, na qual o Brasil jogou melhor, mas quis o destino que a primeira decisão de Copa nos pênaltis fosse decidida em um erro do italiano Baggio.
E, agora, temos mais uma geração na espera de 24 anos. Depois do maravilhoso penta, em 2002, também em uma Copa inédita, disputada em dois países, a primeira na Ásia, com Felipão, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho brilhando, caímos por quatro vezes nas quartas de final e tivemos um “desonroso” 4.º lugar na nossa Copa, em 2014, com aquele 7 a 1 alemão na semifinal e o 3 a 0 holandês na decisão do 3.º. Na última, fomos eliminados nos pênaltis (o nosso atual capitão Marquinhos chutou na trave), após sofrer um gol de falha no sistema defensivo nos minutos finais da prorrogação.
Expectativa para agora? Baixa. Talvez mais uma quarta de final. Semifinal já seria vitória. A atual seleção, que viveu uma bagunça criada pela CBF até a chegada de Carlo Ancelotti, não anima. São raros lampejos em meio a um futebol truncado e pouco inspirado, e com falhas em muitas partidas, como já foi no Catar.
A seleção vive de glórias do passado e individualidades que não são unanimidade. Neymar deveria ser o expoente, mas, apesar de todo o talento, a cada Copa ele chega com algum problema. Os outros são nomes de destaque em seus times, como Vini Jr. e Raphinha, mas (pelo menos ao meu ver) ficam devendo para serem classificados como craques, principalmente na seleção.
É preciso acreditar mais uma vez
Mas é verdade, que raramente a seleção empolga antes da estreia. Foi assim, por exemplo, em 1958 e nas duas últimas conquistas, em 94 e 2002.
No final das contas, podemos não ser os favoritos como França, Argentina e Espanha, mas o Brasil é sempre candidato. A amarelinha ainda encanta, mesmo que o futebol apresentado não faça o mesmo.
E, se a garra entrar em campo, talvez Marquinhos, Vini e cia (torcendo para que Neymar se recupere para nos dar algumas centelhas de camisa 10) consigam quebrar esta seca de 24 anos. O técnico Carlo Ancelotti, italiano que nunca jogou uma Copa (em 1982 ficou de fora daquela seleção tricampeã devido a uma lesão) e que foi auxiliar de Arrigo Sacchi na perda do tetra para o Brasil, em 1994, agora tem sua primeira Copa à frente de uma seleção.
E quis o destino que fosse o Brasil. A gente força, e lembra que Vicente Feola, o primeiro técnico a levar o Brasil a um título de Copa , em 1958, era descendente de imigrantes italianos. E naquela Copa, coincidentemente, a Itália também não foi. Ó…
Bom, o negócio é torcer e, como em 1994, acreditar de novo.