Desde fevereiro deste ano, quando o governo norte-americano declarou que o grupo venezuelano Tren de Araguas era uma organização terrorista, os ânimos entre Washington e Caracas estão acirrados e uma guerra entre os dois países é cada vez mais iminente. De lá para cá, já aconteceram dezenas de ataques a embarcações no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, com, pelo menos, 107 pessoas mortas entre os meses de setembro e dezembro.

Foto: Divulgação/Marinha dos EUA
O presidente venezuelano Nicolás Maduro foi classificado pelo americano Donald Trump como “maior narcotraficante do mundo” e uma recompensa de US$ 50 milhões foi oferecida por informações que levem a sua prisão. Nesse clima entre as nações, até um navio petroleiro foi tomado a mando da Casa Branca. Na semana passada, autoridades norte-americanas também confirmaram que destruíram instalações no território venezuelano, sem detalhar o local.
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Foto: Divulgação
Especialistas em relações internacionais traçaram um panorama da geopolítica regional, colocando a Venezuela e seu petróleo no centro das tensões. Para o professor do curso de História da Universidade Feevale, Rodrigo Perla Martins, a política externa dos EUA em relação à América Latina passa por um momento de reativação de antigos pilares, com a doutrina Monroe ressurgindo em um cenário de disputa global por recursos e influência.

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O professor de Relações Internacionais da Unisinos, Cícero Krupp, acrescenta que não se trata de uma continuidade linear da doutrina, mas sim de uma volta com características distintas. Ele argumenta que a manobra reflete a posição de uma potência que se sente em declínio.
“O que a gente verifica, então, da diferença do século 19 para o século 21, é justamente que de o ator hegemônico em declínio, parece um ator se debatendo,” destaca, referindo ao slogan de Trump “Make America Great Again” (fazer a América grande novamente) . “Se é ‘great again’ é porque deixou de ser grandiosa, deixou de ser hegemônica”, considera.
Estratégica
Martins destaca que a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, sendo estratégica e geograficamente bem posicionada no Mar do Caribe. “Uma das formas de tentar justificar internamente os ataques ao país é aproximar os Estados Unidos das maiores reservas de petróleo do mundo. Então, isso é cada vez mais claro”, pondera.
Neutralidade brasileira
O Brasil, como país que faz fronteira à Venezuela, tenta manter uma “certa neutralidade” e “equidistância,” segundo Martins, buscando a pacificação regional para evitar a desestabilização da América Latina e o envolvimento de potências externas. A principal preocupação do Brasil é evitar que a crise venezuelana se generalize e cause um colapso na segurança regional.
Além disso, atualmente são poucos os países com governos de esquerda no continente, como México, Colômbia e Brasil, esses dois últimos com eleições no ano que vem.
“A América Latina que já foi uma bandeira rosa (de esquerda), pode ser uma bandeira amarela (de direita). Então, não só na questão militar e geopolítica, mas na questão eleitoral, este ano próximo na América Latina conta muito para o que vai ser essa hegemonia dos Estados Unidos aqui.”
Sanções
Para Krupp, as sanções econômicas não dão o resultado esperado por que acabam estimulando o discurso nacionalista da população venezuelana, que é quem sofre com as medidas. “Essas sanções geralmente não têm o efeito desejado de causar uma pressão interna tão forte a ponto de uma mudança do regime. O que acontece é que esses regimes acabam sobrevivendo por conta da criação de um inimigo externo que está impondo essas sanções. Os Estados Unidos é o demônio.”
Alianças informais
Em oposição à hegemonia norte-americana no mundo, países como Rússia, China e Irã fornecem suporte à Venezuela. “Não tem uma aliança formal, não é uma aliança militar.
Existem interesses momentâneos, tipo, China e Rússia auxiliaram a Venezuela com armamento, com advisors, com executivos no petróleo, fornecimento de armas — mas fornecer armas é uma coisa, gerenciar elas é outra, então não tem uma aliança,” aponta Martins, destacando que em dupla ou sozinhos, esses países enfrentam a hegemonia americana após a Segunda Guerra Mundial. Ele acrescenta que Trump foca no crescimento interno dos Estados Unidos.
Combate ao narcotráfico
Krupp questiona a legalidade das ações americanas de combate ao narcotráfico no Caribe. “Esses ataques a lanchas e barcos, que são supostamente de narcotraficantes, são ataques ilegais. A gente precisa pontuar que eles são execuções extrajudiciais. Sem enquadramento legal, nem no direito do mar, nem no direito internacional… Isso realmente é algo vergonhoso e absurdo do ponto de vista internacional”, avalia, destacando que é preciso respeitar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que já recebeu denúncias de que uma das vítimas dos ataques era um mero pescador colombiano.