Por conta das mudanças climáticas, o processo de derretimento de geleiras tem acelerado e, com isso, vírus remotos podem acabar sendo reinseridos no ciclo terrestre. Em entrevista à CNN Brasil, o virologista Fernando Spilki explica que, caso “esses vírus estejam em estado de conservação adequado pelas baixas temperaturas”, nada impede que isso, de fato, ocorra.

Foto: Jean-Michel Claverie/IGS/CNRS-AMU
Assim, para tentar entender os riscos desses chamados vírus “zumbis”, Jean-Michel Claverie, professor emérito de medicina e genômica na Escola de Medicina da Universidade Aix-Marseille em Marselha, na França, tem realizado estudos focados em permafrost – uma superfície que permanece a 0°C ou menos durante, no mínimo, dois anos consecutivos.
“Ali a gente pode ter vírus e outros patógenos com os quais nós, no curso recente da história, não tivemos contato”, explica Spilki.
Ainda que, até o momento, não haja comprovação de que o processo de descongelamento tenha trazido de volta vírus com potencial infeccioso, o virologista relata que há sinais que isso possa ocorrer, “por exemplo, com a emergência de novos vírus em espécies animais silvestres nessas regiões mais polares do mundo nesses últimos anos”.
Inclusive, conforme ele, há uma suposição que foi a partir dessas regiões que algumas doenças conhecidas, como o vírus influenza, tenham chegado até a população humana.
Reativação dos vírus
Um vírus que estava isolado do permafrost há 30 mil anos foi reativado pelo professor Claverie e sua equipe em 2014, ao inseri-lo em células cultivadas. A ação foi feita para estudo e, por questão de segurança, foi utilizado um vírus que só poderia atingir amebas unicelulares, não animais. Em 2015 e no início de 2023, outros tipos de vírus foram reativados.
O vírus mais antigo que já foi revivido pelo professor é de quase 48.500 anos e foi retirado de uma amostra de terra coletada em um lago subterrâneo localizado a 16 metros abaixo da superfície.
Alerta
O tempo que esses organismos podem permanecer infecciosos depois de reativados ainda é desconhecido. As chances que eles possam encontrar um hospedeiro em um eventual descongelamento, também não é sabida pelos cientistas.
Também em entrevista à CNN, Claverie disse que “o degelo do permafrost continuará acelerando e mais pessoas povoarão o Ártico na sequência de empreendimentos industriais”.
Para Spilki, é necessário que seja feito um monitoramento. “Vigiar o ambiente, outras espécies animais e até a própria espécie humana é fundamental para que a gente detecte o mais rápido possível, antes que o problema ganhe muito volume, se transmita para humanos ou entre humanos e, a partir disso, você pode ter outras medidas que vão além da preparação para o diagnóstico.”
*Com informações de CNN Brasil
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